NOVA YORK — David Solomon passou a quinta-feira anunciando um investimento de US$ 500 milhões em inteligência artificial ao lado de quatro das empresas que desenvolvem os modelos mais poderosos do mundo. Depois, disse à plateia que a maior parte da economia não precisa desses modelos.
“Os modelos de fronteira e a forma como eles evoluem serão algo muito, muito interessante”, afirmou o CEO do Goldman Sachs durante o lançamento do novo Small Business AI Institute, na sede do banco em Manhattan, evento acompanhado pela Fortune. “Mas há muito pouco do que fazemos em que precisemos de modelos de fronteira”, acrescentou, referindo-se, de forma geral, à atividade econômica e ao contexto das pequenas empresas.

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“A tecnologia está avançando muito, muito rapidamente e continuará avançando”, disse Solomon. Mas é preciso “separar, em algum nível”, o desenvolvimento dos modelos mais avançados das ferramentas cotidianas que as empresas realmente utilizam.
Segundo ele, os chamados modelos de fronteira são importantes para áreas como cibersegurança, defesa e saúde, incluindo descoberta de medicamentos e formação de moléculas. As disputas envolvendo segurança e as “questões de fronteira mais amplas que recebem muita atenção”, afirmou, “são bastante diferentes do uso das ferramentas básicas que já existem para apoiar os negócios”.
O instituto de IA faz parte de um novo compromisso de US$ 500 milhões para financiar a próxima fase do programa 10,000 Small Businesses, do Goldman Sachs, que oferece educação, acesso a capital e serviços de suporte. Quase 20 mil empreendedores concluíram o programa desde seu lançamento, em 2010, dentro de um compromisso anterior de US$ 1,25 bilhão. As pequenas empresas representam 99% das empresas dos Estados Unidos e formam um ecossistema “extremamente importante”, segundo Solomon.
Anthropic, Google, Meta e OpenAI participarão da iniciativa. A Anthropic criará uma série educacional sobre IA aplicada a pequenas empresas, promoverá workshops práticos e colaborará em pesquisas sobre o uso da tecnologia. O Google oferecerá seu certificado profissional de IA para quase 20 mil empresários e funcionários, além de três meses gratuitos do Google AI Pro. A Meta disponibilizará ferramentas e treinamentos por meio do programa Muse for Small Business. Já a OpenAI realizará oficinas sobre IA em parceria com faculdades comunitárias.
Vá com calma
O conselho de Solomon aos donos de pequenas empresas contrasta com o senso de urgência normalmente vendido pela indústria de IA.
“No momento, esta é uma tecnologia cara”, afirmou. “Não acho que você precise olhar para o mundo e dizer: ‘Preciso ser o melhor nisso, preciso dominar isso nas próximas três semanas’.”
Ele apresentou a IA como uma questão de retorno sobre investimento.
“Quando você pensa no custo dos tokens e no custo de estar nessas plataformas, o retorno pode vir da produtividade”, disse, citando áreas como vendas, experiência do cliente, manufatura e compras. “O importante é fazer certo, não fazer mais rápido.”
A maioria dos empresários pesquisados pelo próprio Goldman ainda gasta pouco com IA. Em relatório divulgado junto com o anúncio, 73% dos participantes que utilizam a tecnologia disseram gastar menos de US$ 100 por mês, incluindo 16% que usam apenas ferramentas gratuitas.
A maior parte depende de chatbots como ChatGPT, Claude ou Gemini (86%) ou de recursos de IA incorporados aos softwares que já utilizam (54%). Apenas 18% usam agentes autônomos de IA.
A adoção, porém, não é o problema. A pesquisa, conduzida pelo Babson College em agosto, mostrou que 86% já utilizam IA em seus negócios, ante 56% em 2024. No entanto, apenas 15% afirmaram que a tecnologia está totalmente integrada às operações centrais, enquanto 77% disseram precisar de mais treinamento e recursos.
Mais eficiência sem ampliar custos fixos
A aposta do Goldman para o instituto está centrada na produtividade.
Um empresário que queira fazer mais planejamento estratégico normalmente contrataria uma consultoria. Com a IA, segundo Solomon, é possível avançar nesse trabalho sem necessariamente contratar alguém.
“Isso não elimina empregos, mas cria mais alavancagem para o negócio sem aumentar a base de custos fixos”, argumentou.
A pesquisa do Goldman dá algum respaldo à tese. Entre os participantes que utilizam IA, 84% disseram não ter alterado o quadro de funcionários. Outros 5% relataram aumento das contratações e 6% afirmaram ter reduzido pessoal.
Questionados sobre como utilizam o tempo economizado pela tecnologia, 56% citaram planejamento estratégico, 44% expansão das ações de marketing e 31% desenvolvimento de novos produtos e serviços.
Os empresários presentes no palco descreveram a IA como uma ferramenta de ampliação de capacidades.
Allison Dunn, fundadora da Hibiscus Brew, uma cafeteria e marca de bebidas de bem-estar caribenha no Brooklyn, disse considerar a IA sua “parceira de reflexão”. A tecnologia organiza seus e-mails, cria listas de tarefas, monta sua agenda e ajudou a desenvolver o cardápio de outono da cafeteria. Todas as manhãs, também conduz dez minutos de treinamento de oratória.
Recentemente, a IA resolveu outro problema importante: uma lista de controle de inventário para gerenciar leite, café expresso e outros insumos. Ela trata o resultado produzido como um “primeiro rascunho”. Enquanto isso, os clientes continuam sendo cumprimentados pelo nome “em até três segundos”.
“A IA não veio para substituir”, afirmou Dunn. “As pessoas que sabem usar IA é que podem substituir você.”
Já Hagan Walker, cofundador da marca de brinquedos iluminados Glo Pals, disse utilizar IA “o dia inteiro, todos os dias”.
Um agente de IA escreveu o algoritmo que escolhe automaticamente o menor tamanho de caixa para cada pedido. A tecnologia também ajudou a criar o tema do site da empresa após meses de ajustes e analisa dados publicitários em plataformas como Google e Meta.
Uma regra, no entanto, permanece: “Tudo relacionado a direitos autorais ou ilustração é feito por uma pessoa”, disse Walker, citando preocupações regulatórias envolvendo IA e brinquedos infantis.
A empresa está em plena fase de contratação e dá preferência a candidatos que dominam essas ferramentas.
“Ela está claramente aumentando nossa capacidade”, afirmou.
Segundo Solomon, o instituto terá três pilares: programas de treinamento oferecidos pelos parceiros; pesquisas sobre a forma como pequenas empresas realmente utilizam IA; e acesso a capital.
“O acesso a capital continua sendo uma limitação”, concluiu.
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