Antes de qualquer outra coisa, já vou dizer na cara: largue tudo o que você está fazendo e vá para um cinema ver Godzilla Minus Zero. Se possível, veja na maior tela e com o melhor sistema de som disponíveis. Garanto a você que terá uma das experiências mais intensas já criadas para uma telona.
Agora, hipérboles à parte, para quem está coçando a cabeça e se perguntando como um filme do Godzilla pode ser tão imperdível assim, terei que dar um passo para trás, mais especificamente para 2023, quando a Toho (criadora e detentora dos direitos do lagartão) fez um movimento corajoso para revitalizar a franquia que criou lá nos anos 50.
Depois de anos embarcada na tese ocidental do “Monsterverso”, criado pela Legendary com a Warner e que gerou filmes no máximo aceitáveis, a Toho resolveu retomar o controle de sua IP, e começou tudo de novo. Chamou Takashi Yamazaki, experiente cineasta e um dos mais competentes especialistas em efeitos especiais do Japão, e deu a ele a incumbência de resetar a cronologia de Godzilla diretamente para sua raiz, no pós-Segunda Guerra Mundial.
A decisão da Toho não poderia ter sido mais acertada. Mais do que um espetáculo avassalador de efeitos especiais e destruição, Godzilla Minus One reinventou a mitologia do kaiju mais querido do mundo. O reboot reimaginou a escala de destruição do lagartão, resgatando o que fez o Godzilla original de 1954 ser um clássico reverenciado até hoje: trazer o aspecto humano para o primeiro plano.
Ambientado em 1949, dois anos depois dos eventos de Godzilla Minus One, o novo filme joga o espectador direto no meio de um pesadelo. Logo na abertura, o Japão é atacado por uma nova ameaça gigante, e não qualquer uma: Ghidorah, o histórico e lendário inimigo do Godzilla.
Não leva nem um minuto para os efeitos especiais encherem os olhos ao mesmo tempo que chocam com a destruição em massa, e o som do monstro rasga os ouvidos em paralelo aos gritos de desespero das vítimas. É um ataque frontal aos sentidos do espectador, sem muita cerimônia.
Capitaneados pelo diretor Yamazaki, os efeitos visuais, a direção de arte e o design dos monstros são ainda mais impressionantes que no primeiro filme. Ah, vale lembrar que Godzilla Minus One levou o Oscar de efeitos visuais em 2024, feito inédito para uma produção de língua não inglesa.
Contudo, o que impressiona de verdade é como o filme conduz toda a destruição que é mostrada na tela. Em boa parte dos filmes de monstro, ver prédios caindo vira diversão, quase um parque de diversões para o espectador. Aqui, não. Em Godzilla Minus Zero, a destruição é sempre angustiante. Incomoda, pesa e, às vezes, deixa a gente triste de verdade com o sofrimento dos personagens.
E por falar em personagens, o filme resgata o núcleo que fez de Minus One um longa especial e volta o olhar para o piloto Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), a esposa Noriko (Minami Hanabe) e a filha Akiko (Sae Nagatami). Se o primeiro filme já tinha dissecado de forma sensível a formação dessa família pouco convencional (sobreviventes da Segunda Guerra que se uniram inicialmente não por afeto, mas por necessidade), o novo longa dobra a aposta ao encaixar isso no contexto de uma sociedade japonesa que ainda lambia as feridas do pós-guerra.
A continuação também eleva o drama humano ao levá-lo para o centro do conflito entre os monstros. Por isso, traz de volta outro personagem querido, o cientista Kenji Noda (Hidetaka Yoshioka), que lidera o time encarregado de enfrentar Ghidorah, e que, num primeiro momento, falha miseravelmente na defesa da cidade de Nagano, que é devastada pelo monstro. Na realidade, o ataque fracassado só serve para transformar o já terrível dragão elétrico em uma versão ainda mais destruidora.
Esse ataque, ainda na primeira metade do filme, é um dos melhores exemplos de como Godzilla Minus Zero não poupa o espectador. É desgastante, melancólico, e transforma um simples filme de monstro numa experiência muito mais emocional, em que os riscos são sentidos na pele. Takashi Yamazaki, que também assina o roteiro, nunca deixa isso sair da cabeça de quem está assistindo, por mais que essa pessoa tenha comprado o ingresso para ver os monstros saírem na porrada.
Além de trazer os personagens queridos para quem viu Minus One, as novas adições ao elenco não estão ali só para encher a tela. Elas trazem outros contextos e dramas pessoais, mas sem inchar a história com tramas paralelas desnecessárias. O melhor exemplo disso é o do cientista Shiro Murakami (Min Tanaka), que carrega seus próprios traumas (mostrados em comoventes flashbacks) e cria o plano para trazer Godzilla de volta, como a única alternativa possível para abater a ameaça que é Ghidorah. Aliás, as motivações de Murakami para reviver o lagartão vão bem além disso, por assim dizer.
Sem entrar em spoilers, a forma como o filme traz de volta o seu monstro mais famoso também carrega uma leve crítica e contexto histórico. Além da menção direta à Segunda Guerra, Yamazaki entra em uma nova discussão, abordando o belicismo que volta a crescer no pós-guerra, inclusive com a presença, ainda que discreta, do exército americano na trama. São pinceladas, mas suficientes para uma crítica que soa bem atual sobre a interferência militar dos Estados Unidos em conflitos fora de casa.
Quando os monstros se encontram
Contextos dramáticos e políticos à parte, é quando Godzilla Minus Zero entrega o que todo mundo foi ver, o encontro entre dois monstros avassaladores, que o filme brilha de um jeito difícil de comparar. Se der, veja numa tela IMAX: este é o primeiro filme japonês da história filmado no formato, e é ali que tudo faz um sentido muito maior.
A batalha entre Godzilla e King Ghidorah, que consome boa parte da segunda hora do longa, não é só magistral do ponto de vista técnico. Ela tem impacto emocional, porque, pela primeira vez, você se pega torcendo por um dos monstros. E, sendo totalmente honesto, o momento em que o lagartão finalmente se apresenta para sair no braço com King Ghidorah me levou às lágrimas. É um trabalho quase SPIELBERGIANO ao combinar efeitos especiais, ritmo, imagem e uma trilha sonora espetacular para render o espectador.
Em paralelo à épica batalha final, vale reforçar que o filme nunca perde o foco humano. Enquanto parte de Tóquio vem abaixo, você torce para que os personagens sobrevivam àquele inferno. Equilibrar a destruição em escala absurda sem largar o fator humano é um trabalho de direção complexo, e Yamazaki faz isso com uma segurança impressionante.
O resultado é um espetáculo visual ímpar e, ao mesmo tempo, um filme de forte impacto emocional. Uma combinação que Hollywood, com toda a fama de dona das superproduções, não consegue entregar há muito tempo. Nenhum dos Godzillas americanos chegou perto, e duvido que algum tenha conquistado tantos fãs novos para o lagartão quanto este tem o poder de conquistar.
O lagartão merece
Lá fora, Godzilla Minus Zero já passou dos US$ 15 milhões em bilheteria nos primeiros dias de exibição. No Japão, a arrecadação de um único dia chegou perto do que Minus One fez em seus três primeiros dias, o que coloca o novo filme no caminho de ser o primeiro Godzilla a passar de 10 bilhões de ienes no país (Minus One fechou em cerca de 7,65 bilhões). Nos Estados Unidos e no Canadá, a projeção é de US$ 25 milhões a US$ 30 milhões no fim de semana de estreia, em 3.250 salas.
No Brasil, a Sato Company também apostou alto no lançamento de Minus Zero, inclusive colocando o longa em diversas salas IMAX pelo país. Entretanto, na sessão que fui, parece que o público brasileiro não está tão comprado na ideia quanto em outros mercados.
É por isso que aqui retorno ao começo do texto e digo que você precisa conferir Godzilla Minus Zero no cinema. Se não viu Minus One, aproveita que está na Netflix, faz o tema de casa e depois já compra o ingresso para uma das experiências mais intensas que você terá no cinema neste ano. Você merece. O lagartão merece. Acredite no hype.
O post Godzilla Minus Zero: por que você deve ver o filme do lagartão no cinema? apareceu primeiro em Startups.

