É difícil explicar para as pessoas não versadas no funcionamento da economia as diversas implicações da reeleição que o Presidente Lula conquistou ontem. Mas o mais assustador é que talvez ele mesmo não as compreenda. Ao longo das últimas duas décadas, com raros períodos fugindo à regra, o Estado brasileiro se tornou mais gastador, com cada Presidente da República deixando a dívida pública (como proporção do PIB) maior do que a havia encontrado. Isso gerou uma taxa de juros consistentemente alta, sufocando quem precisa de crédito para empreender, gerar empregos, ou simplesmente consumir. Pior: para financiar este gasto crescente, os diversos governos do PT aumentaram os impostos sucessivamente, pressionando ainda mais as empresas. Mas ao longo dessas duas décadas — e da deterioração institucional que veio junto — o capital cansou de ser maltratado, e começou a deixar o Brasil. Primeiro gradualmente – e depois, subitamente – as famílias mais ricas foram alocando uma parte crescente de seu patrimônio em títulos e ações de empresas do exterior, em detrimento das empresas brasileiras. Ao mesmo tempo, nossa economia foi perdendo relevância e dinamismo quando comparada à de outros países. Para muitas multinacionais e para os investidores globais, o Brasil continua sendo um grande mercado – mas deixou de ser “o país do futuro.” Era preciso uma mudança drástica de rumo, uma nova abordagem – e boa parte do mundo empresarial depositava essa esperança na candidatura derrotada ontem. Com 81 anos a serem completados amanhã, o Presidente Lula não dá sinal nenhum de que entende esta realidade, este anseio da sociedade por contas públicas organizadas que possam levar a uma queda dos juros a um patamar minimamente razoável. Nos palanques, o Presidente sempre disse que aprendeu com sua mãe a não gastar mais do que ganha – mas depois de seu primeiro mandato, nunca mais colocou este aprendizado em prática. (Ao contrário, na reta final desta eleição, gastou quase R$ 400 bilhões a mais para se reeleger.) E é por isso que, desta vez, ele não terá o benefício da dúvida, e os mercados reagirão dramaticamente à sua vitória. A perspectiva de que o Brasil vai manter sua escalada da dívida é tudo o que faltava para o capital que ainda está aqui – que ainda tinha alguma esperança – jogar a toalha. Ninguém quer esperar mais quatro anos por um governo que consiga entregar juros aceitáveis – sem falar nos inúmeros outros problemas que o Lula 3 deixou para o Lula 4 resolver. Talvez, a magnitude da crise que vai se instalar a partir de hoje convença o Presidente de que é preciso fazer alguma coisa. E talvez ele até faça – mas muito provavelmente será um ajuste sem convicção ou profundidade. O Presidente disse ontem querer um País “civilizado”, mas não há nada mais bárbaro do que um juro de 14% – agora com viés de alta – que vai aniquilar milhares de outras empresas, e um dólar tendendo a R$ 6, que fará subir a inflação e corroer ainda mais o poder de compra do brasileiro. Depois da eleição de ontem, Lula pode até ter mais capital político – mas tem zero margem de manobra. Seu próximo mandato começará em meio a múltiplas crises: uma política (com uma oposição que não reconhece o resultado da eleição), uma institucional (dado que o próximo Senado terá ampla maioria conservadora), e uma econômica, cujo primeiro capítulo todos assistiremos hoje nas telas da Bloomberg. Os mercados vão dizer hoje quanto valem as empresas, a moeda e o crédito do Brasil – e estes preços vão determinar se os brasileiros, no Lula 4, terão mais ou menos empregos, mais ou menos salários, e se serão mais ou menos felizes. Os eleitores do Presidente comemoram que, mais uma vez, salvaram a democracia. Resta saber a que custo. . . QUATRO ANOS ATRÁS… Cuidado com os puxa-sacos, Presidente