A BioLinker, empresa brasileira de biotecnologia fundada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), captou R$ 8,4 milhões em sua nova rodada de investimento. Desse total, R$ 7,2 milhões vieram do fundo da Axcell, aceleradora de negócios focada na Amazônia, e o restante, do programa PIPE Fase 2, da FAPESP. O aporte vai financiar um laboratório automatizado no Centro de Bionegócios da Amazônia, em Manaus. A empresa pretende usar a estrutura para gerar dados em larga escala e treinar modelos de inteligência artificial, além de ampliar a capacidade de produção de DNA no país.
Fundada em 2018, a BioLinker nasceu com o objetivo de usar a biologia sintética para resolver desafios em pesquisa, diagnóstico e produção industrial. A companhia atua na descoberta, desenvolvimento e fabricação de proteínas recombinantes, com foco em agilidade, personalização e rigor técnico. Já gera receita recorrente e financia o desenvolvimento comercial com a própria operação.
Mona Oliveira, fundadora e CEO, resume o trabalho da empresa como a produção de proteínas por meio de engenharia genética. O maior custo, porém, está na geração de dados. “A obtenção de dados na velocidade de que precisamos para treinar modelos exigiria muito mais capital, e a rodada foi consolidada pensando justamente nisso”, afirma, em entrevista ao Startups.
Presença na Zona Franca
O fundo da Axcell reúne recursos de empresas da região. Fundada em 2022, a aceleradora tem mais de 30 empresas no portfólio. Mona explica que companhias instaladas na Zona Franca de Manaus têm a obrigação de investir em inovação, com a opção de fazer isso internamente, pela Lei do Bem, ou por meio de um fundo criado em Manaus, que opera pelo Programa Prioritário da Bioeconomia.
O programa concede cheques de até R$ 10 milhões a empresas de biotecnologia, modalidade que, segundo a CEO, é rara no Brasil. O processo envolve conversas com o fundo, diligência e comitê de investimento.
Como contrapartida, a BioLinker se comprometeu com metas de crescimento na região amazônica, algo que já fazia parte da estratégia da empresa, que trabalha com a biodiversidade brasileira. A companhia abriu uma filial em Manaus e está incubada no Centro de Bionegócios da Amazônia.
De acordo com Mona, a BioLinker vendeu 13% da startup nessa parte da rodada, que ainda não está totalmente fechada.
Para completar a rodada atual, ela quer ao menos um investidor internacional, mesmo com cheque pequeno, que ajude a acelerar o ciclo de design, build e teste da frente de IA, além de auxiliar na estruturação de uma Série A no exterior, prevista para ocorrer em, no máximo, dois anos.
Robôs e produção de DNA
O laboratório de Manaus será montado em uma área do Centro de Bionegócios da Amazônia que conta com um pré-laboratório e será reformada pela empresa. A BioLinker pretende trazer robôs de fora do país para operar o espaço.
A estrutura será usada para realizar high throughput screening, método de triagem que gera dados em alta escala e que, segundo Mona, será aplicado no treinamento de modelos de inteligência artificial. Ela afirma que será o único laboratório do país com esse tipo de tecnologia.
A expansão também busca dar à empresa autonomia nacional na produção de grandes blocos de DNA. “Hoje, no Brasil, ninguém produz isso. Existem algumas iniciativas acadêmicas que atendem à própria instituição, mas não há empresas produtoras de DNA, e o país depende totalmente de trazer esse material de fora”, diz Mona.
Ela avalia que há também um movimento de regulação para evitar o desenvolvimento de vírus, já que a própria inteligência artificial consegue desenhar algumas moléculas. Por isso, a proposta da BioLinker inclui a proteção dos dados genéticos com os quais a empresa vai trabalhar.
A companhia vai atuar majoritariamente com o patrimônio genético brasileiro, incluindo genomas de bactérias e de fagos, vírus que infectam bactérias e não causam doenças. A ideia é sintetizar essas informações no país e usá-las como ferramenta para produzir proteínas.
Mona afirma que o Brasil, que abriga cerca de 20% da biodiversidade do planeta, não tem um banco nacional desse tipo de dado. A empresa trabalha com professores para construir essa base.
O cenário das deep techs
A empreendedora conta que chegou a pensar em desistir da busca por um investidor brasileiro, e que viajou para o exterior para conversar com investidores de fora antes de fechar com a Axcell. A BioLinker sempre foi resistente a captar recursos, diz Mona, por ter um modelo intensivo em capital e com forte componente científico.
Na avaliação dela, o investidor brasileiro de deep tech ainda é escasso e concentrado em pre-seed, estágio em que costuma ficar com cerca de 20% da empresa na formação. Os fundos intermediários, diz, raramente investem no segmento, e alguns afirmam aplicar apenas fora do país. Ela percebe, porém, um interesse crescente em deep tech com o avanço da inteligência artificial.
Nos veículos de Corporate Venture Capital (CVC), a CEO aponta outro problema: as métricas usadas para avaliar as empresas. “Muitos CVCs colocam gestores acostumados a selecionar empresas de software, que pedem indicadores sem nenhuma relação com os de uma deep tech. Acaba atrapalhando em vez de ajudar”, afirma.
Segundo Mona, o valuation no exterior costuma ser de cinco a dez vezes maior que no Brasil, considerando o histórico da empresa. Ela diz que concorrentes captaram US$ 40 milhões sem ter portfólio de clientes e tração semelhantes aos da BioLinker.
A estruturação econômica para abrir a captação lá fora está entre os planos da empresa com o novo aporte.
Série A e contratações
Com os recursos da rodada, a BioLinker pretende dobrar de tamanho, passando dos atuais 12 colaboradores para 24 nos próximos meses.
Mona afirma que a empresa calculou que o valor captado sustenta três anos de operação. A CEO diz que trabalha para crescer mais rápido que isso e que há cenários conservador e de alto crescimento, com os advisors a puxando para um ritmo de startup. “Coisas biológicas não crescem em uma velocidade só”, diz.
A BioLinker já era investida pelo Google, que fez um aporte na empresa no início de 2025. O valor não foi divulgado.
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