O mercado financeiro brasileiro inicia esta segunda-feira (26) sob forte pressão, após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República. As primeiras reações já vêm do exterior: o EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, chegou a recuar 26% no pré-mercado, enquanto os ADRs de empresas brasileiras desabam 20%.
A reação amplia a expectativa de um gap de baixa na Bolsa brasileira, movimento caracterizado pela abertura dos preços abaixo dos fechamentos anteriores. A intensidade das perdas, contudo, dependerá das ordens de compra e venda e das condições de liquidez no início do pregão.
O cenário representa uma mudança importante nas expectativas dos investidores, que vinham precificando a possibilidade de alternância de poder. Com a reeleição de Lula, as atenções se voltam novamente à trajetória da política fiscal, à dívida pública, aos juros e às perspectivas para a economia brasileira.
O contraste com o primeiro turno é significativo. Em 5 de outubro, o Ibovespa disparou 7,70%, encerrando aos 206.911 pontos, na maior valorização diária desde março de 2020. Posteriormente, o índice renovou sua máxima histórica intradiária em 209.713 pontos, antes de iniciar um movimento de consolidação.
Entre os fechamentos de 2 e 23 de outubro, o Ibovespa acumulou valorização de 6,9%, passando de 192.144 para 205.082 pontos. No mesmo intervalo, o dólar recuou 4,4%, de aproximadamente R$ 5,21 para R$ 4,98.
Agora, parte dessa valorização pode ficar ameaçada diante da forte reação negativa observada no exterior. O movimento coloca em destaque as ações de Petrobras (PETR4), Itaú Unibanco (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3) e Vale (VALE3), especialmente pelos riscos de rompimento de regiões importantes de suporte.
Queda do EWZ eleva risco de circuit breaker na B3
A intensidade da desvalorização dos ativos brasileiros no exterior coloca no radar a possibilidade de acionamento do circuit breaker, mecanismo utilizado pela B3 para interromper temporariamente as negociações em momentos de quedas extremas.
Pelas regras da B3, a primeira paralisação ocorre quando o Ibovespa registra queda de 10% em relação ao fechamento anterior, suspendendo as negociações por 30 minutos. Caso a desvalorização alcance 15%, após a retomada, ocorre uma nova interrupção de uma hora. Já uma queda de 20% permite à bolsa determinar um novo período de suspensão.
Com os gráficos de sexta-feira (23) como referência, a análise técnica das quatro companhias mostra quais suportes poderão ser testados caso a pressão vendedora se confirme na abertura.
Petrobras (PETR4): rali histórico pode dar lugar à forte correção
As ações da Petrobras (PETR4) chegam ao pregão pós-eleição após uma sequência de valorizações, mas sob risco de correção diante da forte queda dos ADRs no exterior. Na sexta-feira (23), o papel avançou 1,47%, encerrando aos R$ 58,68, após renovar sua máxima histórica intradiária em R$ 59,79.
Em 2026, a ação chegou a corrigir até a região de R$ 36,37, antes de iniciar uma recuperação consistente. O movimento ganhou força no primeiro pregão após o primeiro turno, em 5 de outubro, quando o papel disparou 8,19%. Desde então, manteve a trajetória positiva, beneficiada também pelo avanço do petróleo no mercado internacional.
No gráfico diário, observo que PETR4 negocia acima das médias móveis de 9, 21 e 200 períodos, todas inclinadas para cima, preservando a tendência de alta no curto e médio prazo. Entretanto, o IFR (14) está em 70,09 pontos, na região de sobrecompra, indicando um movimento esticado e maior vulnerabilidade a realizações diante do novo cenário político.
Para o movimento corretivo, considero fundamental acompanhar inicialmente a região de R$ 56,90. A perda desse suporte poderá ampliar a pressão vendedora, levando o ativo a testar R$ 53,00 e R$ 51,35. Abaixo dessas regiões, os próximos suportes aparecem em R$ 47,56, R$ 43,55 e, em um movimento mais prolongado, R$ 39,70.
Por outro lado, caso a pressão inicial seja absorvida e o fluxo comprador retorne, a principal resistência permanece na máxima histórica de R$ 59,79. Acima desse patamar, os objetivos aparecem em R$ 63,20, R$ 64,70 e R$ 70,00, com projeções mais longas em R$ 74,15, R$ 77,00 e R$ 81,75.

Itaú Unibanco (ITUB4): queda dos ADRs ameaça suportes importantes
As ações do Itaú Unibanco (ITUB4) chegam ao primeiro pregão após o segundo turno sob expectativa de forte pressão vendedora, acompanhando a reação negativa dos ADRs negociados nos Estados Unidos. Na sexta-feira (23), o papel avançou 0,62%, encerrando aos R$ 48,30, acumulando valorização de 25,39% em 2026.
Após atingir a antiga máxima histórica de R$ 48,81, em fevereiro, o ativo iniciou um movimento de baixa que levou à mínima anual de R$ 37,32, em agosto. A recuperação ganhou força antes do primeiro turno, com destaque para a valorização de 10,37% em 5 de outubro. Na sequência, o papel renovou sua máxima histórica em R$ 50,85, antes de iniciar um movimento corretivo.
No gráfico diário, observo que o Itaú negocia entre as médias móveis de 9 e 21 períodos, permanecendo acima da média de 200 períodos. A estrutura principal ainda é positiva, mas o canal corretivo recente mostra uma acomodação dos preços. O IFR (14) está em 60,09 pontos, indicando perda de força em relação ao movimento de valorização anterior, embora ainda não confirme uma reversão.
Diante do cenário negativo no exterior, considero fundamental acompanhar a faixa entre R$ 47,50 e R$ 47,00, próxima da média de 21 períodos. A perda dessa região poderá intensificar a correção, com suportes em R$ 45,25, R$ 43,13 e R$ 41,50. Abaixo desses patamares, os próximos objetivos aparecem em R$ 39,77 e na mínima anual de R$ 37,32.
Para uma eventual retomada das altas, o papel precisará superar o canal corretivo e, posteriormente, a máxima histórica de R$ 50,85. Acima dessa região, as projeções aparecem em R$ 52,25, R$ 55,35 e R$ 58,00, com objetivos mais longos em R$ 60,50 e R$ 62,70.
Na minha leitura, a perda da região de R$ 47,00 poderá ampliar o movimento corretivo do Itaú, especialmente se a forte pressão observada nos ADRs persistir durante o pregão brasileiro. Apesar da tendência principal ainda positiva no fechamento de sexta-feira, a preservação dos suportes será determinante para evitar uma deterioração mais ampla.

Banco do Brasil (BBAS3): ação pode devolver ganhos do rali eleitoral
As ações do Banco do Brasil (BBAS3) também entram no radar diante da expectativa de forte volatilidade após a reeleição de Lula. Na sexta-feira (23), o papel avançou 3,34%, encerrando aos R$ 24,72, enquanto acumula valorização de 15,15% em 2026.
Após atingir R$ 27,43, em fevereiro, o ativo recuou até a mínima anual de R$ 17,69, em agosto. A partir desse fundo, iniciou uma recuperação que ganhou força antes do primeiro turno. No pregão de 5 de outubro, a ação disparou 11%, acompanhando o forte movimento positivo da Bolsa após a primeira votação.
Desde então, o papel entrou em uma fase de acomodação, voltando a negociar dentro de uma faixa mais lateralizada, semelhante à observada em setembro.
No gráfico diário, observo que BBAS3 permanece acima das médias móveis de 9, 21 e 200 períodos, preservando a tendência de alta. O IFR (14) está em 61,12 pontos, indicando predomínio comprador no fechamento anterior, embora a pressão esperada para a abertura possa modificar essa configuração.
Para o movimento corretivo, considero fundamental acompanhar inicialmente a região de R$ 23,29. A perda desse suporte poderá levar o ativo a testar R$ 22,04, próximo da média de 200 períodos, seguida por R$ 21,18. Caso a pressão vendedora ganhe intensidade, os próximos suportes aparecem em R$ 18,89, R$ 17,69 e R$ 17,00.
Na direção contrária, uma eventual retomada compradora precisará superar a região de R$ 24,97. Acima desse patamar, as resistências aparecem em R$ 26,33 e R$ 27,43, antes da máxima histórica de R$ 28,83. A superação dessa última faixa poderá abrir espaço para testes na região psicológica de R$ 30,00.

Vale (VALE3): tendência de baixa aumenta atenção para novos suportes
As ações da Vale (VALE3) chegam ao pregão pós-eleição em situação técnica diferente das demais companhias analisadas. O papel já vinha apresentando forte tendência de baixa, pressionado pelo cenário das commodities e pelo movimento de valorização do real observado entre os dois turnos. Na sexta-feira (23), avançou 0,67%, encerrando aos R$ 61,90, mas ainda acumula desvalorização de 11,85% em 2026.
Após registrar sua máxima histórica em R$ 89,41, em fevereiro, a ação iniciou uma trajetória descendente dentro de um canal de baixa. Nas últimas semanas, o fluxo vendedor ganhou intensidade, provocando a perda de suportes importantes, incluindo a região de R$ 70,00, e levando a cotação para próximo dos R$ 60,00.
No gráfico diário, observo que VALE3 negocia abaixo das médias móveis de 9, 21 e 200 períodos, reforçando o predomínio vendedor. Entretanto, o forte afastamento dessas médias, associado ao IFR (14) em 21,65 pontos, na região de sobrevenda, aumenta a possibilidade de um repique técnico.
Apesar disso, considero importante destacar que ainda não há sinal gráfico consistente de reversão. O movimento esticado pode favorecer uma recuperação pontual, mas não permite afirmar que a ação encontrou um fundo. A tendência principal permanece negativa.
Para a continuidade das quedas, a perda de R$ 61,40 poderá abrir espaço para testes em R$ 59,67 e R$ 56,80. Abaixo dessas regiões, os próximos suportes aparecem em R$ 52,60, R$ 47,33 e, em um cenário mais prolongado, R$ 44,00.
Na direção contrária, uma tentativa de recuperação precisará superar inicialmente a região de R$ 64,00, próxima da média móvel de 9 períodos, seguida pela faixa de R$ 68,00, próxima da média de 21 períodos. Acima desses níveis, as resistências aparecem em R$ 74,27, R$ 77,56, R$ 81,31 e R$ 83,35, com projeções mais longas em R$ 87,58 e na máxima histórica de R$ 89,41.
Na minha avaliação, a Vale permanece tecnicamente pressionada, embora sua exposição ao dólar possa funcionar como fator de compensação parcial caso a moeda americana avance frente ao real. O IFR em sobrevenda abre espaço para um repique, mas a perda de R$ 61,40 poderá ampliar a tendência de baixa, exigindo cautela diante da volatilidade esperada após as eleições.

(Rodrigo Paz é analista técnico)
Guias de análise técnica:
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