Ao longo dos últimos 15 anos, André Street ficou mais conhecido como o fundador da Stone, a empresa que ajudou a quebrar o duopólio Cielo-Rede no mercado de maquininhas.
Mas em paralelo à construção da companhia, Street foi montando silenciosamente um outro negócio: um portfólio de participações em
startups que hoje vale perto de US$ 200 milhões, e que provavelmente faz dele o maior VC pessoa física do Brasil em número de investidas e valor do portfólio.
Detalhe: essa história começou antes da Stone.
Os primeiros investimentos de Street aconteceram em 2010, depois da venda da Braspag – sua primeira empresa de pagamentos – e antes da fundação da Stone, em 2012. Entre as apostas daquela época estavam outras duas startups de pagamentos: a Moip e a CloudWalk.
De lá pra cá, Street investiu ou esteve envolvido diretamente em cerca de 40 startups, incluindo nomes como a Brex, Cora, On Running, QI Tech, Enter, Trinus e Livemode. Cerca de 20 delas ainda estão na sua carteira.
Mas chamar Street simplesmente de investidor ajuda pouco a entender o modelo mental que ele criou para apostar em jovens empreendedores e se relacionar com eles.
Em muitos dos negócios, o dinheiro é quase secundário: Street prefere entrar com o próprio tempo. Ajuda os
founders a definir produto, recrutar gente, montar a estratégia comercial, levantar capital e abrir portas com clientes e investidores.
Street entra quase como um “
late co-founder”: não é o fundador principal, mas tenta ocupar um espaço muito maior do que um investidor financeiro – e ganha uma participação na empresa por isso.
“Eu faço esse negócio para me divertir,” Street disse ao
Brazil Journal. “Já trabalhei com caras muito competentes de quem eu não gostava. Não faço mais isso.”
Mas a diversão também precisa dar retorno.
Street busca
startups em que sua participação possa valer pelo menos US$ 20 milhões num prazo de três a cinco anos e que tenham potencial para devolver de 10 a 20 vezes o capital investido.
Em alguns casos, sua participação fica perto de 5%. Quando a relação se aproxima de uma cofundação, pode ultrapassar – bastante – os dois dígitos.
Os cheques podem ser simbólicos. No início, Street chegou a fazer aportes de US$ 50 mil. Hoje, mesmo os investimentos mais relevantes raramente passam de US$ 5 milhões.
“Essa estratégia envolve mais trabalho e menos capital do que as pessoas imaginam,” disse Danilo Kamiji, que trabalha diretamente com Street nas startups.
O curioso é que, apesar dessa vasta carteira, Street diz nem saber exatamente quanto colocou para construí-la.
A pedido do
Brazil Journal, sua equipe tentou reconstruir os números como se todos os investimentos formassem um fundo de
venture capital tradicional.
Hoje, o
net asset value – o valor estimado das participações que ainda estão na carteira – está próximo de US$ 200 milhões.
E isso não inclui o que já saiu. Segundo Danilo, vendas de participações e outras distribuições já superaram outros US$ 200 milhões ao longo dos anos.
O que ninguém consegue reconstruir com precisão é o valor inicialmente investido. Os primeiros cheques foram sendo reciclados: um investimento dava liquidez, o dinheiro financiava o próximo, e o processo se repetia.
“O negócio anda sozinho. As distribuições servem para os reinvestimentos e ainda sobra bastante,” disse Street.
A maneira como ele investe tem muito da maneira como sempre trabalhou.
Street é visto como “obcecado” e “intenso” pelas pessoas que trabalharam com ele. Na construção da Stone, ganhou fama de querer fazer em horas o que normalmente levaria dias – e de cobrar o mesmo ritmo de quem estivesse ao redor.
Ao mesmo tempo, a cobrança raramente vinha acompanhada de gritos. “Vi pessoas muito aliviadas quando saíram da Stone porque a intensidade era muito alta,” disse uma fonte.
Uma das histórias que melhor resume esse estilo foi a compra da operação brasileira da Elavon – um marco para a Stone se tornar a empresa que é hoje.
A oportunidade apareceu quando a Stone ainda era pequena e não tinha dinheiro para bancar a aquisição da operadora de cartões, que era controlada pelo Citibank e pela U.S. Bancorp. Street decidiu avançar mesmo assim – concorrendo com gigantes como o Bradesco e Banco do Brasil.

A transação exigiu levantar capital, lidar com reguladores e reorganizar rapidamente uma empresa que queimava caixa. Segundo uma fonte próxima à negociação, era um processo que poderia durar de seis meses a um ano – mas foi resolvido em 60 dias.
Essa obsessão por execução aparece hoje nas investidas – principalmente quando o assunto é gente.
Na Stone, Street diz ter participado pessoalmente do recrutamento das primeiras mil pessoas. Durante alguns anos, chegou a entrevistar cerca de 900 candidatos por ano.
“As 100 primeiras contratações são fundamentais para você construir a cultura da empresa para a vida inteira,” disse.
Street sempre deu um peso enorme à atitude, energia e alinhamento cultural – e nunca fez muita questão do cargo de CEO.
Mesmo na Stone, ele diz que preferia encontrar gente melhor para operar a companhia, formar executivos e permanecer nos bastidores, perto o suficiente para influenciar as decisões sem precisar administrar a máquina no dia a dia.
Hoje, faz praticamente a mesma coisa com os
founders.
A QI Tech é um dos melhores exemplos. No Natal de 2017, Pedro Mac Dowell mandou um
email para Jorge Paulo Lemann contando sua ideia de criar uma espécie de “AWS do crédito”. Lemann sugeriu que ele procurasse Street.
Street gostou da tese. “Lembro que pensei: onde tem
payments, vai ter crédito,” disse.
Depois apresentou Mac Dowell a Emílio Tressoldi, então um executivo da Stone.
“Ele me falou: ‘está aqui um cara que, se eu fosse montar uma companhia, eu chamaria’,” disse Mac Dowell. Emílio virou cofundador da QI Tech.
Street também indicou cerca de dez profissionais da Stone para a
startup. Hoje Mac Dowell fala com Street de uma a três vezes por semana sobre contratações, estratégia e investidores.
“Ele é muito lúcido com relação aos próximos movimentos que uma companhia precisa fazer, e é um excepcional vendedor,” disse Mac Dowell.

A operação de
venture capital de Street funciona dentro do escritório da LTS – o
family office de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira – mas de maneira independente.
A estratégia é do próprio Street, que toca tudo com Danilo e alguns poucos analistas.
Segundo o investidor, em determinados negócios os sócios e famílias ligados à LTS coinvestem, mas não existe um fundo comum entre eles. Cada um decide negócio a negócio se quer participar.
Muitas vezes Street entra primeiro, quando a empresa ainda é pequena. Conforme o negócio ganha corpo, os cheques maiores do trio do Garantia aparecem.
Foi dessa maneira que ele teve um dos seus maiores acertos: a Brex. Street conheceu Henrique Dubugras e Pedro Franceschi ainda adolescentes, quando a Stone comprou a Pagar.me, fundada pela dupla.
Depois, Street se tornou mentor e investidor de ambos, e apostou novamente quando os dois foram para os Estados Unidos criar a Brex.
Resultado: um retorno de 100x o capital.
Mas, claro, Street também cometeu erros.
O maior deles foi a Sightline, uma startup americana de pagamentos para o mercado de jogos. Street colocou cerca de US$ 2,5 milhões no negócio; hoje, marca a participação a zero.
O problema: “Eu não me conectei com o assunto e não me conectei com o fundador.”
Na Brain, o erro foi diferente. Street colocou cerca de US$ 1 milhão numa boutique de recrutamento e tentou transformá-la numa plataforma digital de RH. Não funcionou.
Depois de cerca de um ano, o investidor concluiu que “não tinha dado liga” e devolveu a companhia ao empreendedor, que retomou o negócio original.
Os dois episódios ajudaram Street a criar uma espécie de
stop loss para o próprio tempo: se a relação não funciona, se o negócio não evolui, ou se ele percebe que não quer passar os próximos anos ao lado daquele empreendedor, prefere cortar cedo.
“Para ele, especificamente, o tempo é um ativo mais escasso que o dinheiro,” disse Danilo.
Street diz acompanhar apenas cinco ou seis projetos de maneira intensa e simultânea.
As manhãs ficam reservadas principalmente para o esporte e a família. Das duas da tarde às sete da noite, entram os
founders.
Danilo ajuda a absorver parte da demanda. Street brinca que Danilo funciona quase como um “psicólogo” dos empreendedores, acompanhando os projetos e seus problemas no dia a dia.
Mesmo com toda essa proximidade, Street evita sentar nos
boards.
“Se eu for para o
board, eu viro meio chefe do CEO,” disse. “Minha relação é uma relação de
coach do CEO: uma espécie de parceiro de vida.”