A Anthropic, criadora da inteligência artificial Claude, apresentou documentos para abrir capital nos Estados Unidos. O prospecto revela uma empresa em rápida expansão, mas pressionada por custos elevados e riscos que vão de ataques cibernéticos a falhas nas proteções de seus modelos.

O documento reúne as primeiras demonstrações financeiras auditadas da companhia e detalha os desafios que podem afetar seus planos de crescimento.

O documento de IPO admite que as travas de segurança da IA têm falhas e podem ser burladas por agentes maliciosos. – Imagem: jackpress/Shutterstock

Crescimento acelerado, mas com custos elevados

Fundada em 2021, a Anthropic ampliou rapidamente suas receitas, mas os gastos também cresceram. Os números apresentados no prospecto mostram a dimensão desse avanço e o peso financeiro da infraestrutura necessária para desenvolver e operar seus modelos de IA.

Os principais valores informados pela companhia são:

  • Receita no primeiro semestre de 2026: US$ 16,3 bilhões (cerca de R$ 86,39 bilhões).
  • Prejuízo no primeiro semestre de 2026: US$ 80 bilhões (cerca de R$ 424 bilhões), incluindo uma despesa extraordinária de US$ 72,4 bilhões (R$ 383,72 bilhões).
  • Receita em 2025: US$ 4,585 bilhões (cerca de R$ 24,3 bilhões).
  • Prejuízo em 2025: aproximadamente US$ 33,9 bilhões (cerca de R$ 179,67 bilhões).
  • Gastos com infraestrutura de IA no primeiro semestre de 2026: quase US$ 9 bilhões (cerca de R$ 47,7 bilhões), ante US$ 2,3 bilhões (R$ 12,19 bilhões) no mesmo período de 2025.
  • Avaliação estimada por alguns investidores: entre US$ 1,5 trilhão (R$ 7,95 trilhões) e US$ 2 trilhões (R$ 10,6 trilhões). A Anthropic não informou uma avaliação pretendida para a abertura de capital.

A concentração de clientes também preocupa: os cinco maiores compradores respondem por 25% dos negócios. A perda de um deles poderia afetar os resultados da empresa.

O potencial da IA esbarra em riscos de segurança

A Anthropic aposta em aplicações da tecnologia na medicina, na biologia, nas finanças e na robótica. Segundo a companhia, o Claude reduziu de meses para minutos o tempo necessário para elaborar relatórios de ensaios clínicos. A empresa também relata descobertas biológicas que podem contribuir para o desenvolvimento de ferramentas de edição genética.

Esses avanços, no entanto, convivem com limitações que a própria empresa reconhece. No prospecto, a Anthropic afirma que as proteções de seus modelos podem ficar desatualizadas, ser contornadas ou falhar. A companhia também admite que seus sistemas mais avançados podem ajudar pessoas mal-intencionadas a desenvolver armas químicas ou biológicas.

Os riscos já incluem ataques cibernéticos. A empresa relata o que considera o primeiro caso documentado de uma operação em larga escala com pouca intervenção humana. Segundo a Anthropic, um grupo de hackers patrocinado pelo Estado chinês manipulou uma ferramenta de programação do Claude para tentar invadir cerca de 30 alvos, entre eles empresas de tecnologia, instituições financeiras, fabricantes de produtos químicos e órgãos governamentais.

O uso da IA para fins de vigilância e repressão também preocupa a companhia. A Anthropic alerta que governos autoritários podem recorrer à tecnologia para ampliar essas práticas. A empresa enfrenta ainda um conflito com o governo Trump por se recusar a flexibilizar as restrições ao uso de seus modelos para vigilância doméstica e armas letais autônomas.

Ao fundo, meio desfocado, logo da Anthropic; à frente, smartphone mostrando a página de download do Claude
A estreia da Anthropic na bolsa será o teste definitivo para saber se o mercado aceita bancar perdas bilionárias em IA. – Imagem: Mijansk786/Shutterstock

Os riscos para os negócios

Nas 92 páginas dedicadas aos riscos, a empresa também aborda a concorrência com Google e OpenAI, a dependência de executivos importantes e as incertezas regulatórias.

Outros fatores podem comprometer suas operações:

  • Infraestrutura: restrições na rede elétrica, desastres naturais e limitações à construção de centros de dados.
  • Seguros: dificuldade para obter cobertura adequada para determinadas responsabilidades relacionadas à IA.
  • Contratação: mudanças nas políticas migratórias dos Estados Unidos podem dificultar a atração de profissionais qualificados.
  • Compromissos sociais: como empresa de benefício público, a Anthropic precisa conciliar resultados financeiros e metas de impacto social.

Para reduzir a dependência dos Estados Unidos, a companhia afirma estar ampliando sua infraestrutura de centros de dados em outros países. Ainda assim, admite que pode não conseguir contratar seguros em condições comerciais razoáveis para determinadas responsabilidades ligadas à IA.

“Podemos não conseguir obter cobertura para determinadas responsabilidades relacionadas à IA em condições comercialmente razoáveis, ou mesmo obter qualquer cobertura, o que nos deixaria expostos a perdas potencialmente significativas”, afirma o prospecto.

A abertura de capital colocará sob maior escrutínio a capacidade da Anthropic de sustentar o crescimento, administrar os custos e lidar com os riscos associados à expansão da inteligência artificial.

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