Há um ano, a Firecrawl vendia uma solução relativamente simples de explicar: uma API que lia páginas da internet e as transformava em dados que um modelo de linguagem conseguia digerir. De lá para cá, a tese se expandiu e ganhou uma API de busca, para que agentes pesquisassem a web por conta própria. Agora, a empresa quer dar o passo seguinte: deixar de só ler a internet e passar a organizar grandes quantidades de conhecimento para os agentes de IA. Para chegar lá, ela acabou de levantar R$ 400 milhões (US$ 75 milhões).
A Série B foi liderada pela Smash Capital, com participação de Altos, Nexus, Y Combinator, Freestyle e Offline Ventures. O aporte chega um ano depois da Série A de R$ 81 milhões e tem como foco o desenvolvimento de um novo produto-chave: a Alexandria, que, assim como sua inspiração histórica, funciona como uma biblioteca, reunindo pesquisas científicas, código, documentos públicos e dados em tempo real para modelos e agentes.
“Receber uma nova rodada de investimento apenas um ano após a Série A reforça a confiança dos investidores na infraestrutura que construímos e na capacidade da Firecrawl de atender à crescente demanda por dados para inteligência artificial”, afirma o CTO e cofundador Nicolas Silberstein Camara.
Em entrevista ao Startups, Nicolas destacou que o dinheiro vai para três frentes, todas ligadas à Alexandria: infraestrutura de dados, conexão direta com mais fontes primárias e um sistema de pagamento para quem contribui com conhecimento.
O novo produto já está no ar, acessível por API, MCP e CLI, e reúne 86 provedores de dados em 28 categorias, além de três índices próprios. Um é de pesquisa, com 43 milhões de resumos científicos; outro é de desenvolvedores, com mais de 70 milhões de fontes como documentações e repositórios; e o terceiro é de governo, com leis, regulações e ordenanças.
“Existe uma quantidade enorme de conhecimento que ainda não está facilmente acessível aos modelos de IA, seja em pesquisas científicas, bases de empresas ou na experiência de profissionais”, diz Nicolas. A plataforma aceita contribuições de pessoas, empresas e agentes, e os provedores oficiais são remunerados. Para evitar dor de cabeça com direitos autorais, cada fonte entra por acordo pago com o detentor dos direitos ou a partir de dados públicos oficiais, como os da SEC, de bancos centrais e do gov.br.
Crescimento fora e dentro do Brasil
Fundada nos EUA por Nicolas, ao lado dos americanos Caleb Peffer (CEO) e Eric Ciarla (CMO), a Firecrawl teve uma trajetória acelerada em pouco mais de um ano. Segundo a empresa, o valuation cresceu mais de dez vezes desde a rodada anterior. O valor exato, porém, fica em sigilo, assim como a receita recorrente.
“Não divulgamos o valuation atual nem o ARR”, diz Nicolas. O que ele abre são os números de adoção: atualmente, a startup soma mais de 1,5 milhão de usuários e mais de 150 mil empresas atendidas. É um salto e tanto em relação às 6,5 mil empresas que a companhia anunciava em agosto do ano passado.
O Brasil, que já era apontado como polo relevante na Série A, também ganhou peso na estratégia. “Atualmente, temos mais de 40 mil clientes no Brasil”, afirma o CTO. Em agosto de 2025, quando anunciou a rodada anterior, a empresa falava em pouco mais de mil clientes no país.
Com o novo capital, a Firecrawl vai ampliar os investimentos em eventos por aqui e abrir um escritório local em 2027. A expansão também deve chegar ao produto: fontes brasileiras entram na Alexandria nas próximas semanas. Segundo Nicolas, ainda são poucas as fontes disponíveis em português e espanhol, e a empresa trabalha para ampliar a cobertura latino-americana.
Setor em alta
A entrada da Smash Capital como líder da rodada diz bastante sobre o momento desse mercado. A gestora de Los Angeles investiu em nomes badalados de IA, como ElevenLabs e Leonardo.AI, e fez uma de suas apostas mais recentes em agosto, na plataforma de geração de vídeos Higgsfield.
A Smash se soma a uma ficha que começou com a Y Combinator, que aportou US$ 2 milhões em seed em 2024. Na Série A, a Nexus VP liderou, com follow-on da YC e investidores estratégicos como Tobias Lütke, CEO da Shopify. Agora, além da Smash, entram Altos, Freestyle e Offline Ventures.
O apetite não é exclusivo. A infraestrutura de dados para agentes virou uma das categorias mais disputadas do venture capital neste ano. Em maio, a Exa levantou US$ 250 milhões em uma Série C liderada pela Andreessen Horowitz, a um valuation de US$ 2,2 bilhões, o triplo do que valia seis meses antes. Semanas antes, a Parallel, de Parag Agrawal, ex-CEO do Twitter, fechou US$ 100 milhões com a Sequoia a US$ 2 bilhões, apenas cinco meses depois de uma Série A de mesmo tamanho a US$ 740 milhões.
No meio dessa corrida, a Firecrawl aposta em ser o fornecedor central para quem constrói agentes. “Nosso diferencial está em cobrir toda a cadeia de dados, desde busca, scraping, crawling e navegação até dados licenciados e índices próprios com a Alexandria, permitindo que o cliente utilize um único fornecedor para essas soluções”, finaliza Nicolas.
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