Guilherme Boulos, deputado federal e candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo (Foto: Reprodução/YouTube)
" data-large-file="https://www.infomoney.com.br/wp-content/uploads/2024/09/guilherme-boulos.jpg?fit=517%2C376&quality=70&strip=all" />O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou ver uma “chantagem do mercado” na pressão por ajuste fiscal no próximo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e defendeu que eventuais cortes sejam direcionados a privilégios, e não a políticas que atinjam a população mais pobre.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (31), Boulos colocou entre as medidas a serem discutidas a revisão de desonerações fiscais, o enfrentamento de supersalários e mudanças nas emendas parlamentares.
“Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia”, afirmou.
A declaração ocorre em meio à intensificação do debate sobre o ajuste fiscal no quarto mandato de Lula, após a reeleição do presidente no último domingo (25).
Boulos mira desonerações e supersalários
Segundo Boulos, um eventual ajuste deve priorizar benefícios e distorções que pressionam as contas públicas, em vez de recair sobre áreas como saúde, educação e políticas destinadas à população de menor renda.
“O corte que queremos é em privilégios: temos quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações fiscais”, afirmou.
A ordem de grandeza citada pelo ministro encontra respaldo nos dados oficiais. O Tribunal de Contas da União (TCU) estima os gastos tributários de 2026 em mais de R$ 600 bilhões.
Boulos também citou os supersalários no setor público e as emendas parlamentares entre os temas que, em sua avaliação, deveriam entrar na discussão.
Ao tratar das emendas, afirmou: “Só aí tem R$ 61 bilhões.”
O Orçamento de 2026 prevê aproximadamente R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Desse total, segundo dados oficiais, R$ 37,8 bilhões correspondem a emendas impositivas — aquelas cujo pagamento é obrigatório.
Dívida bruta chega a 82,9% do PIB
A discussão ocorre em um cenário de avanço do endividamento público e aumento da pressão para que o governo apresente medidas capazes de estabilizar a trajetória da dívida.
Na entrevista à Folha, foi destacado que a dívida bruta passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no fim de 2022 para 82,5% em julho de 2026.
Dados mais recentes do Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em setembro, equivalente a R$ 11,1 trilhões. O percentual ficou estável em relação a agosto, mas acumula alta de 4,3 pontos percentuais do PIB no ano.
A questão fiscal ganhou ainda mais peso após a eleição. Bancos, gestores e agências de classificação de risco têm cobrado maior clareza sobre as medidas que serão adotadas pelo novo governo.
A Fitch, por exemplo, alertou para o aumento das incertezas fiscais após a reeleição de Lula, enquanto o UBS apontou que investidores devem buscar medidas concretas e quantificadas antes de uma melhora mais consistente da percepção sobre os ativos brasileiros.
Boulos, por outro lado, argumentou à Folha que a trajetória da dívida brasileira deve ser analisada também em comparação com outras grandes economias e criticou propostas de ajuste que, em sua avaliação, recaiam principalmente sobre serviços públicos e a população mais pobre.
“Governar com as ruas e as redes”
No campo político, Boulos minimizou as discussões sobre a sucessão presidencial e defendeu que a prioridade da esquerda seja a sustentação do quarto mandato de Lula.
Segundo o ministro, antecipar a discussão sobre nomes para suceder o presidente “só serve à divisão interna na esquerda e no governo”.
Ele afirmou ainda que a governabilidade do próximo mandato não deverá depender apenas da articulação institucional com Congresso e Judiciário.
“Precisaremos governar com as ruas e as redes”, disse.
Segundo Boulos, as redes devem servir para a disputa de narrativas, enquanto a mobilização social teria papel na pressão por pautas defendidas pelo governo.
O posicionamento ocorre diante de um Congresso que deverá representar um desafio importante para a agenda econômica. O UBS apontou a capacidade de aprovar medidas fiscais no Legislativo como um dos principais testes do novo governo.
Prefeitura de São Paulo em 2028
Questionado pela Folha sobre uma eventual candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2028, Boulos afirmou que seu foco, neste momento, está no próximo mandato presidencial.
“Meu foco está em ajudar Lula a fazer um mandato histórico”, disse.
Para Boulos, o quarto governo Lula pode ir além de um mandato de legado pessoal do presidente e indicar caminhos políticos para os próximos anos.
O ministro também evitou antecipar decisões sobre seu futuro partidário. Ele reconheceu divergências com a atual maioria do PSOL e afirmou que seu grupo político discute os próximos passos.
Boulos elogia Janones e “Exército do Lula”
Ao comentar a estratégia adotada durante a campanha presidencial, Boulos elogiou o deputado federal André Janones (Rede-MG) e a organização do chamado “Exército do Lula”, mobilização digital criada durante a disputa eleitoral.
“Janones cumpriu um papel extraordinário”, afirmou.
Boulos, que atuou como coordenador de mobilização da campanha, também destacou as manifestações realizadas durante o segundo turno e afirmou que o período registrou uma mobilização social que ultrapassou as lideranças partidárias tradicionais.
As declarações foram dadas em entrevista à Folha de S.Paulo publicada neste sábado.
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