Paulo Tenório, fundador e CEO da Trakto | Foto: Divulgação

Apesar de estar na ativa há mais de dez anos, e ter se destacado no mercado como um rival brasileiro contra pesos-pesados como o Canva, a alagoana Trakto resolveu ficar na miúda nos últimos anos. Ela até desativou a inscrição de novos usuários, focando na criação de projetos em parceria com o Google e no desenvolvimento de uma nova plataforma. Agora, chegou o momento da empresa apresentar este novo momento, com planos de expandir como uma plataforma completa de IA e design para agências e grandes empresas.

“Fiquei eu calado nesses últimos quatro anos praticamente, sem poder falar nada, cheio de NDA para tudo quanto é lado. Mas agora chegou a hora do mercado ter acesso ao que a gente tem feito”, diz Paulo Tenório, fundador e CEO da Trakto, em conversa com o Startups.

Desse período saiu uma plataforma refeita do zero, batizada de Trakto Studio, que o fundador descreve menos como editor e mais como ecossistema. O editor virou o centro, com três modos: Design, comparável ao Figma; Motion, de animação e montagem, na linha do After Effects; e Flow, onde fica o ecossistema de IA.

É no Flow, que opera nos moldes de soluções hypadas do momento como o Higgsfield, que aparece a prateleira de modelos (Nano Banana, Seedream, Ideogram, Seedance, entre outros). Ali também roda o Trakto Ginga, modelo próprietário baseado no BytePlus que coloca uma pessoa em qualquer cenário de vídeo. A camada mais recente é a agêntica: via MCPs e APIs, a Trakto pode ser operada de fora, pelo Claude ou pelo ChatGPT.

Com a nova oferta, o plano é ganhar espaço diante de plataformas de perfis bem distintos. Segundo Paulo, o mapa dessa competição tem três blocos: os geradores de IA, como Higgsfield e Runway; as suítes de design, como Figma, Photoshop e Canva; e a automação para enterprise, como a Smartly. Para ele, cada um entrega um pedaço da jornada.

“Em resumo, são agregadores de modelos. Todos os modelos que esses caras têm, a gente tem. E o que é que eles não têm? O ecossistema de design e vídeo inteiro ao redor desses modelos”, afirma o CEO da Trakto, destacando que a parte difícil deixou de ser o modelo. “Os modelos viraram commodity. Todo mês surge um melhor. Quem ganha é quem controla o processo: a marca, os dados, a aprovação e a entrega.”

Para o cliente grande, segundo Paulo, o diferencial não é a geração, é a governança: integrações com Google, Meta, LinkedIn, TikTok, Merchant Center, Drive e Figma, mais um painel que mostra qual modelo foi usado, por quem, quando e a que custo, com teto de créditos por time. “Esse universo de IA é uma caixinha preta hoje”, diz.

Plataforma da Trakto foi refeita do zero, conta o fundador | Imagem: Divulgação

O caminho até aqui

Conforme explica Paulo, a Trakto teve um bom motivo para ficar mais quieta nos últimos anos. Esse motivo nasceu em 2022, num evento para pouco mais de duzentas pessoas no Computer History Museum, no Vale do Silício. Ao apresentar a Bela, solução de automação de design com IA criada dentro de casa, Paulo chamou a atenção de um executivo do Google. E ali, segundo o CEO, talvez estivesse a solução de uma dor da big tech.

A dor era de escala: pelo que foi apresentado à Trakto, 98% dos anunciantes do Google não conseguem entregar a campanha completa. Faltam peças, formatos, versões. E a empresa alagoana, que até então disputava o varejo de assinatura com o Canva, decidiu virar a mesa.

“A gente estava B2C ali no Canva, brigando com R$ 19,90 por mês, R$ 29,90, aquela briga cruel de preço, com o Canva cheio de dinheiro, e eu falei: cara, vou dar all-in”, conta.

O all-in, no caso, foi literal. Em 2023, sem anunciar nada ao mercado, a Trakto desligou o botão de criar conta na plataforma.

“A gente começou a sangrar no B2C, de milhares de assinantes, foi diminuindo cada vez mais. Mas eu olhava para o futuro e via que não fazia sentido continuar investindo numa plataforma B2C com essa outra oportunidade de enterprise aqui na mão”, afirma Paulo.

Sobraram algumas centenas de assinantes numa plataforma que, nas palavras dele, não recebeu uma linha de código nova em quatro anos — e que agora está sendo migrada para o produto novo. “Eu não sei como, mas a galera ainda está lá com a gente.”

Do outro lado da aposta, o projeto com o Google foi dividido em duas fases. A primeira era ajudar os grandes anunciantes a escalar criativos, estáticos e em vídeo, importando arquivos de Photoshop, Illustrator e Figma para a Trakto e conectando o design a planilhas, para gerar centenas de variações a partir de dados variáveis.

A segunda era a integração com os modelos de IA que o Google ainda estava desenvolvendo, fase em que Paulo diz ter trabalhado direto com o time do DeepMind, dentro do programa de acesso antecipado, com modelos que ainda não existiam publicamente. Foi nessa etapa, segundo o CEO, que a Trakto reuniu o conhecimento para construir a nova plataforma.

A avaliação que ele faz do ciclo inteiro é de produto, não de marketing. “A partir do momento que eu comecei a trabalhar com o time de produto do Google, a Trakto deu uma guinada gigantesca de qualidade, de entrega, do que é software. E foi muito erro e acerto, mais erro do que acerto. Mas quando foi acerto, foi ficando redondo.”

Vendas e crescimento

Mesmo afastada do B2C, a empresa cresceu a partir da parceria com o Google. Paulo afirma que a Trakto quintuplicou a receita desde 2022 e terminou o ano passado com caixa positivo. O time tem 31 pessoas. A última rodada foi captada em 2021 e, de lá para cá, segundo o CEO, o avanço veio do faturamento.

Nos últimos três a quatro anos, a companhia atendeu mais de 160 grandes empresas em oito países: Brasil, México, Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Canadá e Estados Unidos. Apesar de não abrir valores de receita, Paulo diz que o ticket varia muito. “A gente tem clientes que pagam mais de R$ 1 milhão por ano, como tem clientes que pagam entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês. Depende muito do modelo.”

Além disso, a experiência com a big tech fez a Trakto transpor as fronteiras do país. “Com o Google, a gente começou a vender mais fora do Brasil do que no Brasil. Hoje, a maior parte da receita vem de fora”, diz. O México é o segundo maior mercado da empresa, e a parceria com o Google foi renovada até 2027.

Parte dos contratos vem com serviço embutido, porque a ferramenta chega na frente do repertório do cliente. “Muitos chegam na gente elogiando a ferramenta, mas dizem que seus times ainda não entendem de criação com IA”, resume ele. “A gente está numa bolha tão grande que acha que as empresas estão com o capital humano preparado.”

O barco na água

Agora começa a parte que a Trakto não fez nos últimos quatro anos: voltar a aparecer e crescer no B2C. A empresa inicia esta semana um soft launch do novo posicionamento, que Paulo resume como “sistema operacional criativo das marcas na era da IA”, com campanha publicitária e reabertura das assinaturas.

Além do foco enterprise, outro público-alvo dessa volta tem nome: AI creators. “É o cara que antes criava site e agora está se especializando em criar conteúdo com IA”, explica. A leitura é de que esse profissional está migrando para Higgsfield e Magnific por falta de alternativa, e o foco geográfico é a América Latina, onde a empresa vê terreno pouco disputado. “A maioria dos conteúdos são todos em inglês, a galera cobra em dólar.”

Para financiar a expansão, a companhia está conversando com o mercado para uma possível rodada em um futuro não muito distante. Segundo Paulo, o plano é atrair tanto brasileiros quanto fundos gringos, de olho no potencial de internacionalização do negócio.

“É tanta coisa agora que parece que eu estou recomeçando a Trakto. Dá até aquele friozinho na barriga de botar o barco na água”, finaliza Paulo, sorrindo com a empolgação de quem recomeça na mesma empresa que fundou há mais de dez anos.

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