Na feira, antes que o feirante terminasse de apertar os botões da calculadora, Cíntia Barcelos já tinha a resposta. O pai transformava compras corriqueiras em exercícios: quantas unidades, quanto custaria, qual seria o troco. Doutor em física, ele fazia contas de cabeça e incentivava a filha a fazer o mesmo. A menina gostava. Anos depois, resumiria aquela inclinação como aptidão por “matemática, lógica e resolução de problemas”. A brincadeira acabaria levando-a aos data centers e, três décadas mais tarde, à inteligência artificial (IA).

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Cíntia Barcelos escolheu o bacharelado em Engenharia Eletrônica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) porque queria uma formação que abrisse possibilidades. Foi na faculdade que descobriu a computação. Passou por projetos de iniciação científica em Engenharia Biomédica e Civil até ingressar na IBM como estagiária.

A TI que ela conheceu ficava, literalmente, escondida. Os sistemas estavam em data centers e o que era crítico rodava em mainframes. Cíntia trabalhava com infraestrutura: servidores, sistemas operacionais, armazenamento e redes. “Era a época em que todo mundo ainda usava terno.” Debaixo do ar-condicionado frio o suficiente para manter os equipamentos funcionando, sempre havia alguém disposto a emprestar um paletó a ela.

O modo de construir tecnologia era igualmente distante do atual. Equipes conversavam com os negócios e levavam as demandas para a TI. As especificações eram longas. “Quando o sistema ficava pronto, o negócio já tinha mudado”, conta.

Nos anos seguintes, ela assistiria a esse modelo ser desmontado. Vieram o downsizing, os ERPs, a internet, a mobilidade, a nuvem e o uso intensivo de dados. Depois de cerca de dez anos em infraestrutura, passou a trabalhar com software, como arquiteta de soluções. Já não bastava saber como uma máquina funcionava. Era preciso entender por que uma empresa precisava dela. “É importante se apaixonar pelo problema e não pela tecnologia.”

Cíntia participou de projetos como a consolidação de servidores do antigo HSBC e o Banco Postal, que exigiu colocar uma operação bancária dentro dos Correios em poucos meses. Naquele período, crises também chegavam por um aparelho que praticamente desapareceu: o pager. Quem trabalhava com operações precisava estar disponível quando alguma coisa parava. O pager evoluiu para o smartphone, mas a dificuldade de desligar permaneceu. “Já acordei no meio da noite com uma ideia, anotei no celular e voltei a dormir”, conta.

Por 27 anos, a IBM foi seu lugar de formação e reinvenção. Em 2017, tornou-se a primeira mulher da América Latina reconhecida pela companhia como Distinguished Engineer, um dos mais altos níveis da carreira técnica. Na mesma época, assumiu a função de CTO para Serviços Financeiros, o que a exigiu deixar o Rio de Janeiro. Por cerca de dois anos, fez a ponte entre Rio e São Paulo até que a família se mudou definitivamente.

A carreira nunca esteve inteiramente separada da vida pessoal. Depois do nascimento da primeira filha, Cíntia teve dificuldade para voltar ao trabalho. Foi o marido quem insistiu. Mais tarde, a terapia a ajudou a lidar com uma culpa que parecia não ter solução perfeita: não estar suficientemente com as filhas e, ao mesmo tempo, não estar cem por cento no trabalho. Aprendeu a escolher — e a dizer mais “nãos”.

O verdadeiro legado da liderança

Sua trajetória também foi marcada pelas cobranças de ser mulher. Desde a Engenharia, eram poucas. Depois vieram inúmeras reuniões em que Cíntia era a única mulher da sala. “Em alguns momentos, percebi que precisava demonstrar minha competência antes de conquistar a credibilidade concedida naturalmente a outros profissionais.” Durante muito tempo, sua resposta foi estudar e se preparar mais. O conhecimento funcionava como argumento e como proteção.

A própria ideia de liderança mudou. Durante anos, Cíntia construiu a identidade profissional em torno da profundidade técnica: saber a resposta, encontrar a falha, resolver o problema. Quando passou a liderar, descobriu que seu impacto já não estava apenas no que conseguia solucionar. “O verdadeiro legado não está em ser a pessoa que tem todas as respostas, mas em formar equipes capazes de encontrá-las.”

Hoje, como CTO e diretora-executiva de Tecnologia do Bradesco, Cíntia olha para uma engrenagem que o cliente quase nunca vê. Um Pix concluído em segundos esconde sistemas, dados, infraestrutura, parceiros, processos e pessoas conectados. Seu trabalho está nessa parte invisível: fazer a arquitetura evoluir sem sacrificar segurança e resiliência. Desde fevereiro de 2024, sua responsabilidade formal inclui também cibersegurança, dados e inteligência artificial.

É aí que a inteligência artificial encontra a história de quem já viu outras tecnologias chegarem prometendo mudar tudo. Cíntia acompanhou internet, mobilidade, nuvem e a explosão dos dados. O roteiro costuma se repetir: novidade, expectativas, resistência e, depois, o trabalho menos vistoso de transformar tecnologia em valor. O que considera diferente na IA é a velocidade e o fato de a mudança chegar diretamente ao cotidiano das pessoas.

Ainda assim, ela não compra a ideia de uma solução universal. “O diferencial competitivo não estará em quem tiver mais IA, mas em quem usá-la de forma responsável para gerar valor real”, finaliza.

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