A economia brasileira não precisa melhorar tanto para a Bolsa local dar retorno.

Com essa convicção, e a de que haverá algum controle de gastos públicos em 2027, o que permitiria cortes da Selic, Samuel Vecht, um portfolio manager da BlackRock, acredita que a Bolsa brasileira é um “clear buy”.

“Estrangeiros e brasileiros perderam a confiança no mercado local, o que é compreensível com juros tão altos, mas uma pequena mudança nas taxas teria um impacto desproporcional,” disse ele ao Brazil Journal

Especializado em mercados emergentes, Vecht também vê valor na China – que, para ele, perdeu espaço demais nos índices de ações regionais.  

Em São Paulo para participar da J. Safra Investment Conference 2026, o gestor disse ainda que o maior risco nos mercados hoje é o fato de uma geração de investidores ter visto “apenas uma história: a dos Estados Unidos e suas empresas de tecnologia superando todos os mercados”. “Temos de questionar isso.”

Abaixo, os principais trechos da conversa.

Ainda existe uma tendência de migração de capital dos EUA para mercados emergentes?

Sim, é uma tendência de longo prazo. Os mercados emergentes estão em um bear market há quase 20 anos. Em lugares como América Latina ou China, os preços das ações em dólar não estão muito distantes dos patamares de 2007. 

Ninguém contesta o fato de que os EUA deveriam negociar com um prêmio em relação aos emergentes, mas o tamanho desse prêmio aumentou de forma desproporcional nos últimos cinco anos. 

O gap aumentou também em relação às principais bolsas mundiais. Hoje, os múltiplos das ações de mercados emergentes estão dois desvios-padrão abaixo de sua média histórica.

E há setores funcionando muito bem nesses países – como tecnologia em Taiwan, na Coreia e na China, commodities na América Latina e em parte da África. 

É claro que os mercados emergentes serão mais voláteis e arriscados que os desenvolvidos. Mas os primeiros devem superar os últimos no longo prazo, e de forma expressiva.

Mas os mercados emergentes são um grupo heterogêneo. Onde estão as principais oportunidades de investimento?

China e Brasil são os dois principais overweight dos fundos que administro. 

A China é dominante em muitos setores — não apenas tecnologia, mas manufatura e indústrias — e está ganhando participação de mercado, frequentemente da Europa. 

Os chineses mostraram que são capazes de fabricar praticamente qualquer coisa nos padrões ocidentais e de forma muito mais barata. Isso é muito atrativo para investidores como nós. 

Além disso, a bolsa chinesa está barata, praticamente nos mesmos níveis de 20 anos atrás, embora a economia seja muito diferente hoje. 

O peso da China no índice de ações de mercados emergentes está em 19%, abaixo da Coreia (23%) e de Taiwan (28%). 

Por que Brasil? Valuation

Acho que os investidores passam por ciclos com o Brasil: ficam muito animados, se apaixonam e depois o odeiam. Estrangeiros e brasileiros perderam a confiança no mercado local – o que é compreensível com juros tão altos. Mas uma pequena mudança nas taxas poderia ter um impacto desproporcional na Bolsa.

Antes das eleições, os governos costumam gastar. Isso é o que acontece em diferentes democracias, não apenas na América Latina. Mas a história mostra que, no primeiro ano de mandato, normalmente há algum ajuste. 

Independentemente de quem ganhe a eleição presidencial no Brasil, acho que as taxas podem cair no próximo ano, o que daria um forte impulso às ações.

O Brasil tem ainda outras vantagens. Um diferencial claro em commodities, capacidade de negociar comercialmente com diferentes países e uma produção agrícola incrível, embora às vezes as pessoas na Faria Lima ignorem o que acontece nessa área. 

Outro ponto é que os grandes bancos e empresas já passaram por ciclos complicados no passado. A gestão é boa, e suas ações estão bastante depreciadas. 

Os bancos, por exemplo, costumavam ser negociados entre dez e 12 vezes o lucro e agora estão num patamar entre cinco e sete. Varejistas, que antes negociavam a 18, 20, 25 vezes o lucro, agora estão em torno de seis vezes. 

A economia brasileira não precisa melhorar tanto para que o mercado brasileiro tenha um desempenho melhor.

Alguns analistas dizem que a Bolsa brasileira está barata há tempo que essa constatação perdeu o sentido. Talvez o valuation “justo” seja mais descontado mesmo, considerando os riscos do mercado local? 

Não concordo. Uma vantagem de fazer este trabalho há 25 anos e ter viajado para 80 países pela BlackRock – me chamam de “turista profissional” – é enxergar além da perspectiva nacional. 

Cada país pensa que é especial, mas há 194 membros especiais nas Nações Unidas. O Brasil não é o único mercado que esteve barato por muito tempo.

De repente, as coisas podem mudar. Em agosto de 2025, quando visitei a Coreia, me disseram que a Samsung não tinha futuro e nenhum estudante queria trabalhar lá. Um ano depois, o preço da ação subiu cinco vezes e, aparentemente, todo mundo quer trabalhar na Samsung. 

As percepções mudam – às vezes, mais rápido do que se espera. Pequenas mudanças podem ter grandes impactos na percepção dos investidores, e isso pode alterar comportamentos e preços. 

Não estou dizendo que isso acontecerá no Brasil com certeza – confiante é algo que um gestor de fundos jamais deveria ser –, mas há uma série de fatores que podem mudar a percepção dos investidores. 

Quais empresas ou setores na Bolsa brasileira têm maior potencial?

Não posso citar nomes específicos. Em termos de setores, as ações de companhias voltadas para a economia doméstica parecem muito interessantes: bancos, fintechs, varejistas, empresas de consumo e de utilities. Algumas concessionárias de serviços públicos estão relativamente caras, mas nem todas.  

De forma geral, esses setores são interessantes porque estão abandonados. Os investidores pensam como você mencionou: ‘Nada vai mudar, estamos presos aqui para sempre’. O pessimismo é sempre um fator a ser observado. 

Muitos gostam de classificar as coisas como maravilhosas ou terríveis, mas geralmente são tons de cinza. 

Hoje, a América Latina representa 7% do PIB mundial, mas cerca de 0,1% dos índices de ações globais. O Brasil responde por 4% do índice de mercados emergentes. Isso significa que a décima maior economia do mundo deveria receber menos capital do que a Hynix? A Hynix é uma ótima empresa, mas não faz muito sentido.

Para mim, o Brasil é um clear buy. Há risco? Claro. Posso ser surpreendido? Totalmente. O Brasil frequentemente surpreende tanto na alta quanto na baixa. Mas acho que há muito pessimismo precificado, e isso pode ser observado nos fluxos de capital.

No fundo UCITS, que é atrelado ao índice de mercados emergentes, temos 11% do patrimônio aplicado na Bolsa brasileira, cerca de sete pontos acima do referencial, e em torno de 35% em China, cerca de 15 pontos acima do referencial. 

Quais são os principais riscos para os investidores?

O maior deles é o fato de termos uma geração de investidores que só viu uma história: a dos Estados Unidos e suas empresas de tecnologia superando todos os mercados.

Desde 2008, essa tem sido uma via de mão única, e quem tem em torno de 43 anos praticamente só conhece isso. Essa dominância dos EUA persistiu com inflação alta ou baixa, dólar forte ou fraco, republicanos ou democratas no poder. 

Mas acho que devemos questionar quanto tempo mais isso vai durar. A teoria diz que muito investimento indo para uma área leva a retornos mais baixos no futuro.

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