Toda sexta-feira, Kyle Daigle, COO e CMO para Desenvolvedores do GitHub, passa por uma espécie de avaliação de desempenho. O crivo não é de um chefe, mas de um agente de inteligência artificial (IA). “Tenho um agente de comunicação executiva. Ele olha tudo o que eu já disse publicamente, revisa e me diz onde a minha fala ficou confusa ou onde eu não fui tão preciso quanto deveria”, conta, em entrevista ao IT Forum durante o GitHub Universe*, em San Francisco, nos Estados Unidos. “Ele briga comigo toda semana. E analisa como eu falo com meus próprios funcionários”, diz, rindo.
O exemplo resume a visão de Daigle sobre o momento da IA nas empresas. Para ele, o mercado ainda usa agentes sobretudo para criar “coisas” e explora pouco o que eles fazem de melhor. “No ano passado, vivemos a era de usar IA para escrever ou resumir um e-mail. No fim, eram só dois agentes conversando.”
O verdadeiro poder, no entanto, defende, está em outro lugar. “Hoje, a grande força dos agentes, tanto no software quanto no trabalho do dia a dia, é ajudar a encontrar pontos de melhoria. Há um uso enorme e pouco explorado, que não é só para criar. É para refletir, aprender e ver onde o trabalho que já fizemos poderia ter sido melhor”, indica. “Nós, humanos, somos imprevisíveis, e a IA é exatamente o oposto: previsível. Esse é o propósito dela, é um motor de previsão. Juntando esses dois universos, temos uma visão enorme sobre o nosso trabalho, nossos negócios e nossa vida pessoal”, aponta.
Copilot para todos, não só para quem programa
A conversa com Daigle começou pelo anúncio mais comentado do Universe: clientes do GitHub Enterprise passam a usar todos os recursos do Copilot sem contratar uma assinatura separada, pagando pelos créditos de IA consumidos. Questionado se a mudança é uma resposta à pressão de concorrentes, Daigle preferiu destacar outro motivo: no desenvolvimento de software, a IA deixou de se resumir a gerar código.
“Não se trata mais só de gerar código. É sobre também como se revisa esse código, como se faz a varredura de código com IA e a proteção de segredos. O que não queríamos era dizer que só as pessoas que geram código deveriam ter acesso ao Copilot. Queremos que todo mundo tenha acesso e possa escolher os recursos mais valiosos para o seu negócio”, explica. Segundo ele, há clientes que usam o GitHub muito além das equipes de desenvolvimento e querem, por exemplo, proteger todos os repositórios, habilidades de IA e plugins.
Outra peça da estratégia é o Copilot Fusion, que combina vários modelos em uma mesma tarefa. De acordo com Daigle, o recurso entrega inteligência próxima à dos modelos de fronteira com custo até 77% menor e execução 40% mais rápida.
Sobre a abertura da plataforma a agentes de terceiros, Daigle lembra que, nas ofertas em nuvem do GitHub, já é possível escolher os harnesses do Claude Code, da Anthropic, ou do Codex, da OpenAI, para executar tarefas, além dos modelos das duas empresas. Mas ele defende que o harness próprio do GitHub, “o cérebro do agente de código”, leva vantagem por trabalhar com vários modelos.
“Conseguimos otimizá-lo para ser mais eficiente, na maioria dos casos, do que os harnesses do Claude Code ou do Codex. Ele usa menos tokens, costuma ser mais rápido e, em alguns casos, entrega um resultado até melhor do que o de um único harness”, afirma. E completa com um recado sobre o modelo de negócios: “Sabemos que os clientes se preocupam com quanto estão gastando com IA. Como somos um provedor agnóstico, não temos um desincentivo para otimizar a quantidade de tokens consumidos na plataforma”.
Residência de dados no Brasil: o desafio das GPUs
Com o Brasil entre os países que mais crescem no GitHub, segundo o estudo da empresa batizado de Octoverse, com 10,2 milhões de desenvolvedores e as fintechs entre os motores desse avanço, a residência de dados é uma demanda recorrente de setores regulados. Daigle lembra que o GitHub lançou há alguns anos uma opção de residência de dados e trabalha com os clientes de cada região conforme as regras locais. Mas aponta um complicador que a era da IA trouxe para a discussão. “O que é mais complexo do que a residência de dados é a residência de GPUs. Os provedores de modelos também estão espalhados e nem sempre em cada país, e isso adicionou nuance à discussão”, explica.
Segundo ele, empresas que querem inovar e acessar os modelos mais recentes muitas vezes precisam cruzar uma fronteira de dados. “É possível ter residência de dados no continente ou em um único local, mas isso não significa que todos os dados e toda a inferência de IA estejam em um único país”, lembra.
O GitHub segue ampliando as localidades disponíveis, aponta. “Temos mais locais e vamos adicionar alguns mais ainda este ano”, diz Daigle, sem confirmar se o Brasil estará entre eles. “Seguimos trabalhando com as empresas no Brasil para garantir que atendemos às necessidades delas.”
Como não se perder no excesso de novidades
Para o executivo, tentar acompanhar tudo no mundo das IAs é uma batalha perdida. “A realidade é que há tanta coisa que é desafiador acompanhar tudo. Então eu foco no que é mais importante para mim, para o negócio do GitHub e para a comunidade open source”, afirma. Ele conta que montou uma automação no Copilot: toda semana, indica os temas que mais o preocupam e, todas as manhãs, recebe um resumo com os projetos open source em alta e as novas regulações de IA e de open source pelo mundo.
“Não preciso conhecer cada detalhe de cada modelo lançado na semana. Preciso saber o que os nossos clientes estão escolhendo, que modelos estão usando, se isso mudou de uma semana para outra”, diz. O Copilot, segundo ele, também vasculha o e-mail, por meio do WorkIQ, e o Slack, por meio de MCP, para sugerir ideias em que ele ainda não tinha pensado.
E quando a pergunta é sobre o futuro próximo, o do próximo mês, Daigle encurta o horizonte. “Eu estava com medo de você me perguntar como vai ser o software daqui a cinco anos. Cinco anos?”, brinca. “Ainda estamos muito no começo da jornada dos agentes. Gastamos tanto tempo fazendo os agentes criarem coisas para nós que nem temos tempo de consumir tudo.” Em um mercado em que surgem vários modelos novos por semana, até o agente que revisa o que ele fala teria dificuldade de responder.
*A jornalista viajou a convite do GitHub
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