Por uma década, o Canva cresceu sem tirar o pé do acelerador. Neste ano, a startup australiana de design desacelerou pela primeira vez desde então, e a conta chegou ao time. A empresa vai demitir 1.271 funcionários, ou 22% da força de trabalho global.
A própria CEO e cofundadora, Melanie Perkins, anunciou a medida em memorando interno enviado na terça-feira (3). No texto, ela classifica o corte como “sem dúvida o momento mais difícil” nos 13 anos de história do Canva. A reestruturação fecha o que Melanie chama de “ano mais difícil até agora” para a empresa, que tem mais de 5,7 mil funcionários em 37 países, segundo a Bloomberg Australia. O Canva não informou quais times ou regiões serão afetados.
Melanie fala em adaptar a empresa a um mercado em transformação. “Depois de explorar uma ampla gama de alternativas, cheguei à difícil conclusão de que pequenas mudanças não serão suficientes”, escreve. O objetivo, segundo ela, é preparar o Canva para a próxima década.
O memorando não cita inteligência artificial, mas a decisão soa como resposta à ameaça que a tecnologia trouxe para o mercado de ferramentas de imagem e design. Os números mostram a pressão: o Canva já havia cortado a projeção de crescimento de receita para 2026, de 30% para 20%.
O Canva não está sozinho. O medo de que a IA torne obsoletas as ferramentas vendidas por assinatura derrubou as ações de software em 27% no começo do ano. As de design e criação são as que menos se recuperaram. A Adobe acumula queda de cerca de 25% em 2026, mesmo com receita crescendo dois dígitos. A Figma, que estreou na bolsa no ano passado, vale menos de um terço da máxima de 52 semanas.
A reestruturação também muda a forma como o Canva trabalha. A empresa, que já defendeu o trabalho remoto como padrão, vai concentrar times e fazer de Sydney sua principal base de operações. O Canva chegou a pedir que os funcionários fossem ao escritório mais próximo duas vezes por trimestre, mas depois abandonou até essa exigência. A partir de janeiro, a maior parte dos funcionários em regime híbrido deve ir ao escritório de duas a três vezes por semana.
“Trabalhar em vários países trouxe benefícios e talentos enormes, mas também tornou mais difícil reunir as pessoas certas para resolver problemas complexos”, afirma Melanie.
Demissão humanizada?
Demissão em massa nunca é boa notícia, mas o Canva acompanha a decisão com um pacote generoso para quem sai. Os demitidos recebem no mínimo seis meses de salário, já incluídos os direitos previstos em lei, independentemente do país. A empresa também elimina o cliff de um ano de vesting para quem entrou nos últimos 12 meses e mantém o plano de saúde por mais um ano nos países onde já oferece o benefício.
Os demitidos e suas famílias têm ainda 12 meses de acesso ao programa de assistência ao funcionário, além de coaching de carreira individual, preparação para entrevistas e um ano de LinkedIn Premium. Cada um poderá conversar com líderes seniores e ficar com o MacBook da empresa.
Por fim, o Canva lança o Canva Collective Fund, que oferece US$ 10 mil para quem quiser abrir um negócio ou tocar um projeto na própria comunidade, sem que a empresa fique com participação no que for criado. A empresa pensou até na forma de sair: os demitidos mantêm acesso ao Slack e ao Gmail até o fim da semana, para decidir quando e como avisar os colegas.
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