Cinco meses depois do anúncio da compra pela Serasa Experian — e três meses após a conclusão do negócio, em 1º de julho —, a idwall começou a trabalhar no que foi, desde o início, o principal argumento para vender a empresa em vez de levantar uma nova rodada: levar a tecnologia desenvolvida no Brasil para fora do país. A expectativa é que o processo de internacionalização comece no ano que vem. “Já tivemos conversas com algumas regiões que podem utilizar a gente”, disse Lincoln Ando, cofundador e CEO da idwall, em entrevista ao Startups.
Lincoln não especificou quais mercados estão na mira nem cravou um prazo. Mas deixou claro de onde vem a lógica: “Uma vez que a gente tem a plataforma, internacionalizar é muito fácil, porque você consegue plugar nossas soluções lá e fazer com que os próprios clientes consigam consumí-las”, defendeu. Outro ponto que ajuda nesse processo é a experiência combatendo fraudes no Brasil.
Isso tanto é verdade que nomes como Certta – antiga Caf, ou Combate à Fraude – e unico já mantém operações internacionais há alguns anos.
A camada que ninguém tem inteira
Na avaliação de Lincoln, o mercado está fragmentado por perguntas. E cada fornecedor responde apenas uma delas. Ele descreve três camadas de confiança.
A primeira: essa pessoa é quem diz ser — biometria, liveness, device, validação documental. A segunda: posso fazer negócio com ela — background check, KYC, prevenção à lavagem de dinheiro. A terceira: quanto posso confiar nela — score de crédito, dívidas. “Ou você é um birô de crédito, ou você é uma empresa de reconhecimento facial, ou você é uma empresa de background check“, disse. “Quando a gente soma isso, se torna muito poderoso”, avaliou.
Além da vantagem competitiva da venda de um pacote de soluções, essa tese se mostra ainda mais relevante diante do avanço da IA generativa e da criação de imagens e vídeos falsos. “Se você confia só na biometria, você vai se frustrar porque tem a deepfake. Se você confia só no device, tem forma de burlar. Se confiar só no documento, é a mesma coisa. Agora, se você concilia tudo isso com o histórico, com o comportamento, com todos esses data points, é muito difícil ou impossível burlar”, acrescentou.
Com mais de 700 milhões de consultas, 80 milhões de faces e 45 milhões de documentos analisados, a plataforma se une a mais de 450 milhões de identidades validadas por ano e mais de 350 milhões de background checks da Serasa. Na validação documental, os 45 milhões de documentos da idwall se juntam a 130 milhões da datatech. “Naturalmente o mercado pode se movimentar. Mas é difícil conseguir estar no nosso patamar”, pontuou Lincoln.
Quatro antifraudes em cinco anos
Essa posição foi construída, em grande parte, por meio de aquisições. Desde 2020, foram 17 operações feitas pela Serasa Experian, somando perto de R$ 2,5 bilhões investidos. No recorte de antifraude e identidade, foram quatro operações: BRScan em 2021, AllowMe em 2023, ClearSale em 2024 e agora, a idwall.
O contexto de mercado é claro: com mais transações feitas no ambiente digital, é preciso garantir a segurança de vendedores e compradores. E por isso mesmo, a máquina de M&A não deve parar.
Segundo Lincoln, a própria idwall, que nunca fez nenhum movimento inorgânico, já avalia possíveis movimentos agora que tem uma estrutura corporativa robusta por trás. “O foco no momento é a nossa integração. Mas tem uma oportunidade para crescermos mais rápido”, disse.
A série D que virou M&A
A sequência de eventos que levou ao negócio com a Serasa ajuda a entender por que a internacionalização aparece como prioridade tão cedo.
A idwall vinha de uma série C de R$ 210 milhões captada em 2021, liderado pelo family office Endurance, e começou a conversar com investidores para uma nova rodada. Segundo Lincoln, o Itaú BBA ajudava no processo, e a dinâmica era diferente das anteriores. “Série D é mais investidor financeiro, que olha o número ali muito na tabela”, contou. O momento era favorável para esse tipo de conversa. “A gente já tá namorando com a lucratividade. Inclusive o começo desse ano todo foi lucrativo”, afirmou.
A tese apresentada aos investidores tinha dois pilares: consolidar a plataforma de orquestração com camadas de inteligência e internacionalizar. Foi aí que o banco sugeriu uma conversa com a Serasa Experian, que já era parceira da idwall no marketplace da plataforma.
Ando passou a negociar com Eric Dhaese, vice-presidente de soluções de autenticação e prevenção à fraude da Serasa Experian. “A gente percebeu que um M&A nesse momento não seria uma disrupção do que a gente estava perseguindo e sim uma aceleração”, disse.
Na prática, a empresa trocou o capital de um fundo pela estrutura de distribuição de uma multinacional. A Experian está listada na Bolsa de Londres, opera em 33 países e tem cerca de 25,2 mil funcionários. Para uma empresa que levantou R$ 260 milhões em dez anos de existência, é um atalho significativo.
Sobre vender a companhia que fundou, Lincoln é pragmático. “A gente nunca foi movido necessariamente por um ego de eu preciso fazer tudo sozinho. Se fosse isso, eu nem tinha captado, porque quando você capta, você traz board, você traz pessoas que vão tomar decisões junto com você”, afirmou.
O que a Serasa comprou
O negócio foi anunciado em 8 de maio por cerca de R$ 450 milhões, em dinheiro, num múltiplo próximo de cinco vezes a receita da idwall. O Cade aprovou a operação em 22 de maio, e o fechamento saiu em 1º de julho.
Fundada em 2016 por Ando e Raphael Melo, ambos formados em computação na Unicamp, a idwall começou com uma ferramenta de background check que consultava mais de 100 fontes de dados e tomava decisões automatizadas de aprovação. A conclusão de que isso não era suficiente levou a empresa às camadas seguintes: validação de documento e biometria facial.
“O que sempre foi o core da idwall é desenvolvimento de soluções de tecnologia, uma deep tech“, disse Lincoln. “A gente mexia com AI before it was cool. Antes da gente falar de LLM, a gente falava muito de CNNs [ou redes convolucionais neurais, modelos usados para reconhecimento de padrões em imagens e vídeos que a companhia usa desde 2017]”, pontuou.
A virada de produto veio há cerca de três anos, com o desenvolvimento de uma plataforma drag and drop em que o cliente monta e altera fluxos de verificação sem precisar de um desenvolvedor. Depois, a plataforma virou marketplace, com soluções de terceiros plugadas. Inclusive as da Serasa.
A idwall e a Serasa não abrem números de receita, base de clientes ou meta de contribuição da operação brasileira para o faturamento internacional da empresa.
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