Consórcio | Crédito: Canva

*Por Sergio Hirase, CTO do Mycon 

Existe uma pergunta que nenhum vendedor de consórcio gosta de responder: quanto tempo vai demorar para eu ser contemplado? A resposta honesta é: depende. Depende do sorteio, do lance, do comportamento do grupo, das condições do mercado.

Essa incerteza, somada a contratos longos, regras complexas e um vocabulário próprio que poucos dominam, cria uma necessidade de relacionamento entre cliente e vendedor, que traduz os termos técnicos e a complexidade do consórcio para uma linguagem mais fácil de entender.

Isso já mudou. E a mudança vem de uma transformação mais profunda: o uso da inteligência artificial para redesenhar a forma como o consórcio é explicado, operado e vivenciado pelo cliente. A IA não veio apenas para digitalizar esse modelo, mas para reengenheirá-lo.

Por muito tempo, a resposta do setor à pressão por modernização foi digitalizar o que já existia. Formulários em papel viraram PDFs. Ligações viraram e-mails. O processo continuava o mesmo, só mudava o canal.

A virada começou com a convergência de três forças: o custo do crédito tradicional disparando em um ciclo de juros elevados, a maturidade das plataformas digitais tornando viável automatizar jornadas antes impensáveis e a chegada de players nativos digitais.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), somente em 2025, o setor movimentou mais de R$ 500 bilhões em crédito comercializado no Brasil, volume que não seria gerenciável sem tecnologia. O consórcio tradicional tem pontos de atrito críticos, todos com alto custo humano e operacional. E é exatamente aí que a inteligência artificial fez diferença.

Como a IA está transformando a venda e a análise de riscos?

No ciclo de venda, distribuído majoritariamente por vendedores externos comissionados, o produto chega ao cliente carregado de promessas mal calibradas. Como resultado, temos altos números de desistências e inadimplência.

A IA substituiu esse intermediário por um assistente consultivo que não vende pelo volume, mas qualifica pela adequação. Dados do Mycon mostram que a tecnologia permite detectar padrões de comportamento que antecipam o risco de inadimplência com até 20% mais precisão do que os modelos tradicionais, possibilitando uma atuação preventiva antes que o problema se materialize.

Como a IA acelera a liberação do crédito?

Já na análise pós-contemplação, momento em que o cliente mais espera, a liberação do crédito pode ser frustrante: documentos manuais, cartórios e validações jurídicas. No Mycon, uma etapa que chegava a durar semanas, com automação, passou a ser concluída em 10 minutos. O atendimento que demorava 30 minutos caiu para dois, permitindo atender o dobro de clientes.

Como a IA contribui para o combate às fraudes em consórcios?

Outro ponto relevante do uso da IA é o combate às fraudes. No consórcio, os vetores mais críticos são a fraude de identidade nos cadastros, com documentos falsos ou de terceiros, as fraudes relacionadas a lances e o desvio do crédito pós-contemplação.

A IA atua em múltiplas camadas de validação biométrica com prova de vida, cruzamento automático de dados cadastrais com bases regulatórias, análise de comportamento navegacional e identificação de padrões suspeitos em tempo real.

Vale destacar uma característica estrutural do consórcio que o diferencia do crédito tradicional: o cliente nunca recebe o dinheiro diretamente. O crédito é liberado para a aquisição do bem, passando por assembleias, sorteios e lances. Isso cria uma camada natural de proteção que, combinada com a inteligência artificial no fluxo, torna o ambiente significativamente mais seguro para ambos os lados.

A administradora confia no compromisso do consorciado, e o consorciado confia que seu dinheiro está sendo administrado com responsabilidade.

Quais são as tendências para o mercado de consórcios nos próximos anos?

O horizonte dos próximos três a cinco anos aponta para uma transformação ainda mais profunda. A hiperpersonalização será um dos pilares centrais. O consorciado não receberá mais um produto de prateleira, mas um plano financeiro dinâmico, ajustado à sua capacidade de pagamento, ao comportamento do grupo em que está inserido e às condições macroeconômicas do momento.

A integração com o ecossistema financeiro ampliado, com Open Finance, FGTS digital, carteiras digitais e seguros embarcados, transforma o consórcio em um componente de uma jornada financeira mais ampla. A contemplação deixará de ser o ponto final e passará a ser um gatilho para novos produtos e serviços personalizados.

Para quem construiu com DNA digital desde o início, a vantagem é de dados e inteligência. Cada interação, cada comportamento de lance e cada padrão de inadimplência alimentam modelos que ficam progressivamente mais precisos. Em contratos longos como os do consórcio, com 80, 180 ou 220 meses, essa vantagem é o diferencial competitivo mais difícil de replicar.

Mas fica o alerta: simples não é fácil! Transformar um produto complexo em algo simples é, paradoxalmente, uma das tarefas mais difíceis da engenharia de produto. Requer remover camadas sem perder segurança, explicar sem simplificar demais e personalizar sem violar a confiança.

A inteligência artificial, quando aplicada com propósito real, é a ferramenta que torna isso possível em escala. Não apenas porque automatiza processos, mas porque aprende, antecipa e adapta, entregando transparência. O consórcio que o cliente merecia sempre existiu como conceito. A tecnologia, finalmente, está entregando a versão real.

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