Everton Arantes tinha 8 anos quando viu um computador pela primeira vez, na casa do namorado de uma tia, que havia trazido a máquina do Paraguai para revender. “Foi paixão à primeira vista. A partir daquele dia, eu já sabia o que queria fazer da vida. Não sabia como, mas sabia que trabalharia com aquilo”, lembra. Três décadas depois, o fundador da Prime Control, consultoria especializada em qualidade de software, voltou a ocupar o posto de CEO da empresa que criou, desta vez com uma missão que ele próprio define como uma reinvenção.

O retorno acontece depois de um período em que Arantes se afastou da gestão do dia a dia e entregou o comando a um executivo de mercado. A motivação para voltar, segundo ele, é a disrupção que a inteligência artificial vem provocando na engenharia de software. “A forma como fazíamos as coisas há um ano mudou bastante, e ainda virão outras mudanças capazes de impactar todo o mercado”, afirma. “Não é só incorporar IA. É reinventar a companhia.”

Do curso de digitação à vaga de trainee

A trajetória de Arantes começa longe dos grandes centros de tecnologia. Nascido em Goiás e criado em Brasília, em uma família de origem humilde, ele ganhava dos tios, como presente de aniversário, cursos de informática. Aos 12 anos fez digitação; depois, operador de microcomputador. Aos 16, já dava aulas de informática para crianças em uma escola de bairro, onde acabou assumindo também a secretaria e toda a parte administrativa, que ele tratou de automatizar.

A perda do pai, quando tinha 17 anos, pesou nas escolhas. Sem renda fixa em casa, ele não podia arriscar trocar o emprego na escola por uma vaga em TI. Cursou Análise de Sistemas com financiamento do FIES e, ao se formar, conseguiu uma vaga de trainee como analista de testes. Ali encontrou sua área. “Tenho um lado muito detalhista, por isso me identifiquei tanto com a área”, diz.

Na sequência, passou pela LG Lugar de Gente, empresa de soluções de RH em Goiânia, onde em seis meses foi promovido a líder e chegou a comandar 25 pessoas. Foi também o período em que acumulou certificações, cerca de 80 ao longo da carreira, entre elas a CSTE, de qualidade de software, que obteve sem falar inglês, e a de implementador CMMI.

A dor de virar líder

Arantes não esconde que a transição da carreira técnica para a gestão foi difícil. No início, para ele, sucesso significava saber tudo o que acontecia. Quando a equipe cresceu, a fórmula deixou de funcionar e vieram reclamações de autoritarismo ao RH. “Das pessoas que trabalharam comigo nos dois primeiros anos, nenhuma permaneceu. Eu trabalhava demais e não tinha vida pessoal. Foi um aprendizado doloroso”, conta.

A virada veio com treinamentos de autoconhecimento e com uma mudança de entendimento que hoje ele repete aos líderes que promove. “A partir do momento em que você se torna líder, o sucesso deixa de ser medido pelo que você faz e passa a ser medido pelo que sua equipe entrega.”

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Cinquenta reuniões, 49 “nãos”

A decisão de empreender surgiu em Curitiba, onde Arantes percebeu que o mercado não tinha empresas dedicadas a QA. O primeiro projeto veio de um ex-gestor, que precisava terceirizar os testes de uma migração para .NET. O começo foi instável: um mês havia projeto, no outro não. “Você faz 50 reuniões, ouve 49 ‘nãos’ e tenta entender por que não está funcionando. Então um negócio dá certo, depois outro, e quem já trabalhou com você passa a indicá-lo.”

As indicações levaram a GVT, O Boticário, Positivo Informática e Perkons, que formaram a base para a chegada a São Paulo. Pouco depois veio o Magalu. Em 2018, ano em que faturou R$ 17 milhões, a Prime fechou com a Vivo o maior contrato de sua história até então, de quase R$ 8 milhões em dois anos.

Governança acima do porte

Para Arantes, o crescimento sempre esteve amarrado à gestão. Em janeiro de 2019, montou um conselho com executivos seniores porque se sentia “muito sozinho e limitado”. A empresa já fazia planejamento estratégico, o primeiro deles financiado com verba de consultoria do Sebrae, e passou a operar com indicadores baseados em Balanced Scorecard. Em 2020 adotou OKRs e, entre 2020 e 2023, viveu uma fase intensamente colaborativa, com squads de planejamento que reuniam líderes e representantes de outros níveis da companhia.

A Prime é auditada desde 2019, e Arantes costuma dizer que a governança da empresa é a de uma companhia cinco vezes maior. A aceleração pela Endeavor, duas vezes, também deixou marcas: dali vieram os town halls, a ferramenta interna de comunicação e pesquisas de clima e o incentivo, vindo do mentor Bruno Pierobon, fundador da Zup, para construir aceleradores próprios que diferenciassem a Prime da concorrência.

O cuidado com as pessoas virou prioridade depois de 2017, quando ele comprou a participação de uma sócia e ficou com 95% da empresa. “Somos uma empresa de pessoas. O produto que oferecemos não é uma caixa nem um pacote: é uma pessoa”, diz. Um trabalho de reconstrução cultural em 2018 levou ao primeiro selo GPTW em 2019, e a nota da empresa no Glassdoor saiu da faixa de 2,7 a 3,2 para 4,5.

Em 2024, com a empresa na casa dos US$ 10 milhões, Arantes decidiu profissionalizar a gestão e se afastar. Propostas de fusão e aquisição recebidas no período reforçaram a percepção de que a Prime não podia depender do dono. Ele aproveitou o tempo para estudar inglês no Canadá e acompanhar a companhia por meio de comitês mensais.

Qualidade “na ponta do negócio”

A nova estratégia reposiciona o que a Prime entende por qualidade. “Seremos o parceiro número um em qualidade, mas não no sentido de testes automatizados ou de temas tradicionais. Vamos entregar qualidade no próprio negócio do cliente, com o uso de inteligência artificial”, afirma.

Na prática, a empresa deixa de vender casos de teste ou histórias entregues por sprint e passa a se comprometer com os objetivos de negócio dos clientes. A lógica se inverte: em vez de um desenvolvedor acelerado por IA, a IA executa o trabalho e é supervisionada por um especialista humano. Com o volume e a velocidade de código gerado por IA, garantir controle e qualidade sobre esse material se torna o centro da proposta. Segundo o CEO, a abordagem, baseada em uso estruturado e com guardrails, já gera resultados em clientes dos setores de energia, aviação e seguros.

Por trás disso está uma solução multiagente: um agente entende e detalha o contexto, outro constrói os artefatos necessários e um terceiro audita cada etapa, verificando inconsistências e aderência às políticas de comunicação do cliente e à LGPD. Tudo se apoia no conceito de company brain, uma base que centraliza o conhecimento de cada cliente, de forma restrita a ele, e outra que reúne a especialização setorial acumulada pela própria Prime. Em energia, por exemplo, a empresa atende CPFL, Energisa, Enel e Axia, a antiga Eletrobras.

“Antes, quando um profissional especializado em reforma tributária no setor de energia pedia demissão, a preocupação era imediata”, diz Arantes. “Agora, o conhecimento absorvido se transforma em um minicérebro dentro das nossas soluções, e esse know-how é aplicado para acelerar o cliente.”

Entre as frentes do novo portfólio está o Voice AI, que audita URAs e assistentes de voz em ambiente separado, sem interferir na operação do cliente. A solução simula, por exemplo, um idoso com sotaque gaúcho ou um morador de Manaus falando com muito ruído ao fundo, para verificar se o sistema responde como deveria e não “alucina”. Segundo Elaine Povoas, da Prime, a ideia é olhar para o consumidor final de clientes como Vivo, Boticário e Azul, em um modelo business to business to consumer. A empresa também é parceira da OpenAI.

Um novo profissional sênior

A transformação atinge diretamente as carreiras internas. A Prime está redesenhando sua estrutura de cargos e salários para um organograma que, nas palavras do CEO, é “composto por agentes e pessoas”. “Não preciso mais de alguém para escrever código. Preciso de alguém que assegure que o código faz o que deveria fazer e que saiba o que ele precisa entregar ao negócio”, explica.

O foco, garante, não é desligar nem substituir, mas levar o time atual para esse novo modelo. O ponto ainda em aberto, admite, é como formar os próximos seniores. A direção, porém, já está clara: o novo sênior será mais especialista no negócio do cliente, seja seguros, saúde ou aviação, do que em desenvolvimento de software. “Se eu deixar um profissional júnior supervisionando a IA, colocarei a operação em risco.”

Metas

Arantes não abre números absolutos, mas descreve 2026 como um ano de preparação e consolidação, com crescimento nos mesmos níveis dos anos anteriores enquanto a empresa muda seu modelo de trabalho. A ideia é construir um pavimento sólido para 2027, quando a Prime espera crescer entre 30% e 50%. As metas ainda estão em fechamento, mas o piso, segundo ele, já está definido: “O mínimo que buscaremos é 30%.”

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