*Por Fernanda Sotelo, founder & Chief Experience Officer na Kiddle Pass
“Sua vocação já estava aí.” Foi o que uma amiga escreveu em outubro do ano passado, ao repostar uma lembrança do Facebook de dez anos antes. Era 3 de outubro de 2015, e eu estava no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, em um trabalho voluntário onde ensinávamos inglês aos sábados para crianças em situação de vulnerabilidade social. Naquele dia, eu havia escrito que momentos como aquele faziam a vida ter mais sentido.
A frase ficou comigo. Não apenas porque, dez anos depois daquela foto, eu havia deixado uma carreira consolidada para empreender em educação, mas porque a inquietação que me levava até aquelas crianças continuava essencialmente a mesma: por que o lugar onde uma criança nasce ainda determina tanto as oportunidades que chegarão até ela?
Hoje, em 2026, a Kiddle Pass, que criei a partir dessa inquietação, está entre as finalistas do Open Innovation Awards. Chegar até aqui me fez voltar àquela foto e pensar menos sobre a minha trajetória e mais sobre a forma como escolhemos investir no futuro.
Quando falamos em preparar o Brasil para os próximos anos, falamos, corretamente, sobre ensino técnico, formação profissional, universidade, inteligência artificial e capacitação para profissões que ainda estão surgindo. Investimos para que jovens e adultos estejam preparados para um mercado cada vez mais complexo, mas a pergunta que me faço é se não estamos começando essa conversa tarde demais.
O futuro profissional de alguém não começa quando essa pessoa escolhe uma profissão. Começa muito antes, quando uma criança descobre que é capaz de aprender algo que parecia difícil, encontra um livro que desperta sua imaginação, experimenta outro idioma, cria, pergunta, erra, tenta novamente e desenvolve autonomia, curiosidade e confiança para explorar um mundo maior do que aquele que conhece.
Investir na base, portanto, não deveria ser entendido apenas como uma política educacional ou social. É também uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.
E as oportunidades ainda começam de lugares muito diferentes. Dados recentes reunidos pelo UNICEF mostram que, entre os 20% mais pobres do país, 28% das famílias que desejam uma vaga em creche não conseguem acesso. A desigualdade que mais tarde tentaremos reduzir por meio de bolsas, qualificação profissional e políticas de empregabilidade começa muitos anos antes do primeiro currículo.
A tecnologia adicionou uma nova camada a esse desafio. A TIC Kids Online Brasil 2025 mostra que 82% das crianças e adolescentes das classes D e E que usam a internet acessam-a exclusivamente pelo celular. Nas classes A e B, são 29%. Estar conectado não significa ter acesso às mesmas oportunidades.
Talvez essa seja uma das discussões mais importantes sobre infância digital daqui para frente. Não apenas quanto tempo uma criança passa diante de uma tela, mas o que ela encontra quando chega lá e, principalmente, o que aquele tempo permite que ela descubra, aprenda e crie.
A tecnologia não substitui escola, professor, família ou políticas públicas, nem resolve sozinha desigualdades construídas durante gerações. Mas pode encurtar distâncias, fazer uma boa experiência educacional, atravessar CEPs, ampliar repertórios e levar oportunidades a crianças que, por razões geográficas ou econômicas, talvez não chegassem até elas de outra maneira.
Foi algo que comecei a entender lá no Capão Redondo, antes de imaginar que um dia empreenderia nessa área. Uma oportunidade na infância não determina quem uma criança será, mas pode ampliar enormemente aquilo que ela consegue imaginar que pode ser.
Onze anos depois daquela foto, continuamos discutindo como preparar profissionais para 2035, 2040, 2050. Mas talvez, antes de perguntar quais competências o profissional do futuro precisará ter, exista outra pergunta que merece a mesma atenção: o que estamos oferecendo hoje à criança que ele ainda é?
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