Quatro dias depois de lançar uma plataforma que se apresenta como alternativa ao GitHub, Thomas Dohmke, último CEO do GitHub, escolheu o Brasil como primeira parada da Entire na América do Sul. A partir desta sexta-feira (30), desenvolvedores e empresas brasileiras podem hospedar seus repositórios de código em São Paulo, com o país definido como região principal e fonte da verdade dos dados.
“Os desenvolvedores do Brasil e as organizações que eles movimentam, das fintechs à energia e ao agronegócio, já deveriam ter há muito tempo uma solução soberana de hospedagem de código capaz de acompanhar a velocidade e a escala do que os agentes produzem”, afirma Dohmke. “A maior comunidade de desenvolvedores da América do Sul merece uma forja Git que de fato a coloque no centro”, completa.
Em entrevista exclusiva ao IT Forum, o executivo detalhou a infraestrutura da operação no país, falou da saída da Microsoft, do investimento que recebeu do fundo de venture capital da própria empresa e da ambição de virar “a nova casa” dos desenvolvedores, inclusive dos brasileiros.
A região brasileira roda na Amazon Web Services (AWS), em São Paulo, assim como todas as demais regiões da Entire. “Neste momento, temos parceria com a AWS. A região do Brasil e todas as outras estão hospedadas na AWS”, conta Dohmke. Ao criar um repositório ou espelhar um projeto do GitHub, o desenvolvedor escolhe a região principal e pode replicar o código em outras, como Europa, Estados Unidos, Índia ou Austrália, para ganhar resiliência ou atender equipes espalhadas pelo mundo.
O Brasil se junta a Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia, Índia, Austrália e Singapura na rede distribuída da Entire e é a primeira região da empresa na América do Sul, com novas expansões globais previstas em breve. Para empresas de setores regulados, a hospedagem em uma região local resolve a exigência de residência de dados. Já a soberania plena, quando a infraestrutura pertence a um provedor norte-americano, segue como ponto de avaliação para as áreas de compliance.
O cadastro é gratuito. Os Trails, sistema de revisão de código por agentes de inteligência artificial (IA) que é o coração do produto, são cobrados por uso. Cada chamada de modelo feita por um agente consome créditos, a preços que, segundo a empresa, costumam acompanhar os dos provedores de modelos. Novos usuários recebem créditos de teste. “É cedo [para abrir números de usuários]. Muitos desses números são de vaidade, de qualquer forma”, diz Dohmke. A expectativa, segundo ele, é de que o Brasil esteja entre os mercados que mais crescem na plataforma.
Por que o Brasil?
Dohmke conhece o país. Em 2023, quando ainda comandava o GitHub, esteve no Web Summit Rio e se reuniu com clientes em São Paulo. “Na época, o Copilot ainda era bem novo. Mostrei no palco do evento como construir um aplicativo só com IA em 18 minutos e todo mundo ficou impressionado. Hoje, isso é uma demonstração um pouco sem graça. Dá para fazer tudo em 30 segundos”, lembra, rindo.
Para ele, o que atrai no Brasil é menos o tamanho e mais o potencial. O país tem a quarta maior comunidade de desenvolvedores do mundo e uma das que mais crescem. Segundo o Octoverse 2026, são 10,2 milhões de desenvolvedores brasileiros no GitHub. “Muitos jovens no Brasil olham para o desenvolvimento de software como uma oportunidade de melhorar de vida, de ter uma vida melhor que a dos pais e, quem sabe, de construir grandes empresas de tecnologia no País”, diz.
A aposta vai além da hospedagem. “Estamos muito animados com mercados como o Brasil, que estão longe da bolha do Vale do Silício [nos Estados Unidos]”, afirma. “Qualquer desenvolvedor no Brasil pode virar a próxima estrela do open source e, quem sabe, construir a próxima Microsoft no Rio ou em São Paulo, porque realmente não se precisa mais estar em San Francisco”, observa.
Velocidade, memória e fim do gargalo da revisão
Dohmke aponta três diferenciais da Entire contar com cargas de trabalhos locais. O primeiro é a velocidade: para quem trabalha a partir do Brasil, ter o código hospedado no País reduz a latência para enviar e clonar repositórios. A empresa afirma ser até 89 vezes mais rápida que o GitHub.
Questionado pelo IT Forum sobre a metodologia, o Entire explicou que usou o ForgeMark, ferramenta open source própria que mede o desempenho de uma forja Git quando uma frota de agentes envia código e clona o mesmo repositório ao mesmo tempo. Nos testes, o Entire chegou a 418 pushes por segundo, contra 65 do Cursor Origin, 15 do Pierre, 10 do GitLab e 4,7 do GitHub.
Vale a ressalva: na mesma semana, o GitHub apresentou no seu evento anual para desenvolvedores, o GitHub Universe, uma nova arquitetura para o Git, ainda em migração, que em testes internos sustentou 7,2 mil gravações por segundo em um único repositório. As duas medições usam metodologias diferentes e não são diretamente comparáveis.
O segundo diferencial, diz, é a memória. Além do código, a Entire guarda no repositório os registros das sessões com os agentes, sejam eles Codex, Claude Code ou outros. “Não estamos tentando vender um agente ao desenvolvedor”, diz Dohmke. Isso permite que a equipe inteira veja o que foi pedido, as decisões tomadas e o desenho pretendido, inclusive anos depois. “É possível voltar e dizer: o que eu pedi, as decisões que tomei, o design que eu queria. É por isso que o código está implementado desse jeito.”
O terceiro são os Trails, que substituem o pull request por avaliações feitas por múltiplos agentes a cada mudança. A ideia é tirar o desenvolvedor do papel de gargalo na revisão de código. “É sexta à noite, você quer subir aquilo antes do fim de semana, mas o seu time já não tem energia para revisar o seu código”, exemplifica.
A possibilidade de integrar código sem que um humano o leia linha a linha é o ponto mais sensível do produto para o mercado corporativo. Dohmke diz que as empresas podem configurar “portões” de controle, como a exigência de um aprovador humano, que não pode ser o mesmo autor da mudança, para atender a regras de compliance como SOX e ISO. “No fim, o humano é o responsável, e a empresa tem processos para lidar com isso. Isso não muda se é um agente ou um humano que revisa o código”, afirma.
Para ele, a pergunta certa é qual risco é menor. “Os dois são, em algum grau, imperfeitos. Na nossa opinião, o agente de IA já é muito melhor, porque tem mais paciência e mais resistência para olhar o código”, diz. “Revisores humanos ficam cansados, se distraem com o Slack, com o iPhone novo, ou só querem ir para casa. O agente não quer ir para casa.” Dohmke compara a lógica à dos carros autônomos, mas pondera que nenhum sistema é perfeito e que o julgamento de engenheiros seniores continua necessário.
Concorrente, parceiro e investido pela Microsoft
Em resposta à declaração do diretor de operações do GitHub de que “o mundo não precisa de um novo GitHub”, Dohmke, defendeu que os desenvolvedores precisam de alternativas para hospedar seus códigos. A Entire anunciou que abrirá o código de sua infraestrutura de armazenamento Git, com a proposta de que uma nova casa para a comunidade de código aberto seja construída sobre tecnologia também aberta. O GitHub, embora abrigue projetos de código aberto, mantém o código de sua plataforma fechado.
“O GitHub pode achar que não precisamos de um novo GitHub, mas os desenvolvedores claramente querem isso. Queremos mesmo colocar o futuro do desenvolvimento de software e do código aberto nas mãos de uma única grande empresa de tecnologia? Estamos construindo a Entire para que a nova casa da comunidade seja de código aberto, escalável e esteja presente em várias regiões do mundo”, afirmou ele.
Dohmke anunciou em agosto do ano passado que deixaria o comando do GitHub e a Microsoft, onde estava desde 2014, quando a empresa comprou sua startup anterior, a HockeyApp. Segundo ele, a conversa com Satya Nadella, CEO da Microsoft, aconteceu em junho de 2025. “Ele me apoiou muito e disse: queremos que você continue na família Microsoft e, se pudermos encontrar uma forma de investir, seria ótimo para os dois lados”, revelou.
Foi o que aconteceu. O M12, fundo de venture capital da Microsoft, é investidor da Entire. Para Dohmke, não há contradição. Ele lembra que a Microsoft sempre competiu e cooperou ao mesmo tempo, da Apple, que recebe o Office e o Outlook no iPhone, a startups de desenvolvimento como Replit e Cognition, além da Anthropic. “O GitHub é um negócio relativamente independente na família Microsoft, e a frente de investimentos toma suas próprias decisões”, indica. “Não acho que seja tão conflituoso quanto às vezes parece. Podemos ser um parceiro de sucesso da Microsoft e competir no mercado.”
A ambição, porém, é clara. “Queremos ser a nova casa dos desenvolvedores: de manhã, você e seus agentes vão ao Entire e colaboram com a sua equipe na nova plataforma”, afirma. No curto prazo, a Entire também se apresenta como complemento: é possível espelhar repositórios do GitHub e usar as duas plataformas lado a lado, o que, segundo Dohmke, aumenta a disponibilidade e a resiliência. O cenário que ele deseja, porém, é o inverso do atual. “Que os desenvolvedores usem a Entire todos os dias e tenha o GitHub como cópia de segurança”, finaliza.
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