Enquanto o mercado aguarda uma sinalização do Presidente Lula sobre a política fiscal em seu quarto mandato, o Ministro dos Transportes, George Santoro, levou um recado a grandes investidores.
Em um
roadshow em Londres para apresentar a agenda de leilões de rodovias e ferrovias do Governo para os próximos anos, Santoro disse que ele mesmo colocou o tema das contas públicas sobre a mesa.
“Eu fiz em minha fala um reconhecimento, o de que temos um desafio fiscal nos próximos anos. Mas esse desafio não é diferente do resto dos países do mundo. Dos 27 países da União Europeia, 22 tiveram déficit fiscal significativo no último ano,” disse Santoro.
Ele citou o exemplo do próprio Reino Unido, com projeção de déficit de cerca de 4% do PIB neste ano.
“Não é um problema local brasileiro. Até por isso a taxa de juros do mundo inteiro aumentou nos últimos meses. Cada país, dentro de suas instituições, vai buscar um caminho pra resolver. Não tenho dúvida de que o Brasil vai buscar um caminho para resolver isso. O Presidente vai dar um endereçamento correto nisso.”
Em uma conversa com o
Brazil Journal no intervalo de uma agenda que incluiu reuniões com o governo do Reino Unido, os bancos UBS e HSBC, o grupo australiano Macquarie (com forte atuação em infraestrutura), e diversos outros representantes de empresas e fundos, Santoro disse avaliar que há certo exagero no nervosismo do mercado local com o Lula 4.
“Ao contrário da gente que fica repercutindo o problema fiscal o tempo inteiro, aqui (em Londres) ninguém perguntou, ninguém demonstrou preocupação sobre a questão fiscal. As perguntas que todo mundo fez foram focadas nos projetos, questões regulatórias.”
Nos últimos dias, em meio à ausência de anúncios sobre a equipe econômica ou medidas fiscais, a Bolsa brasileira teve forte queda e o dólar e os juros futuros subiram, evidenciando a crescente desconfiança dos mercados quanto ao ‘novo’ Governo.
“Ninguém aqui fora está olhando assim. Tem várias pessoas de órgãos diferentes aqui participando da missão e ninguém está ouvindo o que a gente ouve no Brasil. Ao contrário, está todo mundo olhando para o Brasil muito bem, como um país que tem feito o seu dever de casa,” disse Santoro.
Ele também defendeu o atual arcabouço fiscal, embora admitindo que ajustes podem ser necessários.
“Não falta norma para a questão fiscal. Pode-se discutir se a gente precisa melhorar, fazer ajustes, mas não podemos dizer que o Brasil é um país solto nisso.”
Embora o tempo estivesse nublado em Londres, Santoro disse que as reuniões com investidores nos últimos dias tiveram “um clima excelente”.
“Diferente do pessoal aí no País, que vê tudo como uma turbulência na eleição, eles veem muito bem o nosso processo democrático.”
Segundo Santoro, os
players de infraestrutura de longo prazo de todo o mundo são atraídos pela carteira de projetos no Brasil porque o País ainda tem tudo por fazer no setor – e até por isso deve promover nos próximos anos o maior volume de concessões de transportes do mundo, entre rodovias e ferrovias.
A Europa, por outro lado, é um mercado maduro, com poucas oportunidades para expansão, e outros emergentes ou estão envolvidos em conflitos geopolíticos ou não possuem carteiras tão relevantes de novos projetos.
“Eu venho falando, quem não estiver no Brasil nesse mercado de transportes vai perder relevância,” disse Santoro.
O Ministério dos Transportes prevê realizar 36 leilões de rodovias entre 2027 e 2030.
Em ferrovias, só em 2027 a meta é promover oito leilões de concessão e nove chamamentos públicos de autorização.