A Oficina Brasil, ecossistema de conteúdo, capacitação e gestão para o mercado de reparação automotiva independente, anunciou mudanças em sua estrutura de liderança. Rômulo Galvão, que chegou à companhia há cerca de três anos como CTO, assume o cargo de CEO da unidade de negócio Oficina Brasil Comunidades, à frente da operação e da estratégia de crescimento da área.

André Simões segue como CEO da Oficina Brasil, responsável pela estratégia de negócio e pelas unidades Oficina Brasil Comunidades e Oficina Brasil Sistemas de Gestão. Ele também lidera a integração da Ultracar, sistema de gestão para oficinas mecânicas recentemente incorporado pela empresa. Segundo a companhia, a mudança busca fortalecer a governança e impulsionar a expansão dos negócios.

Para Galvão, a nomeação reflete um movimento mais amplo do mercado, em que executivos de tecnologia e produto passam a liderar as empresas. “Consigo conversar com o time sobre banco de dados e arquitetura, mas também dialogo com as alavancas de negócio”, afirmou ao IT Forum.

Do código à estratégia

Natural de São José dos Campos (SP), Galvão fez curso técnico em tecnologia durante o ensino médio e se formou em Computação. Começou a carreira como desenvolvedor e se mudou para São Paulo em 2009. Em uma consultoria de desenvolvimento de sistemas, liderou uma fábrica de software com mais de 100 pessoas, que atendia grandes bancos.

Segundo o executivo, foi nessa fase que passou a questionar o valor do que era desenvolvido. Os projetos eram longos, e o cliente demorava a ver resultados. “Não é tecnologia por tecnologia. É tecnologia para gerar valor, porque resolve um problema real”, disse.

A trajetória seguiu por uma startup de educação e pela 99, logo após a aquisição da operação brasileira pela chinesa Didi. Lá, liderou parte dos sistemas da empresa no Brasil, no Chile, na Colômbia, no México e na Costa Rica, e passou a se especializar em produto. No Magalu, ajudou a liderar a estratégia do superapp e desenhou a jornada de compras de supermercado da plataforma durante a pandemia.

Depois, voltou às startups em estágio inicial. Na ZAC, de gestão de restaurantes, participou de captações que somaram R$ 80 milhões. Em seguida, cofundou a Brand Lovers, hoje rebatizada como Creator Ads, plataforma que conecta indústrias a criadores de conteúdo e que levantou R$ 45 milhões.

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Legado como ativo

Fundada em 1989 como jornal impresso, a Oficina Brasil conecta fabricantes de peças e componentes automotivos aos mecânicos, que decidem quais produtos aplicar nos reparos. Quando Galvão chegou, a empresa já tinha o que, segundo ele, faltava nas startups por onde havia passado: uma comunidade grande e ativa, sem necessidade de altos investimentos em aquisição de usuários.

O mandato era transformar essa base em uma plataforma de tecnologia. Hoje, a companhia tem mais de 200 mil mecânicos em seu banco de dados, de um total estimado de 400 mil no país, e opera em um modelo semelhante ao de um SaaS B2B: a indústria paga para se relacionar com os reparadores, que usam a plataforma gratuitamente.

“A indústria nos enxergava como mídia. Hoje, nos vê como uma ferramenta de tecnologia, com um banco de dados que interessa a ela”, afirmou Galvão.

A transformação não significou abandonar o modelo original. O jornal impresso continua chegando a 55 mil pontos no Brasil. Galvão conta que chegou a defender o fim da publicação por causa do custo, mas uma pesquisa com a base mostrou que 27% dos mecânicos tinham o jornal como primeira fonte de leitura, e que o índice passava de 45% como segunda fonte. “É um produto que não posso simplesmente desligar”, disse.

Para manter a base atualizada, o executivo criou um Health Score, métrica que avalia a qualidade e a atividade dos dados sobre mecânicos e oficinas. Os times de dados e de growth trabalham com metas atreladas a esse indicador. “Preservamos o legado, porque foi ele que nos trouxe até aqui”, afirmou.

Evento como laboratório de tecnologia

Uma das vitrines da estratégia é o Oficina Brasil Conecta, evento anual voltado a mecânicos. A terceira edição, realizada em julho, reuniu mais de 8,5 mil reparadores em três dias e 16 mil metros quadrados. Nas edições anteriores, o público foi de 2,8 mil e 5,5 mil participantes. A meta para 2027 é chegar a 10 mil.

Por trás do evento, há uma operação de dados em tempo real. Um aplicativo acompanha o percurso dos mecânicos pelas atrações dos patrocinadores, distribui pontos e alimenta um ranking com premiações no palco. Uma equipe monitora a distribuição do público pela planta e, quando uma atração fica vazia, aciona notificações push, mensagens de WhatsApp e avisos de uma assistente virtual para redirecionar os participantes.

“Queremos que o mecânico saia do evento fazendo algo diferente na segunda-feira, na oficina”, disse Galvão. Segundo ele, a estratégia rendeu o ouro no Prêmio Caio, na categoria de eventos futurísticos, e a satisfação dos participantes chega a 4,9 em uma escala de 5.

A plataforma também usa inteligência artificial (IA) para identificar, a partir do que os mecânicos consomem, tendências que as marcas podem explorar na produção de conteúdo. Uma equipe de curadoria barra publicações com caráter excessivamente publicitário.

Próximos passos

Com cerca de 140 colaboradores, mais de 50 deles nas áreas de produto, tecnologia e dados, a Oficina Brasil opera sem capital externo. A empresa prepara a mudança de seu escritório na Alameda Santos para a Avenida Paulista, em São Paulo, por causa do crescimento da equipe.

A prioridade, segundo Galvão, é consolidar e integrar os produtos reunidos nos últimos anos, que incluem conteúdo, treinamentos, comunidades, manuais técnicos e, agora, o sistema de gestão da Ultracar. A empresa monitora cerca de 1 milhão de ordens de serviço, com dados sobre serviços realizados, peças e marcas compradas pelos mecânicos. Essas informações dão origem a produtos de dados para as estratégias de marketing da indústria.

“A ideia é identificar o que mais o mercado oferece e que a Oficina Brasil também poderia oferecer, para nos tornarmos um one-stop shop para o reparador”, afirmou.

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