A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve provocar uma reação negativa dos mercados brasileiros no curto prazo, segundo avaliação de analistas e pesquisas com investidores. A expectativa é de pressão sobre o Ibovespa, alta do dólar e avanço dos juros futuros, em um movimento de reprecificação dos riscos fiscais e das perspectivas para as contas públicas.
Durante a noite, logo após a confirmação da reeleição de Lula, o EWZ, principal ETF brasileiro negociado nos Estados Unidos e que replica o índice MSCI Brazil, operava com forte queda de quase 20% no aftermarket.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o mercado vinha incorporando nos preços a possibilidade de uma mudança na condução da política fiscal, com maior controle dos gastos públicos. Com a vitória de Lula, investidores devem rever essas expectativas, especialmente diante de um cenário em que o presidente não conta com maioria própria no Congresso.
“A expectativa é de uma semana de maior cautela, com o Ibovespa pressionado, dólar em alta e juros futuros subindo”, afirma. Segundo o especialista, o principal receio dos agentes financeiros é a continuidade do crescimento da dívida pública sem medidas consideradas suficientes para sua estabilização.
Na Bolsa, a atenção tende a se concentrar especialmente em empresas com participação estatal, como Banco do Brasil (BBAS3) e Petrobras (PETR3; PETR4), enquanto setores mais dependentes da atividade doméstica e do crédito podem enfrentar maior pressão. Varejistas, construtoras e companhias mais alavancadas são apontadas entre as mais vulneráveis em um cenário de juros elevados. Por outro lado, exportadoras podem encontrar alguma proteção na valorização do dólar frente ao real.
Leia mais:
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, vê uma reação ainda mais intensa dos mercados. Segundo ele, a Bolsa pode abrir a semana sob forte pressão vendedora, com possibilidade de queda superior a 5% do Ibovespa e até risco de acionamento do circuit breaker caso o movimento ganhe força.
Na avaliação do especialista, a alta do dólar e a abertura da curva de juros refletiriam a percepção de continuidade de políticas expansionistas sem um plano considerado crível para estabilizar a dívida pública. Os segmentos mais afetados seriam varejo, construção civil, bancos voltados ao crédito ao consumidor, companhias de consumo discricionário e empresas ligadas ao mercado de capitais, como corretoras e a B3 (B3SA3).
Já empresas exportadoras e companhias com receitas em dólar, especialmente dos setores de mineração e agronegócio, tenderiam a ter desempenho relativo melhor, beneficiadas pela desvalorização cambial.
“Acredito em queda forte na bolsa amanhã e em um pregão muito volátil. Veremos a bolsa sangrar como há muito tempo não se via. O motivo é a assimetria: o mercado passou o mês de outubro comprando a tese de alternância de poder. O Ibovespa subiu 7,7% no primeiro pregão após o 1º turno e chegou a bater 209,6 mil pontos, com o dólar caindo a R$ 5,00. Uma reeleição de Lula obriga o mercado a desfazer boa parte desse movimento. Antes do 1º turno, o Ibovespa estava perto de 192 mil pontos e o dólar em R$ 5,22”, diz Gabriel Pinheiro, especialista em investimentos e sócio da GT Capital.
Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, aponta que o resultado da eleição representa uma mudança importante na percepção de risco do mercado brasileiro. “Das 13 pesquisas consideradas na nossa análise, todas apontavam Flávio Bolsonaro à frente, com vantagem média de 2,4 pontos percentuais. Em uma simulação estatística, considerando erros correlacionados entre os institutos e uma vitória hipotética de Lula por 50,5%, a probabilidade de todas apontarem a direção contrária era de 3,74%. Esse número depende das premissas do modelo e não representa a probabilidade real de vitória”, avalia.
O segundo elemento é institucional, já que a decisão extraordinária do STF de prorrogar a votação até as 19h, quando diversas urnas já haviam sido encerradas, acrescenta uma camada de incerteza. “Embora posteriormente tenha sido esclarecido que as urnas fechadas não seriam reabertas, uma alteração tão relevante durante o próprio processo eleitoral levanta questionamentos sobre previsibilidade das regras, segurança jurídica e possíveis contestações”, aponta Mendes.
Pesquisa do Citi mostra temor com reação dos ativos
O cenário traçado pelos analistas encontra respaldo em levantamento realizado pelo Citi com investidores na última sexta. Segundo a pesquisa, 79,5% dos entrevistados esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula.
No mercado cambial, 63% projetavam desvalorização do real acima de 5%, enquanto outros 27,8% estimavam uma queda entre 2% e 5% da moeda brasileira. Já no mercado de juros, 67,1% dos participantes esperavam uma abertura superior a 100 pontos-base na taxa do DI janeiro de 2029, com outros 14,3% prevendo alta entre 50 e 100 pontos-base.
Na avaliação dos estrategistas do banco, as respostas evidenciavam uma forte assimetria nas expectativas dos investidores. Enquanto os cenários positivos para os ativos brasileiros tendem a envolver movimentos mais moderados, as reações negativas associadas a uma vitória de Lula aparecem concentradas em projeções significativamente mais severas.
Saiba mais:
O Citi ressaltou que a trajetória fiscal continua sendo o principal fator de precificação dos ativos domésticos. Assim, as primeiras sinalizações do governo sobre a equipe econômica, a estratégia para controle das contas públicas e a capacidade de articulação política com o Congresso devem ser determinantes para definir se a reação inicial dos mercados será passageira ou dará lugar a uma deterioração mais duradoura do humor dos investidores.
Nesse contexto, analistas avaliaram que qualquer indicação de compromisso com o equilíbrio fiscal e a contenção do crescimento da dívida poderá ajudar a reduzir a aversão ao risco. Na ausência desses sinais, a tendência é de manutenção da volatilidade nos mercados brasileiros nas próximas semanas.
Cabe destacar que, na noite de domingo, o Bradesco BBI rebaixou taticamente a recomendação para Brasil de overweight para neutra, argumentando que o forte rali eleitoral observado em outubro deixou menos espaço para ganhos adicionais. Segundo o banco, o MSCI Brazil acumulou alta de aproximadamente 13% em dólares no mês, superando amplamente outros mercados globais. Com isso, o desconto histórico das ações brasileiras diminuiu significativamente. O índice negocia atualmente a 9,3 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, apenas 7% abaixo da média histórica, contra um desconto de cerca de 20% observado em junho.
Na avaliação do BBI, a continuidade da valorização dos ativos dependerá menos da expansão dos múltiplos e mais da capacidade do governo eleito de entregar crescimento, disciplina fiscal e resultados econômicos concretos. O banco também destaca que o teste fiscal continuará sendo um dos principais temas para os investidores, diante da projeção de aumento da dívida bruta do país de 83,6% para 88,2% do PIB nos próximos anos.
Como reflexo desse cenário, os estrategistas promoveram uma mudança defensiva em sua carteira, reduzindo exposição a empresas ligadas à queda dos juros e ao fluxo doméstico, como Banco do Brasil (BBAS3), Petrobras (PETR4), B3 (B3SA3), Cogna (COGN3) e Cyrela (CYRE3). Em contrapartida, passaram a privilegiar exportadoras e companhias de receitas mais previsíveis, incluindo Embraer (EMBJ3), Suzano (SUZB3), WEG (WEGE3), JBS (JBSS3), Sabesp (SBSP3) e BB Seguridade (BBSE3).
Leia mais:
A avaliação reforça uma das leituras predominantes para a abertura desta segunda-feira: em um ambiente de maior incerteza fiscal e volatilidade, empresas exportadoras e negócios menos dependentes do ciclo doméstico tendem a oferecer maior proteção aos investidores, enquanto os setores mais sensíveis aos juros devem permanecer sob pressão.
Apesar do pessimismo predominante no curto prazo, algumas casas ressaltam que a reação inicial dos mercados não necessariamente determinará o desempenho dos ativos brasileiros ao longo do mandato. O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, lembra que, após as eleições de 2022, a Bolsa conseguiu recuperar terreno à medida que o governo apresentou medidas fiscais e reduziu parte das incertezas do mercado. Para o especialista, o comportamento dos ativos em 2027 dependerá principalmente da condução da política econômica, da capacidade de negociação com o Congresso e das sinalizações sobre responsabilidade fiscal nos primeiros meses do novo mandato.
Já o Bradesco BBI afirma que voltaria a recomendar uma posição acima da média para Brasil em caso de correção mais significativa dos preços das ações, apresentação de um pacote fiscal considerado crível pelo mercado ou início de um ciclo mais forte de flexibilização monetária.
The post Como os mercados vão abrir nesta segunda após a reeleição de Lula? appeared first on InfoMoney.

