Fundadores da DOMO.VC: Marcello Gonçalves, Felipe Andrade e Rodrigo Borges | Foto: Divulgação

A DOMO.VC está completando 10 anos, um marco que acompanha também um momento de virada de página de uma casa que nasceu puramente como fundo de venture capital e agora quer ir além. Depois de entrar no mercado de crédito com o lançamento de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) de R$ 100 milhões, em junho deste ano, a DOMO trabalha agora para se tornar uma “plataforma de capital para tecnologia”.

“O banco tradicional trata a startup como uma padaria. É difícil para essa turma atender ao crescimento rápido e às necessidades dessas empresas, existe pouca flexibilidade. E o FIDC é um fundo que você pode criar de qualquer maneira. Isso foi uma coisa que nos chamou a atenção, a possibilidade de criar mais um serviço para um mercado que a gente conhece bem. O que a gente entende mesmo é tecnologia. Então, esse conceito de deixar de ser somente um fundo de VC para ser uma plataforma de capital para a tecnologia é o que a gente está trabalhando forte dentro desses próximos 10 anos”, conta Marcello Gonçalves, co-fundador da DOMO, em entrevista ao Startups.

A conversa reuniu os três fundadores — Marcello, Rodrigo Borges e Felipe Andrade — na véspera do evento que celebra o aniversário da gestora. Para Rodrigo, a estratégia de crédito nasce de uma percepção de que, cada vez mais, é preciso se diferenciar dos demais investidores, oferecendo benefícios estratégicos às startups.

“O nosso dinheiro é igual ao dinheiro da Kaszek, da Monashees, da Headline. Num primeiro momento, a DOMO tinha um diferencial dos sócios, que ajudam, estão próximos dos fundadores. Mas ao longo do tempo a gente foi criando toda essa rede de suporte, que ajuda a melhorar a performance da startup. E o crédito é um instrumento que traz eficiência de capital, com menos diluição para o empreendedor”, afirma Rodrigo.

Ainda olhando para o futuro, também está nos planos da DOMO avançar para além dos cheques em estágios iniciais e, quem sabe, criar um veículo específico para séries A e B.

“A gente sempre olha com interesse essa fase subsequente. Mas hoje a gente só faz fundos na base de best efforts. Então, se uma oportunidade dessa aparece, a gente tenta ajudar a startup e monta um fundo. Mas seria interessante ter um veículo mais parrudo já orientado para essa fase”, aponta Felipe, que admite não haver ainda planos formais nesse sentido. A tentativa, segundo ele, pode ficar para o período pós-eleitoral, quando o ambiente político estiver “menos nervoso”.

Com mais de 120 startups no portfólio, seis fundos e R$ 850 milhões sob gestão, a DOMO também está se reestruturando para perpetuar além dos fundadores. A ideia é preparar uma nova geração para assumir lideranças na gestora, a exemplo do que aconteceu em casas norte-americanas mais antigas, como Sequoia e Kleiner Perkins, hoje na terceira ou quarta geração de sócios.

“A gente tem uma preocupação legítima em criar uma franquia. Não é um fundo do Marcello, do Rodrigo e do Felipe. É uma casa de venture capital que a gente quer perpetuar. E, para isso, trazer novos empreendedores, no caso aqui, que vão tocar a DOMO no futuro”, conta Rodrigo.

Como começou: De Kees Koolen, fundador do Booking, à DOMO

A história da DOMO começa bem antes de 2016. Marcello e Felipe se conhecem há mais de 30 anos, desde os tempos em que trabalharam juntos no banco inglês Barclays. Já Rodrigo cruzou a vida de ambos em momentos distintos, quando ainda estava à frente do Buscapé, que ele fundou em 1998.

O embrião da gestora surgiu em 2012, quando Marcello e Felipe trabalhavam em um family office e tentavam, sem sucesso, convencer a família controladora a migrar de crédito para investimentos em equity. Um dos clientes do family office era o holandês Kees Koolen, cofundador do Booking.com. Foi a ele que Marcello propôs a criação de um fundo.

“Três meses depois, o Kees falou para fazermos o fundo, mas eu e Felipe tínhamos tomado a decisão, naquele dia, de sair do family office. E aí acabou que o Felipe se envolveu em outro projeto com o irmão dele, eu aceitei o convite para ser CEO de uma seguradora, mas o Kees topou fazer. E eu acabei montando com ele a Koolen. Imediatamente, liguei para o Rodrigo, que nos ajudou a marcar reuniões com empresas de internet”, relembra Marcello.

Quando Rodrigo decidiu deixar o Buscapé para fundar o próprio fundo, Marcello o convidou para fazer parte da Koolen. Em 2015, Felipe se junta a Rodrigo e Marcello, que na época estavam percorrendo a Faria Lima em busca de uma gestora para se associar, junto com Guga Stocco como quarto fundador. Depois de receberem propostas que consideraram “indecentes”, os quatro decidiram seguir por conta própria e, no fim daquele ano, nascia a DOMO, formalizada em 2016. Guga deixaria a gestão do dia a dia tempos depois.

O capital da Koolen resultou em 12 investimentos, sendo que três deles viraram unicórnios: Gympass, Hotmart e Loggi.

“Durante o processo de captação dos outros fundos, a gente falava: a gente não promete essa performance passada, porque foi uma performance incrível”, brinca Rodrigo. “Mas acho que isso foi um grande motivador, porque eu tinha um track record como empreendedor, mas nós três não tínhamos track record como investidores de venture capital. E aí foi um divisor de águas importante”.

“VC brasileiro não é o americano”

Ao longo da década, um dos principais aprendizados dos sócios foi que o modelo norte-americano de venture capital não necessariamente se aplica ao Brasil. Entre as diferenças estão, por exemplo, a duração dos ciclos, que no Brasil são mais longos — muitas vezes por falta de janelas de saída, como IPOs.

“Não dá para pegar um modelo de venture capital americano, trazer para o Brasil e implantar. Foi preciso entender que a gente, ao longo do tempo, tem que começar a fazer ajustes para que esse modelo seja tropicalizado e dê resultado”, observa Marcello.

Outra diferença é na própria exigência dos investidores no que se refere à remuneração. Com taxas de juros mais altas no Brasil, o venture capital local acaba competindo de forma injusta com a renda fixa, que oferece retornos altos a risco baixo. “Nos Estados Unidos, se o cara dá retorno de 7%, 10% ao ano, o cara é herói. Aqui, se a gente der 10% ao ano, a gente nunca mais fala com o investidor. A gente tem que dar 30%”, acrescenta Marcello.

Com 10 anos de estrada, a gestora também acumula aprendizados na análise das startups e na escolha dos founders. Entre as qualidades buscadas pelos investidores estão obsessão pelo negócio, autocrítica e legitimidade, ou seja, conhecimento genuíno do mercado em que atuam.

“Uma das coisas que não mudou é o foco nas pessoas”, afirma Felipe. Para a DOMO, não basta encontrar um empreendedor brilhante. A composição da sociedade, a complementaridade entre os fundadores e a capacidade de trabalharem juntos são parte importante da análise.

Como não podia deixar de ser, a inteligência artificial também ocupa um papel importante na forma como a DOMO encara o futuro do ecossistema. “Talvez a mudança mais recente seja a IA, e é uma mudança que surpreende a gente todo dia, de tão rápido que ela está evoluindo. O que a gente mais se preocupa hoje, olhando para o portfólio, é a capacidade de adaptação das startups”, admite Rodrigo.

Para os sócios, com todos os altos e baixos do setor, o venture capital continua sendo um mercado que atrai novos profissionais e investidores, e a razão está na própria natureza da atividade. “As histórias são bonitas”, resume Rodrigo.

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