Em ‘O Convite’, quem realmente somos quando amamos
“Precisamos reinventar nossa relação.”
A frase aparece quando aquilo que funcionava já não funciona. Esther Perel, uma psicoterapeuta conhecida por seu trabalho sobre desejo e relações duradouras, parte de uma tensão semelhante: queremos encontrar na mesma pessoa segurança e novidade. Mas o que precisa ser reinventado? A relação, a pessoa ao nosso lado, ou quem nos tornamos dentro dela?
O Convite, dirigido por Olivia Wilde, encontra um casal nesse ponto. Uma visita dos vizinhos transforma o jantar numa exposição das fraturas do casamento. Wilde e Seth Rogen interpretam os anfitriões; Edward Norton e Penélope Cruz, os convidados que perturbam uma convivência organizada em torno de ressentimentos.
Norton e Cruz ocupam dois lugares. Tornam-se testemunhas diante das quais cada anfitrião tenta legitimar sua versão, e também representam a esperança de que alguém de fora enxergue uma saída. São plateia para a insatisfação e portadores da fantasia da solução.
O jantar vira um cabo de guerra. Cada anfitrião busca validação, enquanto os visitantes alimentam o desejo de uma intervenção extraordinária – afinal, procurar quem confirme nossa narrativa ou ofereça uma saída mirabolante evita olharmos para nós mesmos. O que cada um teria de mudar para que a relação fosse possível?
Por trás das discussões parece ter desaparecido a admiração. Quando deixamos de admirar alguém, suas qualidades mudam de significado. A determinação vira teimosia, a leveza vira irresponsabilidade, o cuidado vira controle. Já não encontramos a pessoa, mas uma interpretação na qual cada gesto confirma aquilo em que decidimos acreditar.
Jung ajuda a entender esse movimento. Na psicologia analítica, a projeção ocorre quando conteúdos que não reconhecemos em nós são percebidos como se pertencessem ao outro. No jantar, os anfitriões transformam o parceiro em depositário da frustração, e os visitantes em portadores da liberdade desejada. O conhecido recebe a culpa; o desconhecido, a promessa de saída.
Essa divisão aproxima o filme do trabalho de Esther Perel. Depois de anos juntos, a intimidade pode se confundir com a certeza de que já conhecemos o outro. Antecipamos respostas e deixamos de perguntar quem aquela pessoa ainda pode se tornar. Não é a intimidade que apaga a curiosidade, mas a convicção de que já não existe nada a descobrir.
Os visitantes surgem nesse espaço. Eles carregam mistério e, diante deles, os anfitriões imaginam outras versões de si. Talvez não desejemos apenas o desconhecido, mas quem conseguimos voltar a ser diante de alguém que ainda não decidiu quem somos. Jung e Perel apontam para a mesma armadilha. Quanto mais fixamos o parceiro numa narrativa, mais facilmente projetamos a mudança em outra pessoa.
Mudar dentro da relação exige mais. Não basta esperar que o parceiro mude. Eu também terei de mudar. Essa ginástica emocional cansa. “Crescer juntos” soa bonito até exigir que cada um reconheça sua participação no conflito e confie que o outro faça o mesmo.
Talvez a grande provocação de O Convite seja mostrar que muitos conflitos de um casamento não nascem apenas da pessoa que está ao nosso lado, mas daquilo que projetamos nela. Casamos também com nossos anseios, inseguranças e expectativas. A necessidade de validar nosso descontentamento, a busca por culpados e a fantasia de uma bala de prata acabam nos devolvendo a nós mesmos. Todo casamento contém também um casamento consigo próprio.
É difícil não aproximar essa provocação de uma frase associada há mais de dois milênios ao santuário de Apolo, em Delfos: gnōthi seautón, “conhece-te a ti mesmo”. A inscrição original não chegou intacta até nós, mas a máxima atravessou os séculos.
Talvez este seja o convite por trás de O Convite: antes de perguntar se ainda conhecemos a pessoa com quem nos casamos, perguntar quanto conhecemos daquele que entrou conosco nesse casamento e nunca deixou de estar ali: você mesmo.
Pedro Thompson é sócio e CEO da Tuesday Capital.