Nos corredores do escritório da Databricks em San Francisco, nos Estados Unidos, caixas estão pelo caminho. Fechadas, empilhadas e etiquetadas, elas marcam, nesta semana, os preparativos para a mudança da sede global da companhia. A empresa deixa o endereço na Spear Street para ocupar nove andares do One Sansome, no distrito financeiro da cidade. São cerca de 14 mil metros quadrados, aproximadamente o dobro da área atual. Anunciado em março de 2025, o novo espaço dá dimensão física a uma ambição: mais do que dobrar o número de funcionários na cidade em dois anos.
As caixas nos corredores ajudam a contar uma história que vai além da mudança de endereço. Avaliada em US$ 190 bilhões, a Databricks expande seus negócios, e o Brasil ocupa um lugar relevante nesse movimento. “Nos últimos dois anos, triplicamos os negócios no Brasil”, afirma Ricardo Buffon, country manager da Databricks no País, em entrevista ao IT Forum. O crescimento, esclarece o executivo, refere-se à receita. A companhia não divulga o número de clientes brasileiros, apenas o total global.
Buffon estava em San Francisco para acompanhar uma delegação de clientes brasileiros do varejo, pouco mais de 20 empresas e cerca de 40 executivos, que foram à cidade conhecer a plataforma de perto e ouvir um dos fundadores da companhia. “Temos impactado muito o varejo no geral”, diz.
A Databricks mantém diretorias dedicadas a varejo, serviços financeiros, setor público, nativas digitais, saúde e educação, e já tem vendedores focados em utilities, mesmo sem uma diretoria própria para o segmento. Segundo Buffon, o crescimento está pulverizado entre as indústrias. “Em alguns clientes impactamos a cadeia logística, em outros como ele vende, em outros como ele detecta fraude. E tem clientes em que fazemos tudo isso em conjunto.”
Entre os casos públicos, ele destaca dois perfis. Um é financeiro: a Cielo, que migrou parte relevante de seus pipelines de dados para a plataforma e obteve economia expressiva na ingestão. O outro é, nas palavras dele, humano: no Hospital Israelita Albert Einstein, médicos passaram a consultar resultados de exames em linguagem natural. O que antes levava dias para ser consolidado agora sai de uma pergunta e o tempo poupado volta para o atendimento ao paciente.
O termômetro do crescimento também aparece nos eventos. O Data + AI World Tour de São Paulo, realizado em setembro, reuniu 4 mil pessoas, ante 2,8 mil na edição anterior, quando Buffon tinha acabado de chegar à empresa, em agosto de 2025, vindo do Google Cloud e de duas décadas de Oracle. À tarde, um fórum executivo de quatro horas reuniu cerca de 200 clientes, entre CIOs, CFOs e presidentes, para discutir estratégia e impacto no negócio.
Para o executivo, a presença do cofundador Arsalan Tavakoli, que fez a apresentação principal, diz mais do que qualquer ranking interno. “O fundador de uma empresa que já não é pequena, de 190 bilhões de valuation, fica uma semana no país conversando com clientes, com parceiros, fazendo abertura de eventos. Isso demonstra a importância que o País tem para a empresa”, afirma. Na leitura dele, o Brasil se destaca na região pela maturidade em dados e no uso de inteligência artificial (IA), além do porte das empresas e do tamanho do mercado.
Foi no evento que a companhia anunciou o investimento de R$ 1,5 bilhão (US$ 300 milhões) no Brasil nos próximos três anos. Segundo Buffon, o dinheiro vai principalmente para ampliar o time local e fortalecer o ecossistema de parceiros, que já soma mais de 300 empresas. “Queremos levar a tecnologia para próximo de onde os nossos clientes estão”, resume.
A ênfase em parceiros tem razão prática: o portfólio cresceu rápido. Se há pouco tempo a conversa girava em torno do lakehouse, hoje a lista inclui o Lakebase, banco de dados PostgreSQL que opera conectado ao lakehouse e ao mesmo catálogo de dados; o Genie, agente conversacional que responde em linguagem natural com base no contexto da empresa; o AI/BI, camada de BI com a qual o usuário conversa; o Agent Bricks, para criar e governar agentes; e o Unity Gateway, que serve e governa modelos. “Com a quantidade de soluções que podemos entregar, é preciso investir no ecossistema de parceiros para eles se capacitarem e atrair outros que já são especializados nesse tipo de solução”, explica.
Contexto, controle, escolha e custo
Em um momento em que fornecedores disputam a narrativa dos agentes autônomos, Buffon organiza a proposta da Databricks em quatro pilares. O primeiro é contexto, “totalmente conectado ao dado”. O segundo é controle, ou governançam não só dos agentes, mas de toda a cadeia moderna de dados e aplicações. O terceiro é escolha, de nuvem e, sobretudo, de tecnologia e de modelos. O quarto é custo.
Na prática, diz, o Agent Bricks se conecta ao catálogo de dados, e o agente criado ali “herda todo o contexto do dado” já gerenciado na plataforma. Na camada de modelos, a aposta é na liberdade de escolha. O Unity Gateway serve tanto os modelos de fronteira, pagos, quanto os de padrão aberto. “O cliente pode definir, ou a gente pode ajudar ele a escolher qual é o modelo mais produtivo para aquele tipo de serviço”, afirma. A mesma lógica vale para a nuvem. A parceria com a Microsoft “foi onde tudo começou”, mas hoje a empresa opera também com AWS e Google Cloud.
O executivo não acredita que falte visão aos CIOs brasileiros nesse campo. “Eles estão caminhando nessa direção. Temos visto a maturidade do mercado em relação a essa necessidade”, sentencia.
Mas há um descompasso conhecido. O estudo Antes da TI, a Estratégia 2026, do IT Forum, mostra CIOs otimistas quanto à organização e à prontidão de seus dados, mas com dificuldade de extrair valor deles. Buffon não relativiza. “Ter o dado organizado é fundamental para extrair valor. Quanto mais espalhado estiver o teu dado, menor vai ser aquilo que você vai extrair dele.”
Ele reconhece que ferramentas como o Genie ampliam o alcance, uma camada de ontologia permite conectar fontes como o Google Drive, e-mails ou propostas comerciais e trazer esse contexto para as respostas, para além do que está no lakehouse.
Ainda assim, o desafio de fundo continua sendo romper silos. “Todo mundo tem muita informação, mas esse dado está em um silo”, diz. O exemplo é clássico: cruzar ERP, vendas e logística numa camada única para perceber que um problema na operação logística vai virar um problema de recebimento mais adiante.
Fator pessoas
Na frente de pessoas, a companhia se comprometeu a capacitar mais de 150 mil brasileiros em dados e IA em três anos e meio. Buffon ainda não divulga números de progresso, mas diz que trata a meta como “um plano pessoal”, tocado por diferentes canais. “Tem demanda do mercado, tem potencial de crescimento e uma quantidade enorme de pessoas no Brasil que poderiam estar trabalhando com tecnologia. A ideia é juntar tudo isso.”
Do lado de dentro, ele afirma não enfrentar gargalo para contratar. A empresa tem atraído profissionais e prioriza preencher vagas internamente antes de olhar para fora.
Perguntado sobre o maior aprendizado em pouco mais de um ano na companhia, Buffon não fala de tecnologia. “Foi escutar os clientes. As soluções da Databricks dão possibilidades de criação infinitas. Ter uma escuta ativa e generosa, e fazer o time praticar isso, é de onde entendemos os desafios dos clientes e consegue reagir com as nossas soluções”, encerra ele.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

