Na semana passada, o Presidente Trump decidiu banir a CNN, a MS NOW (antiga MSNBC) e o site Politico da Casa Branca, alegando que as empresas “produzem fake news”. 

Hoje, as principais emissoras de TV do país, inclusive a FOX, responderam suspendendo a cobertura dos compromissos públicos do Presidente.

A interrupção – anunciada após as três empresas barradas processarem a Casa Branca por violação da Primeira Emenda da Constituição americana – começou no mesmo dia em que Trump chega a Nova York para a Assembleia Geral da ONU, e não tem data para acabar.

Em 2009, quando o Governo Obama tentou alijar a FOX News das entrevistas sobre o programa de compra de ativos podres após a crise financeira global, os grupos de mídia credenciados também anunciaram que abandonariam a cobertura, e o governo acabou voltando atrás.

Essa lealdade entre os veículos existe, para além da convicção ao redor da liberdade de imprensa, porque as empresas dependem umas das outras para cobrir o dia a dia do Presidente.

Com eventos e entrevistas muitas vezes realizados em lugares com restrição de espaço – como o Salão Oval e o Air Force One – é impossível credenciar todos os veículos.

Por isso foi criado, ainda no Governo Franklin Roosevelt (1933-1945), o press pool da Casa Branca – um sistema de rotação de cobertura em que os veículos presentes nas agendas do Presidente trabalham não só para suas empresas, mas para todos os associados.

Antes de publicar qualquer material, os presentes compartilham todas as informações a que tiveram acesso com os não presentes, dando igualdade de condições a todos. Isso vale para veículos de TV, mídia escrita, fotografia, rádio, agências de notícias e imprensa estrangeira. 

“Repórteres do pool estavam em Warm Springs, na Geórgia, quando Roosevelt morreu; em Dallas, quando John F. Kennedy foi assassinado; do lado de fora do Washington Hilton, quando Ronald Reagan foi baleado; e a bordo do Air Force One, quando George Bush, Barack Obama e Trump fizeram visitas secretas a zonas de guerra distantes,” a CNN lembrou em um texto. 

A CNN estava escalada para acompanhar Trump e gerar as imagens de seus compromissos em NYC, compartilhando o sinal ao vivo com as outras grandes emissoras americanas – CBS, NBC, FOX e ABC.

Após a revogação das credenciais da CNN, o restante do grupo decidiu não acompanhar Trump em solidariedade à emissora, deixando o Presidente sem exposição na TV até segunda ordem. (Repórteres de texto, foto e rádio continuarão acompanhando Trump normalmente.)

“A partir de hoje, o pool de TV não cobrirá eventos de cobertura compartilhada,” disse Bryan Boughton, um executivo da Fox News e coordenador do grupo. “Essa decisão decorre da posição da Casa Branca de impedir a CNN de cumprir suas funções na organização. Não haverá substituto.”

O Presidente Trump tentou interferir no trabalho da imprensa já em seu primeiro mandato, quando quis cassar o acesso do repórter Jim Acosta, também da CNN, à Casa Branca – mas os problemas aumentaram desde sua volta à Presidência no ano passado.

Além de tirar a organização do press pool das mãos da Associação de Correspondentes da Casa Branca, aumentando sua ingerência sobre os veículos que podem acompanhar suas agendas, Trump restringiu o acesso de repórteres da Associated Press após o veículo se recusar a chamar o Golfo do México de “Golfo da América”. O caso tramita na Justiça.

Dessa vez, não houve um estopim claro para a decisão de Trump de barrar os três veículos. O Presidente anunciou o bloqueio em suas redes sociais na última sexta-feira, acusando os três veículos de publicar “fake news”, e no sábado os jornalistas já foram barrados.

Hoje de manhã, após o governo ser processado pelos veículos barrados, Trump voltou às redes e afirmou que seu governo “não está promovendo um ataque à imprensa livre – algo que eu prezo. Está promovendo um ataque às fake news, algo que cresceu como um câncer em nossos amados EUA.” 

“É algo corrupto, intencional, generalizado, totalmente coordenado e completamente fora de controle. É uma ameaça à nossa segurança nacional e precisa ser interrompido – AGORA,” disse.

Com tantos tribunais decidindo contra Trump em investidas parecidas – contra universidades e escritórios de advocacia – “seria de se esperar que o Presidente já tivesse aprendido a lição,” disse Jameel Jaffer, o diretor executivo do Knight First Amendment Institute da Universidade de Columbia.

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