Saúde mental acaba sendo deixada de lado nas mentorias | Foto: Canva

Uma das promessas da inteligência artificial era a de que a tecnologia traria mais qualidade de vida aos profissionais, que precisariam dedicar menos tempo às tarefas operacionais da empresa. Mas, embora haja ganhos nesse sentido, uma pesquisa realizada pela Endeavor aponta que a IA também tem adicionado pressão aos fundadores.

Segundo o estudo, 78% dos founders ouvidos afirmam sentir pressão alta ou máxima para acompanhar o avanço da inteligência artificial. O mais relevante, porém, é a origem dessa cobrança: para 90% deles, a pressão vem de si próprios, bem acima do board, citado por 29%, dos investidores, por 22%, e do próprio time, por 20%.

A pesquisa ouviu 133 empreendedores de 125 empresas, conversou com 20 empreendedores e lideranças da Rede Endeavor e analisou 852 mentorias realizadas pela organização nos últimos 12 meses. Em 191 delas, a inteligência artificial foi o tema central.

O estudo mostra que a tecnologia já está incorporada à rotina dos founders. Mais da metade dos entrevistados utiliza IA por pelo menos duas horas por dia, enquanto uma parcela relevante chega a seis horas ou mais. O uso não se restringe a tarefas operacionais, como programação, prototipagem e análise de documentos: 54% recorrem à tecnologia para ideação e 32% para decisões estratégicas.

O paradoxo é que o ganho de produtividade não necessariamente se transforma em tempo livre. Com a execução mais rápida e barata, os empreendedores passam a abrir mais frentes de trabalho, analisar mais informações e chegar a reuniões mais preparados.

“Ganhei tempo de produção. Não ganhei tempo para reflexão, seria desonesto afirmar isso. Como cada frente ficou mais barata de manter aberta, o número de frentes subiu”, afirma Fernando Steler, da Delend, citado no estudo.

Mais informação, mais decisões

A maior disponibilidade de ferramentas também aumenta a quantidade de possibilidades diante do empreendedor. Em vez de lidar com poucas alternativas para uma decisão, o founder pode pedir à IA diferentes cenários, benchmarks, análises e contrapontos em poucos minutos.

O resultado é uma mudança no tipo de gargalo enfrentado pela liderança. O problema deixa de ser necessariamente a falta de informação e passa a ser a capacidade de filtrar, priorizar e decidir o que merece atenção.

“Se antes eu tinha três alternativas para uma decisão, hoje posso ter dez, quinze ou vinte. Posso construir cenários, sensibilidades, benchmarks e contrapontos quase indefinidamente. Portanto, o risco deixa de ser falta de informação e passa a ser excesso de possibilidades”, afirma Edvaldo Vieira, mentor da Endeavor.

Esse movimento ajuda a explicar por que o aumento do uso de IA não significa necessariamente menor pressão. Entre os founders que utilizam a tecnologia por seis horas ou mais por dia, 71% relatam sentir pressão máxima para acompanhá-la. Entre aqueles que usam IA por até duas horas, o índice é de 29%.

Para a Endeavor, o problema é que essa sobrecarga pode afetar justamente a habilidade que se torna mais importante em um ambiente no qual a execução é cada vez mais automatizada: o julgamento. Cansaço, ansiedade e excesso de estímulos podem levar a decisões mais rápidas e menos criteriosas, além de fazer o empreendedor confundir urgência com importância.

IA entra na decisão, mas não substitui o julgamento

O estudo aponta que 59% dos empreendedores consultam a IA com frequência antes de tomar uma decisão. Outros 26% fazem isso em temas específicos. Ainda assim, a tecnologia está longe de substituir o julgamento humano.

Quando perguntados sobre em quem confiam mais para tomar decisões, 46% afirmam confiar mais no time, enquanto 35% ocupam uma posição neutra e 20% dizem confiar mais na IA. Apenas 4% afirmam confiar totalmente na tecnologia.

A recomendação da Endeavor é que os founders considerem principalmente três fatores antes de delegar uma atividade à IA: o impacto de um eventual erro, a dificuldade de reverter a decisão e a capacidade do próprio empreendedor de avaliar a resposta produzida pela ferramenta.

Assim, tarefas repetitivas, verificáveis e reversíveis, como resumir reuniões e organizar informações, podem ter maior autonomia da IA. Já atividades como análise de dados, brainstorming e prototipagem devem ser conduzidas com a tecnologia como copiloto, mantendo o julgamento humano próximo.

No outro extremo estão decisões relacionadas a contratação, gestão de pessoas, cultura e estratégia. Nesses casos, a recomendação é preservar a decisão humana, justamente porque há maior ambiguidade, consequências de longo prazo e envolvimento de relações humanas.

A saúde do founder fica fora da agenda

Apesar do aumento da pressão, o estudo identifica um descompasso entre a importância do tema e o espaço que ele ocupa nas discussões das empresas. Nas 852 mentorias analisadas, 22% tiveram IA como tema central nos últimos 12 meses, ante 13% no período anterior. No terceiro trimestre de 2026, o percentual chegou a 31%.

Já desenvolvimento e bem-estar do próprio founder permaneceram em torno de 2% das mentorias. Nenhuma das prioridades ativas cadastradas pelas empresas mencionava saúde mental, estresse ou burnout.

Para a Endeavor, isso indica que a pressão ainda aparece mais frequentemente como uma questão de gestão do que como um problema de saúde e bem-estar. Entre as perguntas levadas às mentorias estão como lidar com a sobrecarga de informação produzida pela IA e como evitar que um founder técnico se torne um gargalo quando sua produtividade com a tecnologia supera a de uma equipe.

A recomendação, portanto, não é acompanhar toda novidade em IA, mas estabelecer limites para onde o empreendedor coloca sua atenção. Entre as práticas citadas pelos entrevistados estão reservar blocos de tempo para pensar longe da operação, manter intervalos entre reuniões, selecionar quais fontes de informação acompanhar e fechar ou pausar iniciativas que deixaram de ser prioritárias.

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