O Brasil assumiu a liderança do ranking global de adoção de criptomoedas da Chainalysis, empresa especializada em análise de blockchain. O país movimentou US$ 252,5 bilhões em criptoativos entre julho de 2025 e junho de 2026, período analisado pelo estudo.
A liderança veio de um desempenho consistente nas diferentes dimensões consideradas pelo índice, com destaque para o avanço das stablecoins no mercado brasileiro. O estudo combina quatro fatores: fluxos para serviços de criptoativos, como exchanges e protocolos DeFi; transferências domésticas entre carteiras pessoais; fluxos internacionais; e saldos de criptoativos mantidos on-chain. A Chainalysis analisou 117 países para a elaboração do ranking, combinando os quatro indicadores em uma pontuação geral.
O Brasil ficou entre os quatro primeiros em todas as categorias. O país aparece em 2º lugar em fluxos internacionais, 3º em fluxos para serviços, 3º na atividade doméstica P2P e 4º em saldos on-chain. A combinação desses resultados levou o país ao primeiro lugar geral, mesmo sem liderar individualmente nenhum dos quatro indicadores.
A metodologia também busca evitar que um desempenho excepcional em apenas uma categoria determine o resultado. Para isso, a Chainalysis normaliza os indicadores e calcula a média geométrica das quatro pontuações. No caso do Brasil, a consistência entre os diferentes indicadores foi suficiente para colocá-lo no topo.
Stablecoins ganham espaço
As stablecoins tiveram papel importante nesse cenário. De acordo com o levantamento da Chainalysis sobre a América Latina, a movimentação desses ativos no Brasil cresceu 495% no período analisado, contra alta de 89,4% no restante da América Latina.
O avanço também aparece nas transferências domésticas de stablecoins. As operações entre US$ 10 mil e US$ 100 mil cresceram 562% no Brasil, ante 209% no restante da América Latina. Na faixa entre US$ 100 e US$ 1 mil, o avanço brasileiro chegou a 666%, contra 252% na região.
O movimento acompanha uma tendência mais ampla identificada pela pesquisa. Na América Latina, a economia cripto cresceu 9,8% no período, enquanto a atividade global recuou 1,6%. O estudo aponta que o desempenho regional foi impulsionado por uma migração para stablecoins e pelo uso de criptomoedas como proteção contra a volatilidade das moedas locais.
Globalmente, as stablecoins também ganharam espaço em diferentes frentes. Os fluxos internacionais desses ativos cresceram 77,5%, de US$ 124,2 bilhões para US$ 220,3 bilhões no período. Já a atividade doméstica P2P com stablecoins aumentou 377,7%, mesmo com queda de 19,7% nas transferências P2P domésticas considerando todos os criptoativos.
Além do crescimento das stablecoins, o aumento da participação de plataformas domésticas também contribuiu para a liderança brasileira no ranking. Elas passaram de 1,5% para 12,5% dos influxos de criptoativos no período. O movimento contrasta com o restante da América Latina, onde as plataformas locais perderam espaço para concorrentes internacionais.
O papel da regulação
O avanço da atividade acontece também em meio a um processo de maior formalização do mercado brasileiro de criptoativos. Em fevereiro, o Banco Central regulamentou o mercado de ativos virtuais no Brasil, enquanto o prazo de transição para que as empresas se adequem às novas regras termina em 31 de outubro.
A definição de regras específicas para o setor cria um ambiente mais estruturado para a atuação de instituições financeiras e empresas reguladas, à medida que os ativos digitais ganham espaço na infraestrutura financeira brasileira.
O paradoxo do crescimento regional
Um detalhe curioso do levantamento é que o Brasil, apesar de concentrar 43,7% de todo o valor cripto movimentado na América Latina — ante 31,6% em 2022 —, não foi o motor do crescimento de 9,8% da região no período.
Segundo a Chainalysis, a economia cripto brasileira na verdade contraiu 1,6% entre julho de 2025 e junho de 2026. Quem puxou a expansão regional foram outros mercados: México (+25,5%), Argentina (+15,3%), Colômbia (+13,8%) e, com destaque, a Venezuela, cuja economia cripto disparou 107,2% no período, impulsionada pela crise política que se seguiu à prisão do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro de 2026.
A Chainalysis descreve o momento brasileiro como uma “desaceleração recente” — não como perda de interesse por parte dos usuários, mas como um recuo pontual dentro de uma trajetória de expansão maior: entre os períodos de 2024 e 2026, a economia cripto do país cresceu 179,4%.
O dado reforça que a liderança do Brasil no ranking global não decorre de um crescimento acelerado no último ano, e sim da combinação consistente entre volume, alcance internacional, atividade P2P e saldos acumulados — dimensões em que o país já ocupava posição de destaque havia mais tempo.
A nível global, a capitalização total do mercado cripto caiu cerca de 50%, uma contração de US$ 2,1 trilhões entre julho de 2025 e junho de 2026. A atividade econômica on-chain global, porém, recuou apenas 1,6%, de US$ 9,5 trilhões para US$ 9,4 trilhões.
A Chainalysis atribui essa resiliência à diversificação dos usos de criptoativos. Enquanto parte da atividade continua relacionada à negociação e ao investimento, stablecoins e transferências P2P vêm sustentando usos ligados a pagamentos, transferências e movimentação de recursos.
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