Robô humanoide e humano apertam as mãos | Crédito: Grok

*Por Derek Bittar, Co-fundador e general partner da Indicator Capital

A inteligência artificial física (Physical AI) virou um dos assuntos mais quentes de 2026. A Waymo, de carros autônomos, captou US$ 16 bilhões; a Saronic, que desenvolve embarcações autônomas, levantou US$ 1,75 bilhão. Segundo a Crunchbase, o segmento atraiu US$ 47,4 bilhões em mais de 500 rodadas de investimentos só no primeiro semestre, quase quatro vezes mais que nos seis meses anteriores. Nossa projeção é de mais de um bilhão de humanoides em uso até 2050. À medida que ganharem espaço no cotidiano, serão o outdoor de uma transformação que vai muito além deles. Bem-vindos à era da Physical AI.

Os Estados Unidos e a China disputam a liderança na fabricação de humanoides de uso geral. Os americanos entram com capital abundante e apostam em plataformas proprietárias; os chineses, com política de Estado e uma aposta maior em código aberto. O Brasil não vai disputar essa corrida, mas pode se tornar protagonista na etapa seguinte.

Essa oportunidade ficou mais clara para mim em setembro, quando reunimos fabricantes, integradores, fundadores e investidores no Physical AI Summit, em São Paulo, para discutir o “Ano 1 da Robótica Humanoide”. Como anfitrião, encerrei o dia com uma convicção: o Brasil tem uma chance de ouro. Nossa vocação tecnológica pode nos levar a ser referência mundial na aplicação dessas tecnologias. Precisamos investir nas startups que vão construir essa liderança.

Por que não vamos fabricar o humanoide

Um quadrúpede de alta qualidade chega ao cliente brasileiro por cerca de R$ 150 mil após impostos. Um humanoide de porte industrial passa de R$ 500 mil. Esses números vêm de quem importa e já integra esses robôs no país, junto com um alerta: a classificação fiscal pode ser questionada mesmo depois da importação, trazendo custos adicionais. A conta pode chegar depois do robô.

O problema vai além do custo de importação. Um humanoide depende de atuadores de altíssima precisão, motores de ímã permanente, sensores e mãos com dezenas de graus de liberdade. Essa cadeia está se formando na China, nos Estados Unidos e, em nichos de precisão, na Suíça. O Brasil não tem escala industrial para competir de igual para igual na fabricação de humanoides de uso geral.

Insistir nessa disputa seria repetir um erro crasso: gastar capital limitado para tentar alcançar líderes que já estão anos-luz à nossa frente, correndo mais rápido e com recursos quase ilimitados. Nosso trunfo está na integração e no desenvolvimento de tecnologia especializada para levar robôs da cidade ao campo, da logística às fábricas e à saúde.

Dançar é fácil. Trabalhar é difícil.

Quem nunca viu aquele vídeo de humanoide ameaçando o próprio chefe? Essas cenas rendem cliques, mas não comprovam autonomia. A autonomia dos humanoides para tarefas imprevistas ainda é limitada: muitas demonstrações usam movimentos coreografados ou dependem de teleoperação. Bem treinados, impressionam, e os vídeos de humanoides lutando kung fu bombam nas redes.

Dominic Gorecky, que está à frente da Swiss Smart Factory em Biel, na Suíça, resumiu no palco do Physical AI Summit o que importa para a indústria: “Não preciso de robôs dançando. Preciso de robôs trabalhando.” Tirar itens de uma caixa e colocá-los em outra parece trivial. Fazer isso com objetos variados, repetidamente, ainda desafia a robótica industrial.

Reginaldo Ribeiro, da Cogtive, resumiu o verdadeiro desafio da indústria: “Na logística, o desafio é a última milha. Na robótica humanoide, é o último milímetro.” Já existem mãos robóticas capazes de colocar um grafite dentro de uma lapiseira. O problema é a confiabilidade: um movimento impreciso pode danificar um equipamento caro.

É aí que muitos projetos emperram. Em hardware, cada ciclo de teste custa tempo e dinheiro de verdade. Para o Brasil, a oportunidade está em desenvolver robôs e componentes especializados, integrar, treinar e colocar essas máquinas para operar.

A transformação de verdade será muito mais profunda, na sociedade e na produtividade. O valor estará em quem consegue colocar robôs para trabalhar durante turnos inteiros no chão de fábrica: integração, software de aplicação, dados de operação real, manutenção.

Onde o Brasil pode liderar?

O Brasil tem escala continental e setores de referência mundial que podem servir de plataforma para essa liderança. A oportunidade está em preencher a lacuna tecnológica onde a falta de mão de obra, de infraestrutura ou de segurança faz da automação uma necessidade, não um luxo.

Agronegócio. O Brasil é o maior exportador mundial de soja em grão, café, açúcar, suco de laranja, carne bovina e frango. Em fazendas extensas e remotas, encontrar mão de obra já é um desafio. Máquinas autônomas, drones de pulverização e sensores de solo e rebanho encontram aqui uma escala de aplicação que poucos países oferecem.

Indústria e logística. A indústria brasileira carrega um atraso de modernização que governo e setor privado já começaram a atacar com investimentos bilionários em digitalização e inovação. Com o custo Brasil, a logística inteligente deixou de ser diferencial e virou necessidade.

Cidades inteligentes. Cerca de 87% dos brasileiros vivem em regiões urbanas, muitas delas com infraestrutura envelhecida. O índice de perdas na distribuição de água chega a quase 40%. Ao ampliar essa infraestrutura, municípios podem pular etapas e adotar sistemas conectados.

Saúde. O SUS atende mais de 200 milhões de pessoas, numa população que envelhece. Levar cuidado ao interior em escala exige diagnóstico conectado, monitoramento remoto e automação hospitalar.

Recursos naturais. O Brasil tem operações de grande escala em mineração, petróleo e energias renováveis. Seja na mina, na exploração de petróleo em alto-mar ou em parques eólicos, a automação também é segurança: reduz a presença de pessoas em áreas de risco.

Em nenhum desses setores o Brasil precisa fabricar o humanoide de uso geral. Mas nem todo robô tem duas pernas. O país precisa, sim, de quem desenvolva aqui o hardware especializado, os sensores, o software e a integração que fazem a automação funcionar nas condições locais. É na operação que surgem dados e conhecimento para melhorar o produto e levá-lo a outros mercados.

Já conhecemos bem esse filme. A CTA Smart, investida da Indicator, nasceu em 2012 desenvolvendo hardware e software no Brasil para automatizar algo pouco glamouroso: o controle de abastecimento de frotas. Começou com empresas de ônibus pequenas e médias, cresceu para mineração, agro e logística e hoje atende cerca de 5 mil clientes. Está perto de cruzar R$ 100 milhões em receita recorrente anual, e 20% dela já vem dos Estados Unidos.

A lição não é o setor, é o método: focar em uma dor específica, construir a solução completa, do equipamento ao software, levar a solução a outros setores e aprender em campo com o cliente. Tecnologia feita para a realidade brasileira pode virar produto de exportação, com potencial de liderança mundial.

O capital ainda está a caminho

Os robôs já chegaram ao Brasil. Estavam no palco do Physical AI Summit; robôs especializados já fazem inspeções em mineração e celulose e começam a ser integrados por empresas brasileiras. O capital ainda está a caminho.

Ele vai chegar onde a conta fechar. Na Suíça, Gorecky citou um exemplo em que construir um robô custa cerca de US$ 90 mil, enquanto o custo anual de um operador, incluindo encargos, chega a US$ 130 mil. São valores indicativos, não uma conta completa de retorno. No Brasil, o cálculo também depende de integração, manutenção e produtividade. A redução prevista da jornada de trabalho também pode alterar os cálculos, conforme as novas regras entrem em vigor e de acordo com cada operação. Com a população envelhecendo e a mão de obra mais escassa em algumas funções, o argumento econômico para a automação tende a se fortalecer.

A pergunta é para onde esse capital vai. Se perseguir o próximo fabricante de humanoides de uso geral, o Brasil chega atrasado e caro. Se for para a aplicação, com robôs especializados, integração, visão computacional e dados de operação real, o país pode liderar a etapa que gera mais valor.

O Brasil possui uma vantagem ainda pouco explorada. Construímos, ao longo de décadas, uma rede de fomento público que pode fazer diferença nessa corrida. A Lei de Informática cria obrigações de investimento em pesquisa e desenvolvimento para empresas enquadradas em suas regras. É fundamental aproximar esses instrumentos de startups e fundos especializados em tecnologia. Só na Zona Franca de Manaus, as obrigações de investimento em PD&I chegaram a R$ 1,58 bilhão em 2024, segundo dados preliminares da Suframa, num polo com décadas de experiência em eletrônica.

Na robótica, fomento e capital privado cumprem papéis complementares. O primeiro ajuda a bancar pesquisa, protótipos e testes, quando o risco técnico ainda é alto. O venture capital assume o risco de transformar a tecnologia em negócio, com produto, clientes e escala. Capital corporativo pode abrir acesso a problemas industriais e ambientes de validação; bancos entram quando há operações e instrumentos compatíveis. Nenhuma fonte resolve tudo sozinha. A grande vantagem não está apenas em somar cheques, mas em fazer esses agentes trabalharem juntos, do laboratório à fábrica. Essa combinação pode ser uma das armas mais poderosas do Brasil nessa corrida.

O Brasil dificilmente vai vencer a corrida para fabricar humanoides de uso geral. Mas podemos disputar o ouro na corrida para colocá-los para trabalhar.

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