O golpe do falso advogado já responde por 11,2% das fraudes registradas no Brasil, sendo o terceiro esquema mais comum no país. Os dados constam do relatório Tendências de Fraude Bancária Digital no Brasil 2026, divulgado em novembro pela BioCatch, empresa especializada em prevenção de fraudes financeiras por reconhecimento de padrões comportamentais.
O levantamento compara o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026 com os mesmos períodos do ano anterior, reunindo dados de instituições financeiras clientes da BioCatch no Brasil. O esquema fica atrás apenas do golpe da loja falsa, responsável por 37,8% das ocorrências, e do golpe da falsa central de atendimento, com 22,5%.
Leia também: IT Forum Mulheres: Telma Soares e o protagonismo feminino na computação
Como funciona o golpe
O esquema explora a publicidade dos registros processuais no sistema jurídico brasileiro. Com acesso a números de processos e dados pessoais das partes, criminosos abordam a vítima pelo WhatsApp, comunicam uma suposta decisão favorável e cobram um pagamento antecipado via Pix para “liberar” o valor. O alvo preferencial são pessoas com processos de previdência ou precatórios, em que os valores a receber tendem a ser maiores. Versões mais recentes do esquema já usam inteligência artificial (IA) para clonar a voz de advogados reais.
Os números do relatório revelam o padrão operacional da fraude. Cada golpe envolve, em média, 3,08 tentativas de pagamento. Em uma de cada cinco tentativas, a vítima estava em ligação ativa durante a sessão bancária, o que indica orientação em tempo real pelo golpista. As sessões de pagamento fraudulentas duram três vezes mais que as legítimas, e 90% das tentativas ocorrem em horário comercial, entre 9h e 17h, com pico entre 14h e 17h.
O diretor de Global Advisory da BioCatch para a América Latina, Diego Baldin, explica por que o golpe é difícil de interceptar: “O golpe do falso advogado é difícil de barrar porque é a própria vítima quem faz a transferência, do celular dela, depois de passar por todas as camadas de autenticação. Para o banco, a operação parece legítima. O que denuncia a fraude é o comportamento durante a sessão: a ligação aberta, as pausas para receber instruções, o pagamento para alguém que ela nunca pagou antes”.
Caso registrado em Campinas
O relatório detalha uma ocorrência registrada no início de 2026 em Campinas, SP. Um cliente de longa data de um banco digital foi alvo do golpe sem que os controles tradicionais acionassem qualquer alerta; as transações partiram do mesmo iPhone cadastrado há mais de dois anos e meio, da rede doméstica e de uma localização compatível com o histórico, sem acesso remoto nem malware no aparelho.
O comportamento, porém, mudou a partir das 14h04. A vítima abriu seis sessões em pouco mais de uma hora, todas com ligação ativa, algo sem precedente na conta. As sessões de pagamento foram de cinco a 25 vezes mais longas que a média histórica; uma delas ultrapassou 27 minutos. O tempo ocioso chegou a representar entre 16% e 33% da duração das sessões, segundo o relatório, padrão de quem faz pausas para ouvir instruções. Cinco das seis sessões receberam o score máximo de risco.
No mesmo dia, a vítima realizou três pagamentos para favorecidos novos, cada um maior que o anterior e todos acima do maior gasto já registrado na conta.
Dinheiro pulverizado em contas de passagem
O estudo também rastreou uma das contas de passagem usadas no esquema. Em quatro semanas, ela recebeu R$ 83.797 de 62 pagadores diferentes. Um único pagador transferiu R$ 35 mil em quatro pagamentos ao longo de três dias. Os criminosos movimentam os recursos poucos minutos após o recebimento para dificultar a recuperação e dividem os valores em parcelas menores para escapar dos limites de detecção por valor de transação, segundo o relatório.
Engenharia social lidera fraudes no país
O falso advogado integra um quadro mais amplo de avanço da engenharia social. No período analisado, os golpes dessa natureza cresceram 15%, e a detecção de chamada ativa durante sessões bancárias subiu 88%. As sessões de fraude por acesso remoto dobraram, os pagamentos via malware aumentaram 80%, as sessões de bots cresceram 20% e os casos com dispositivos roubados avançaram 14%. Mais de 95% das sessões de fraude registradas no Brasil têm origem no próprio país.
A chief executive officer (CEO) e fundadora do Peck Advogados, Patricia Peck, chama atenção para a convergência entre engenharia social e deepfakes de voz: “A IA simplesmente oferece aos fraudadores uma forma mais convincente de fazer o que sempre fizeram; manipular pessoas, e não sistemas”.
O relatório aponta quatro sinais comportamentais que ajudam os bancos a identificar o golpe do falso advogado e outras fraudes de engenharia social:
- Ligação ativa durante a sessão bancária; raramente o cliente faz transações legítimas ao telefone, e a sobreposição entre ligação e sessão é um forte sinal de alerta;
- Tempo ocioso elevado; pausas longas no aplicativo, sobretudo quando coincidem com uma ligação, indicam que a vítima pode estar ouvindo instruções;
- Sessões mais longas que o habitual; a vítima leva muito mais tempo que o normal para concluir tarefas de rotina;
- Valores crescentes; o golpista começa com quantias menores e as aumenta antes que a vítima desconfie.
Ao fim do primeiro semestre de 2026, mais de 370 instituições financeiras utilizavam as soluções da BioCatch, que analisam 19 bilhões de sessões de usuários por mês e protegem mais de 760 milhões de usuários em mais de 1,8 bilhão de dispositivos no mundo.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

