A CD Projekt Red parece não ter pressa em deixar seus jogos para trás. Enquanto The Witcher 3: Wild Hunt acaba de receber uma versão remasterizada gratuita e se prepara para ganhar a expansão Songs of the Past, em 2027, o jogo Cyberpunk 2077, lançado em 2020 com problemas, passou por um arco de redenção e continua recebendo updates, incluindo conteúdos inspirados na segunda temporada da animação Cyberpunk: Mercenários.

Manter jogos lançados há anos em evidência exige mais do que adicionar missões ou melhorar os gráficos. Para Karolina Nieweglowska, diretora de Experiência e Segurança dos Jogadores da CD Projekt Red, voltar aos projetos antigos faz parte da própria maneira de trabalhar do estúdio. “De certa forma, é o nosso modus operandi”, explicou a executiva em entrevista ao VOXL, destacando a importância de preparar os jogos para receber novidades no futuro.

Mas essa estratégia também traz desafios consideráveis. Nieweglowska e Tim Green, engenheiro especialista em renderização que trabalha em The Witcher 3 desde o início do desenvolvimento, explicaram como a empresa lida com a complexidade de atualizar jogos antigos, incorporar tecnologias modernas e corrigir problemas sem comprometer a experiência de quem continua jogando.

CD Projekt Red quer manter seus jogos preparados para o futuro

A decisão de continuar investindo em títulos antigos não significa que a CD Projekt Red tenha previsto todos os caminhos que suas franquias seguiriam. Segundo Nieweglowska, existe a expectativa de que os jogos sejam aproveitados durante muitos anos, mas é difícil antecipar o alcance que uma obra terá antes de chegar ao público.


A executiva explica que cada atualização também representa uma oportunidade de aprendizado para os próximos projetos. Como as gerações de consoles mudam e novas tecnologias chegam ao mercado, o estúdio precisa encontrar maneiras de adaptar seus jogos sem necessariamente transformá-los em produtos completamente novos.

“É bom estar preparado para o futuro”, afirmou Nieweglowska. A ideia é manter os títulos em condições de receber melhorias, mesmo quando já passaram mais de dez anos desde o lançamento original. Segundo a executiva, esse processo exige lidar com diversas variáveis técnicas e coordenar diferentes equipes.

Como os sistemas de um jogo estão interligados, até mesmo uma alteração pontual pode afetar outras funcionalidades, configurações ou recursos. “Você precisa prestar atenção a todas as variáveis que está introduzindo e considerá-las adequadamente, porque todas interagem”, explicou Karolina, destacando que cada atualização também traz aprendizados para projetos futuros.

Essa filosofia, inclusive, pode ser aplicada em The Witcher 4, que chega em 2028. “Ver que continuamos voltando a esse jogo [Witcher 3] mostra que existe uma possibilidade muito concreta de fazermos isso novamente”, comenta Green. “Quem sabe o que o futuro reserva? É importante tentar deixá-lo em um estado ao qual possamos retornar”.

Atualizar um jogo antigo é mais complicado do que parece

Manter um jogo funcionando por muitos anos, porém, não é uma tarefa simples, e o novo lançamento da CD Projekt Red é a prova disso. Para Green, um dos maiores desafios técnicos de modernizar The Witcher 3 para a versão remasterizada é adaptar uma estrutura desenvolvida para as condições de hardware de outra época.

Quando o RPG começou a ser produzido, a lógica predominante era aproveitar poucos núcleos de processamento, que ficariam progressivamente mais rápidos com o avanço dos computadores. Hoje, o cenário é diferente.

Tecnologias como o ray tracing exigem que o processador organize informações adicionais sobre a cena, enquanto a placa de vídeo calcula como a luz se comporta no ambiente. Segundo o engenheiro, simplesmente acrescentar essas tarefas à estrutura original poderia prejudicar o desempenho do jogo.

“É um desafio adaptar isso para que, em vez de depender de poucos núcleos mais rápidos, o jogo consiga distribuir o trabalho entre vários núcleos”, explicou Green. A equipe precisou fazer mudanças específicas para dividir melhor essas tarefas e aproveitar o processamento paralelo, melhorando o desempenho em relação ao que seria possível com a estrutura anterior.

O engenheiro ressalta que o resultado não é tão perfeito quanto seria em um jogo desenvolvido desde o início para esse tipo de arquitetura. Ainda assim, as alterações ajudam a incorporar tecnologias modernas sem exigir que todo o projeto seja reconstruído do zero.

Ray tracing precisa respeitar a identidade visual de The Witcher 3

Além disso, o trabalho não termina quando a nova tecnologia começa a funcionar em um jogo antigo. Um dos maiores desafios, segundo Green, foi preservar a identidade visual de The Witcher 3, que foi construída com uma série de parâmetros artísticos específicos para iluminação, materiais e efeitos de pós-processamento.

Esses ajustes mudam de acordo com o horário do dia e o local explorado pelo jogador. O clima visual de Velen, por exemplo, não é igual ao de Skellige ou Toussaint, e até mesmo cavernas podem ter configurações próprias para criar uma atmosfera particular.

O problema é que boa parte desses elementos foi projetada para trabalhar com técnicas tradicionais de iluminação, incluindo informações de luz previamente calculadas e armazenadas. O ray tracing e outras tecnologias mais recentes se comportam de maneira diferente, o que exige adaptar os sistemas para preservar o resultado visual desejado.

“Esses parâmetros artísticos estão ali para construir a aparência do jogo, então você não pode simplesmente ignorá-los”, explicou Green. A equipe precisa fazer com que os recursos modernos funcionem em conjunto com as escolhas visuais originais, sem comprometer a experiência de quem prefere jogar com as opções tradicionais de iluminação.

The Witcher 3 Remastered precisa funcionar em diferentes plataformas

A variedade de plataformas também aumenta a complexidade do trabalho. A versão remasterizada de The Witcher 3 está disponível para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2, sistemas com capacidades de processamento diferentes, que exigem ajustes específicos de desempenho.

Green explica que o fato de o jogo utilizar o mesmo conteúdo em todas as plataformas ajuda a manter uma identidade visual consistente. A equipe não precisa reconstruir os cenários e personagens para cada sistema, mas ainda precisa encontrar as configurações adequadas para que cada aparelho consiga executar o jogo de maneira satisfatória.

Parte do desafio está justamente nas diferenças entre as tecnologias de iluminação disponíveis. Ray tracing, path tracing e os métodos tradicionais não produzem resultados idênticos, exigindo atenção para manter a apresentação visual coerente em diferentes configurações.

A experiência com o Nintendo Switch 2 também trouxe surpresas durante o desenvolvimento. Segundo Green, a equipe encontrou problemas de desempenho relacionados a determinados métodos de renderização de sombras, que não haviam causado dificuldades semelhantes em outros consoles.

“Se você parte de certas suposições sobre como as placas de vídeo ou os computadores funcionam, elas nem sempre continuam válidas quando você muda de plataforma”, explicou o engenheiro. Felizmente, as mudanças feitas para resolver o problema beneficiaram o desempenho no Switch 2 e também trouxeram algumas melhorias para os demais sistemas.

O aprendizado, porém, não pode ser simplesmente transportado para qualquer projeto. Green observa que The Witcher 4, por exemplo, utiliza uma engine diferente, com necessidades técnicas próprias. Por isso, uma solução que funciona em um jogo não necessariamente terá o mesmo resultado em outro.

Corrigir problemas também exige cuidado com os jogadores

Além das dificuldades de renderização e desempenho, manter um jogo atualizado significa lidar com situações que podem surgir depois de uma atualização chegar ao público. Nieweglowska explica que alterações em um título antigo podem interagir com diferentes estados anteriores do jogo, incluindo situações acumuladas durante a campanha, e não apenas com os arquivos de salvamento.

Quando os jogadores relatam problemas, as equipes acompanham as ocorrências, analisam dados e tentam identificar quais falhas afetam mais diretamente a experiência. O trabalho envolve colaboração entre diferentes departamentos, que precisam avaliar tanto a origem do problema quanto os possíveis efeitos de uma correção.

“Tudo o que você muda, mesmo quando é uma correção, afeta o conjunto”, explicou a executiva. Isso significa que uma solução aparentemente simples pode exigir novos testes para garantir que não provoque falhas em outras partes do jogo.


A vontade de agir rapidamente precisa, portanto, ser equilibrada com a necessidade de entregar uma atualização segura. Nieweglowska afirma que as correções precisam ser testadas nas plataformas afetadas e, dependendo do caso, passar por ajustes e processos de certificação antes de serem distribuídas.

É um trabalho menos visível do que a chegada de uma nova missão ou de gráficos aprimorados, mas fundamental para sustentar o suporte de longo prazo. Quanto mais sistemas um jogo reúne, maior é o número de possíveis interações que a equipe precisa considerar antes de disponibilizar uma mudança.

Por que a CD Projekt Red continua voltando aos mesmos jogos?

Para Nieweglowska, a longevidade também está ligada à maneira como a empresa enxerga os próprios videogames. A executiva defende que grandes produções podem oferecer mais do que entretenimento imediato, proporcionando histórias capazes de despertar emoções e provocar reflexões.

Ela compara essa experiência à leitura de um bom livro: uma obra não deixa de ter valor simplesmente porque foi criada há muitos anos. Se ainda existe uma conexão entre o conteúdo e quem o consome, o tempo não precisa ser um obstáculo.


Essa perspectiva ajuda a entender a estratégia da CD Projekt Red com The Witcher 3 e Cyberpunk 2077. O suporte técnico mantém os jogos compatíveis com novos equipamentos, mas é a experiência que oferecem que dá sentido a esse investimento continuado.

“Há pessoas que procuram um jogo como procurariam um bom livro”, explicou Nieweglowska. Para ela, os videogames já fazem parte do mesmo conjunto cultural que inclui livros, filmes e séries, e grandes produções devem ter espaço para entreter e também levantar questões interessantes.

“Mesmo sendo um jogo de fantasia ou cyberpunk, queremos que esses títulos permaneçam, de certa forma, com os pés na realidade. Ou seja, que sejam algo com que os seres humanos consigam se identificar”, explica. “Você pode ler um livro que foi escrito há 100 anos, se houver algo nele que crie uma conexão, você vai gostar, e não importa quando ele foi criado. O mesmo vale para os jogos.”

A executiva reconhece que não é possível prever todas as possibilidades de uma franquia, mas considera gratificante ver jogadores retornando aos títulos anos depois. Enquanto The Witcher 3 se prepara para receber mais uma expansão e Cyberpunk 2077 continua ganhando novidades, a CD Projekt Red demonstra que, para algumas de suas maiores produções, o lançamento é apenas uma etapa de uma história muito mais longa.