Startups com ao menos uma mulher entre os fundadores responderam por 24,9% dos exits de empresas com venture capital nos Estados Unidos em 2025, mas por 18,4% do valor total dessas saídas. Os dados são do relatório US All In 2025, do PitchBook. O estudo considera fundadas por mulheres as empresas que receberam venture capital e têm ao menos uma fundadora, mesmo que ela já tenha deixado o negócio.
Os números apontam para um avanço na participação de empresas com fundadoras nos exits. Em 2024, elas representaram 23,6% do número de operações e 13,3% do valor total. Em 2025, o valor dos exits dessas empresas mais que dobrou, de US$ 20,1 bilhões para US$ 51,1 bilhões, o equivalente a 18,4% do valor das saídas de VC no país. O número de operações também cresceu mais de 20%, de 290 para 349. O estudo informa que o valor de saída inclui valores extrapolados.
O relatório LO Women Invest, do banco suíço Lombard Odier, publicado em setembro, também analisa a evolução desses indicadores na última década. Segundo o banco, empresas com fundadoras representavam cerca de 15% do total de exits de VC em 2015, enquanto sua participação no valor total das saídas era de 16%.
Apesar do crescimento nos dois indicadores, o banco afirma que ainda há uma diferença significativa de valor nas saídas.
Maiores saídas de 2025
Entre as 10 maiores saídas de empresas com fundadoras em 2025, seis foram aquisições e quatro foram IPOs. A maior foi a aquisição da Ampere Computing, de semicondutores, com valor de saída de US$ 6,5 bilhões. Na sequência, aparecem os IPOs da Firefly Aerospace, com valor de saída de US$ 5,6 bilhões, e da Figure Technology Solutions, de software, com US$ 4,6 bilhões. Juntas, as 10 operações somam US$ 27,6 bilhões, cerca de 54% do total do ano, segundo cálculo feito a partir da lista do relatório.
As quatro aberturas de capital da lista são de empresas sediadas no Texas, na Carolina do Norte e na Flórida. O PitchBook cita a presença de empresas dos estados do Sul como sinal de que a criação de valor e os retornos não se limitam aos polos tradicionais de negócios do litoral estadunidense.
O PitchBook também calcula o tempo mediano entre a fundação e o exit. Em 2025, o período foi de 7,3 anos tanto para empresas com fundadoras quanto para o conjunto das empresas dos Estados Unidos. Em 2024, as medianas eram de 7,3 e 7,5 anos, respectivamente.
Recorde puxado por IA
No lado da captação, as startups com fundadoras levantaram US$ 73,6 bilhões em 2025, um recorde, segundo o PitchBook. Em 2024, o valor havia sido de US$ 38,6 bilhões. O número de negócios, porém, caiu no período, de 3.568 para 3.219. A participação dessas empresas no valor total de VC nos Estados Unidos chegou a 27,7%, a primeira vez acima de um quarto. Já a fatia no número de negócios recuou de 25,7% para 24,1%.
O PitchBook atribui o resultado a megarrodadas. Mais de US$ 30 bilhões vieram da Scale AI e da Anthropic, com o setor de inteligência artificial concentrando US$ 49,1 bilhões, dois terços do total captado por empresas com founders mulheres.
O relatório também aponta que rodadas de estágio avançado e de venture growth (para empresas já em expansão) ficaram com uma parcela desproporcional do valor captado, o que atribui à preferência dos investidores por ativos já escalados.
As empresas fundadas só por mulheres registraram recuo. Elas captaram US$ 3,2 bilhões, queda de cerca de 22% em relação aos US$ 4,1 bilhões de 2024. O número de negócios também caiu, de 884 para 797. Entre as empresas fundadas só por homens, o valor captado subiu de US$ 157 bilhões para US$ 191,1 bilhões, enquanto o número de negócios ficou estável, passando de 10.245 para 10.048.
Segundo cálculo feito a partir dos dados do relatório, empresas fundadas exclusivamente por mulheres representam cerca de 25% dos negócios de startups com ao menos uma fundadora, mas 4% do valor captado por esse grupo.
A mediana do pre-money, valor estimado da empresa imediatamente antes de uma nova rodada, das startups com fundadoras subiu de US$ 21,7 milhões para US$ 33,3 milhões em 2025, alta de mais de 50%. No conjunto do mercado norte-americano, o indicador passou de US$ 25,5 milhões para US$ 39 milhões. Entre as empresas fundadas só por mulheres, a mediana subiu de US$ 15 milhões para US$ 19 milhões, alta de mais de 25%, mas ainda equivalente a menos da metade da mediana do mercado.
A base do PitchBook exclui a OpenAI. A empresa cumpre o critério de ter uma fundadora, mas, segundo a metodologia, ela deixou a companhia antes de várias rodadas de valores elevados que distorceriam os números.
Preparação para a venda
Para o Lombard Odier, reduzir a diferença de valor passa pela preparação para a venda, que o relatório divide em três fases: antes, durante e depois da transação. O texto observa que o fundador nem sempre define o momento da saída, pois, em alguns casos, o comprador toma a iniciativa ou a oportunidade surge devido a mudanças nas circunstâncias de vida ou a uma sucessão, no caso de empresas familiares.
Em startups com equipes enxutas, nas quais os fundadores desenvolvem o negócio e captam recursos ao mesmo tempo, o relatório reconhece que a preparação pode parecer distante. Prontidão para a saída (exit readiness) é a capacidade de apresentar uma empresa bem-sucedida e também preparada, em termos de estrutura e estratégia, para uma transação.
“Em nosso trabalho com empreendedores de diferentes setores, vimos que as melhores vendas de empresas acontecem quando a prontidão para a saída é conduzida de forma rigorosa”, escreve Nannette Hechler-Fayd’herbe, responsável por estratégia de investimentos, sustentabilidade e pesquisa e diretora de investimentos (CIO) do banco para Europa, Oriente Médio e África, no editorial do relatório.
Segundo o texto, a preparação deve começar de 12 a 24 meses antes de uma possível venda, com três objetivos: fortalecer as bases comerciais e operacionais da empresa, reduzir a dependência do fundador e otimizar a situação tributária e patrimonial dos acionistas.
No campo comercial, o relatório recomenda revisar contratos com clientes e fornecedores para identificar cláusulas acionadas por mudança de controle e direitos que possam complicar a transação. Também sugere documentar a propriedade de marcas, patentes e tecnologias e manter as finanças organizadas, com indicadores que mostrem a trajetória de crescimento. Muitos fundadores realizam antecipadamente uma vendor due diligence, versão da due diligence (auditoria em que o comprador examina contratos, finanças e operações) conduzida pelo próprio vendedor, para resolver problemas antes da venda. O banco também cita a necessidade de uma gestão autônoma, com responsabilidades delegadas, já que uma empresa muito dependente do fundador pode ser vista como frágil.
A estrutura da transação também pesa. O relatório cita a forma e o momento dos pagamentos, o earn-out (parte do preço condicionada ao desempenho futuro da empresa) e a alocação de riscos por meio de declarações e garantias como fatores que influenciam o resultado final. Em relação aos impostos, o texto ressalta que o tratamento varia de acordo com o país. Na Suíça, a venda de ações mantidas como patrimônio privado geralmente é isenta de imposto sobre ganho de capital, sob condições rígidas. No Reino Unido, o benefício fiscal para a venda de negócios incide à taxa de 18% sobre o ganho de até 1 milhão de libras, com alíquota geral de 24% sobre o restante.
Durante a due diligence, a avaliação da empresa pode ser prejudicada por qualquer piora de desempenho. Por isso, o relatório recomenda manter as receitas, o relacionamento com os clientes e a estabilidade da equipe. Depois da venda, a prioridade é estabilizar e estruturar os recursos. Isso inclui manter a liquidez em segurança, avaliar as necessidades de caixa, revisar as obrigações fiscais e atualizar o planejamento sucessório antes de partir para a diversificação do patrimônio, aponta o banco.
Na conclusão, o Lombard Odier afirma que reduzir a diferença de valor para fundadoras exige uma abordagem proativa e estruturada, que fortaleça os fundamentos do negócio e inclua assessores de fusões e aquisições e de planejamento tributário e patrimonial desde cedo.
Volta dos IPOs
O Lombard Odier afirma que 2026 marca o retorno dos IPOs, após quatro anos de atividade contida. Entre as startups com fundadoras listadas pelo PitchBook, a Anthropic tinha a maior avaliação pós-money (valor estimado da empresa depois da rodada de investimento) em 2025, de US$ 183 bilhões. A empresa tem Daniela Amodei entre os fundadores.
A startup de IA tornou público na segunda-feira (26) o pedido de IPO apresentado à SEC, comissão que regula o mercado de capitais dos Estados Unidos, para captar até US$ 100 bilhões. A OpenAI entregou a documentação confidencial à SEC em maio, e a Anthropic fez o mesmo no início de junho. Desde então, a OpenAI adiou sua estreia na bolsa para 2027 e negocia mais US$ 30 bilhões no mercado privado, com valuation de US$ 1,25 trilhão. Segundo o portal norte-americano Axios, as ações da Anthropic podem começar a ser negociadas antes do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos, em 26 de novembro.
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