A derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas dos Estados Unidos abre uma nova frente para o Brasil tentar negociar as tarifas comerciais impostas pelo governo Donald Trump.
Com os democratas conquistando o controle da Câmara e do Senado, a Casa Branca terá de lidar com um Congresso mais disposto a questionar as medidas econômicas do presidente, embora a mudança não signifique uma suspensão automática das barreiras comerciais.
O novo cenário pode dar ao governo brasileiro mais espaço político para buscar acordos com Washington, especialmente em setores afetados pelas tarifas. A avaliação de que uma mudança no equilíbrio de forças americano poderia favorecer as negociações já havia sido apresentada pela professora de Relações Internacionais Ana Carolina Marson, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), durante o Mapa de Risco especial, programa de política do InfoMoney.
Antes da votação, a especialista afirmou que uma maior presença democrata no Congresso poderia estimular uma política externa menos confrontadora, sem alterar os interesses estratégicos dos Estados Unidos.
“Acredito que possa ter uma melhoria das relações, mas que essa melhoria não significa uma mudança completa”, disse.

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O que muda para as tarifas
A principal diferença está na capacidade do Congresso de fiscalizar e influenciar a política comercial americana. Embora a Constituição atribua ao Legislativo competências sobre comércio exterior, sucessivas leis permitiram que presidentes adotassem tarifas e outras restrições em determinadas circunstâncias.
Com a mudança de maioria, os democratas poderão ampliar investigações sobre os efeitos econômicos dessas medidas, convocar representantes do governo e apresentar propostas para limitar ou revisar parte das autorizações concedidas ao Executivo.
Isso não significa, porém, que Trump perderá imediatamente o controle sobre a política tarifária. O presidente continuará com instrumentos legais para negociar acordos comerciais e adotar determinadas restrições, enquanto eventuais mudanças legislativas poderão enfrentar seu poder de veto.
Além disso, o novo Congresso só tomará posse em janeiro de 2027. Até lá, os republicanos continuarão controlando as duas Casas, o que limita os efeitos imediatos do resultado eleitoral.
Para o Brasil, a mudança pode ser relevante porque ocorre em meio a negociações comerciais com os Estados Unidos. A expectativa de uma nova proposta americana cria a oportunidade de discutir condições de acesso a mercados, tarifas e setores considerados estratégicos pelos dois governos.
A questão será saber se a derrota republicana levará a Casa Branca a buscar acordos antes da posse dos novos parlamentares ou se Trump manterá uma postura mais rígida nas negociações.
Movimentações
Em Brasília a orientação oficial é manter as negociações em andamento, sem alterar a estratégia por causa do resultado eleitoral.
O governo brasileiro espera receber até a próxima semana uma proposta americana para avançar nas discussões sobre o tarifaço. O documento deverá indicar os setores nos quais Washington pretende obter reduções tarifárias, abrindo caminho para que o Brasil apresente suas próprias demandas.
A expectativa foi confirmada na terça-feira (3) pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Questionado sobre os efeitos das eleições americanas nas negociações, ele descartou mudanças de rumo.
“Não, nada, não muda absolutamente. O Brasil segue no seu percurso, tem muito trabalho para fazer e o povo norte-americano é que define as eleições”, afirmou.
Apesar da posição oficial, a nova composição do Congresso poderá ampliar os instrumentos de fiscalização sobre a política comercial americana e criar outros canais de diálogo com parlamentares interessados em rever as barreiras impostas por Trump.
O que pensa o Itamaraty
O Itamaraty já vinha defendendo a continuidade das negociações comerciais independentemente das divergências políticas entre os governos de Lula e Trump.
Em 30 de setembro, o chanceler Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa se reuniram com o representante comercial americano, Jamieson Greer, durante um encontro do G20 em Milwaukee. Na ocasião, os dois países concordaram em criar um grupo de trabalho para discutir obstáculos tarifários e não tarifários e buscar um entendimento bilateral.
Em comunicado divulgado após a reunião, o Ministério das Relações Exteriores informou que os governos reconheceram a importância de avançar nas negociações e manifestaram disposição de trabalhar para superar os impasses.
A posição diplomática é relevante porque as tratativas começaram antes da derrota republicana e envolvem compromissos assumidos diretamente pelas equipes comerciais dos dois países.
Pragmatismo pode ganhar espaço
Outro fator é a relação política entre Lula e Trump, marcada por divergências comerciais e diplomáticas.
Na avaliação de André Lucena, repórter de internacional do InfoMoney, o presidente americano terá de considerar os custos de manter uma postura de confronto com o Brasil, especialmente diante da importância do país nas negociações comerciais e na disputa internacional por investimentos.
O especialista argumentou que os interesses econômicos tendem a impor limites às afinidades ideológicas entre governos e grupos políticos.
A vitória democrata pode acrescentar pressão institucional a esse cálculo, mas não altera o fato de que Trump continuará responsável pela condução da política externa americana.
Para o Brasil, o resultado das eleições representa uma oportunidade de ampliar o diálogo com parlamentares e setores econômicos americanos interessados em rever determinadas barreiras comerciais.
A possibilidade de redução das tarifas, entretanto, dependerá de negociações concretas, das competências legais de cada poder e da disposição da Casa Branca de modificar sua política comercial.
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