Escrever para o futuro, quando o IT Forum completa 35 anos, é um exercício curioso. Passei boa parte da minha vida acompanhando tecnologias que pareciam restritas a poucos especialistas e, logo depois, passaram a transformar empresas e hábitos cotidianos.
Foi assim com sistemas corporativos, internet, mobilidade e nuvem. Agora, vivemos a expansão da inteligência artificial (IA). Em cada ciclo, repetimos a mesma pergunta: até onde essa tecnologia poderá chegar? Talvez essa não seja a pergunta mais importante.
Ao fundar uma empresa de tecnologia no Brasil, há mais de três décadas, aprendi que as grandes transformações raramente chegam anunciadas. Elas começam como sinais fracos, desconfortos e perguntas que poucos ainda estão fazendo.
A inteligência artificial amplia nossa capacidade de fazer de forma inédita. Ela escreve, interpreta, recomenda, cria e participa de decisões. Produzir respostas deixou de ser um diferencial.
Mas capacidade não é direção. A inteligência artificial tornará todos mais rápidos. Mas continuará sendo a liderança que decidirá para onde iremos, quais problemas merecem atenção e quais consequências estaremos dispostos a assumir.
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A pergunta que nenhuma máquina responde
Quanto mais inteligentes forem as máquinas, mais vamos além de decidir o que fazer. Precisaremos entender o que merece ser colocado em movimento e para quem esse avanço deve gerar valor.
Precisaremos reconhecer o que não deve ser automatizado, mesmo quando puder ser. Preservar decisões que exigem contexto, sensibilidade e responsabilidade. E cuidar para que a tecnologia amplie a capacidade das pessoas, em vez de reduzir sua autonomia ou esconder as consequências de cada escolha.
Durante muito tempo, o progresso esteve associado à superação de limites e, agora, talvez dependa da capacidade de criá-los. Surge, então, a necessidade de impedir que os benefícios da inovação fiquem restritos a poucos.
A inteligência artificial poderá multiplicar boas decisões, mas também dará escala a prioridades mal definidas e desigualdades existentes. Ela não corrige a falta de direção. Apenas amplia suas consequências, do resultado de um negócio à vida em sociedade.
Durante décadas, a vantagem competitiva esteve associada ao acesso à tecnologia. Nas próximas, estará na capacidade de fazer melhores escolhas e executá-las com consistência.
Isso exigirá líderes capazes de compreender pessoas, distinguir urgência de importância e concentrar recursos nos problemas que realmente geram valor.
Também exigirá qualidade de construção, porque uma boa direção pode se perder em um dado mal compreendido, em uma experiência descuidada ou em uma decisão que ignora quem será afetado.
O valor estará na coerência entre o que escolhemos construir, a forma como construímos e o impacto que assumimos. É dessa coerência que nasce a confiança.
Daqui a 35 anos, provavelmente estará presente em quase todas as decisões. Espero, porém, que ainda saibamos interromper uma resposta automática e perguntar: isso importa? Para quem? Que futuro estamos ajudando a construir?
Não sei quais tecnologias estarão nas próximas páginas desta história. Mas acredito que o futuro não pertencerá a quem fizer tudo o que a tecnologia permitir.
Pertencerá a quem souber ampliar possibilidades humanas, criar valor para os negócios e contribuir para uma sociedade mais justa, construindo bem aquilo que realmente importa.
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