O Brasil pode reunir as condições necessárias para participar da transformação que a inteligência artificial (IA) vai proporcionar, deixando de ser apenas um consumidor das tecnologias desenvolvidas em outros países. Há anos, discutimos ética, transparência, proteção de dados e direitos dos cidadãos no que se refere à IA. Esses princípios continuam fundamentais. Mas, isoladamente, eles não constituem uma política nacional para inteligência artificial. Regulamentar é necessário, com equilíbrio, sob risco de travar a inovação. Desenvolver capacidade tecnológica própria, porém, é indispensável, e nisso ainda avançamos pouco.

A IA não é apenas uma inovação de software. Ela se tornou infraestrutura econômica. Assim como energia, conectividade e logística determinaram a competitividade das economias no século passado, capacidade computacional, dados e inteligência artificial vão definir a produtividade das próximas décadas.

O Brasil reúne atributos importantes: um mercado consumidor de escala continental, um ambiente empresarial sofisticado, universidades de excelência e uma das maiores demandas globais por profissionais de tecnologia. Mas esses ativos, por si só, não garantem protagonismo.

O Brasil é digital, mas ainda desigual. Passamos, em média, nove horas por dia conectados e somos o segundo país do mundo em quantidade de pagamentos instantâneos — mas boa parte da população ainda não sabe enviar um e-mail com anexo. Ainda devemos à sociedade brasileira uma tributação que facilite, e não penalize, o acesso da população aos benefícios dos meios digitais.

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Democratizar a inteligência artificial

O País precisa almejar a democratização da IA: criar condições para que empresas, governos, empreendedores e cidadãos usem essas ferramentas de forma produtiva e responsável. O desafio deixou de ser adoção e passou a ser geração de valor.

Enquanto cresce rapidamente o número de empresas que declaram utilizar inteligência artificial, apenas uma parcela consegue capturar ganhos relevantes de produtividade. A principal barreira para a IA não é acesso à tecnologia, mas ao conhecimento.

O País precisa investir em letramento em inteligência artificial. Assim como a inclusão digital foi decisiva para ampliar o uso da internet, esta nova etapa exige formar pessoas capazes de compreender, usar e integrar essas ferramentas às suas atividades profissionais. Não se trata de ensinar alguém a usar um chatbot, mas de preparar os colaboradores para um ambiente de trabalho em que a inteligência artificial se torna copiloto permanente — modificando processos, decisões e modelos de negócio, sem substituir o que a tecnologia tem de mais valioso: a capacidade de tornar as relações mais humanas.

Essa transformação também exige governança — não para restringir a inovação, mas para definir quais tecnologias são apropriadas para cada contexto, quais dados podem ser usados, quais riscos precisam ser mitigados e como garantir que as pessoas utilizem ferramentas compatíveis com sua capacitação e responsabilidade. Sem isso, a adoção da IA pode gerar baixo retorno econômico, aumentar riscos operacionais e comprometer a confiança nas organizações.

Infraestrutura como ativo estratégico

Outro eixo estratégico é a infraestrutura. A IA depende de uma capacidade computacional enorme. O setor terá cerca de US$ 2 trilhões acumulados globalmente em data centers e capacidade computacional em 2026, com uma demanda de energia que já reacende parques geradores praticamente estagnados há décadas.

Data centers, energia, conectividade e processamento se tornaram ativos estratégicos para qualquer país que queira participar desse ecossistema — e o Brasil, com uma matriz majoritariamente renovável, tem uma vantagem competitiva real. Quanto mais utilizamos IA, mais dados processamos, e quanto maior o processamento, maiores são as preocupações com a proteção da informação e com a própria competitividade nacional — inclusive sobre quem financia essa infraestrutura.

Dados recentes do setor mostram a receita de IA se deslocando das camadas de infraestrutura bruta para as camadas de aplicação e de modelos. É exatamente aí que o Brasil tem a maior chance de deixar de ser espectador e desenvolver aplicações, agentes e produtos que resolvam problemas brasileiros com dados brasileiros.

Temos uma oportunidade rara. Poucas revoluções tecnológicas oferecem a possibilidade de reposicionar países inteiros na economia global. A inteligência artificial é uma delas. Mas essa janela não vai ficar aberta indefinidamente.

O nosso verdadeiro diferencial estará na capacidade de transformar IA em produtividade, inovação e desenvolvimento econômico para toda a sociedade.

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