Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e dos EUA, Donald Trump, discursaram no debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU na manhã desta terça-feira (22). E um tópico em comum entre as falas foi a inteligência artificial (IA).

“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial”, disse Lula.

Já Trump anunciou que seu governo vai deixar de usar o termo “inteligência artificial”. Sai a IA. Entra a SI. A “superinteligência”.

O Olhar Digital repercutiu os discursos dos mandatários com Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação.

‘Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes com grandes riscos e oportunidades’, diz Lula na ONU

Lula disse que a sociedade passa por uma “revolução tecnológica sem precedentes”. E que essa revolução tem “grandes riscos e oportunidades”.

O presidente também disse que “um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital sem regras nem transparência”.

Para Lula, esses “tecno-oligarcas” estão “promovendo uma corrida sem freios éticos, à revelia da ONU e do painel científico sobre inteligência artificial”.

(O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, e o presidente da assembleia, Khalilur Rahman, também falaram sobre IA em seus discursos na abertura da Assembleia.)

“Empresas que conhecem o risco de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”, disse o mandatário.

Lula falou sobre IA, big techs, bets e ECA Digital em discurso na Assembleia Geral da ONU – Imagem: Reprodução/ONU

Ainda na seara tecnológica, o presidente falou sobre bets e a aprovação do ECA Digital.

A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro.

Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em discurso na Assembleia Geral da ONU.

Ainda sobre bets, Lula disse que “a disseminação vertiginosa está endividando e destruindo milhões de lares”. “O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.”

Já sobre a aprovação do ECA Digital, o presidente afirmou que esta é “uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital”.

Lula também defendeu o Pix. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamento pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, disse.

O presidente do Brasil voltou a defender a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos.

Lula disse que “a proximidade geográfica com a maior potência do mundo é inescapável”. Mas frisou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

“O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”, finalizou Lula.

Em seu discurso, o presidente também falou sobre tarifaço e combate ao crime organizado. E defendeu a paz e o multilateralismo.

Assista abaixo ao discurso do presidente Lula na íntegra:

Trump na ONU: ‘Bem-vindos ao mundo da superinteligência’

Trump anunciou, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, que seu governo vai deixar de usar o termo “inteligência artificial” nos documentos. E vai passar a adotar “superinteligência”.

Segundo Trump, a mudança seria mais adequada porque a palavra “artificial” faria parecer que a inteligência produzida pela tecnologia é falsa.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
Trump disse que os EUA ‘rejeitam totalmente’ um sistema global para controlar a IA – Imagem: Reprodução/ONU

É superinteligência. Em outras palavras, bem-vindos ao novo mundo da superinteligência – SI.

Donald Trump, presidente dos EUA, em discurso na Assembleia Geral da ONU.

Trump também afirmou que os Estados Unidos “rejeitam totalmente” qualquer tentativa de construir um sistema global para controlar a inteligência artificial.

Para ele, o desenvolvimento da tecnologia deve continuar, ainda que acompanhado de mecanismos para lidar com eventuais problemas.

“Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a Revolução Industrial”, disse Trump.

O presidente afirmou que os Estados Unidos vão acompanhar o desenvolvimento da tecnologia por meio do Departamento de Justiça e de outras autoridades de aplicação da lei.

Segundo ele, esses órgãos poderão intervir caso seja necessário, mas a orientação geral será incentivar a chamada “superinteligência”, e não restringi-la.

Ao falar sobre a disputa tecnológica, Trump afirmou que os Estados Unidos atualmente lideram a área de “superinteligência” e continuarão nessa posição.

“Quem vencer a SI, quem vencer a superinteligência, vence”, declarou.

Ilustração sobre a corrida entre China e Estados Unidos no setor da inteligência artificial (IA)
Trump falou sobre a disputa dos Estados Unidos com a China em seu discurso – Imagem: QQMinh88/Shutterstock

O presidente também disse que os Estados Unidos estão à frente da China “por muito” e que seu governo pretende manter essa vantagem.

Trump também criticou pessoas que alertam para possíveis riscos associados ao avanço da inteligência artificial.

Segundo ele, os mesmos grupos que fizeram previsões sobre os efeitos das mudanças climáticas agora afirmam que a IA poderia causar uma catástrofe.

O presidente citou especificamente previsões de que a IA poderia “matar todos”, além de afirmações de que robôs poderiam atacar seres humanos.

Em seguida, associou essas preocupações a outras controvérsias políticas que classificou como “hoaxes”, termo usado em inglês para se referir a farsas ou informações falsas apresentadas como verdadeiras.

Apesar das críticas, Trump reconheceu que a tecnologia apresenta desafios. “Toda grande nova tecnologia traz desafios, e a superinteligência não é exceção”, afirmou.

Ao final do trecho dedicado ao tema, o presidente declarou que os Estados Unidos lideram o mundo em “superinteligência” e que continuarão fazendo isso de maneira “segura e responsável”.

Assista abaixo ao discurso de Trump na íntegra:

Discursos de Lula e Trump ‘usam os mesmos mecanismos de retórica’, diz especialista

Ao entrar no tema multilateralismo, Lula caracteriza como algo desgastado nos últimos tempos. “Ele coloca multilateralismo versus unilateralismo, isolamento ou subordinação, apresentando contrapontos”, analisa Arthur Igreja.

O presidente brasileiro também disse ver a ONU fragilizada. Lula, que, de 2003 para cá, participou de dez edições da assembleia, afirmou nunca ter visto a instituição tão frágil quanto agora.

Para o mandatário, a ONU precisa se fortalecer para endereçar temas como o avanço da IA.

Presidente Lula
Lula levou à Assembleia Geral da ONU a posição brasileira sobre regras para IA e proteção de dados – Imagem: Reprodução/ONU

Do lado de Trump, seu discurso “acaba usando os mesmos mecanismos de retórica”, analisa o especialista.

“É um mecanismo de contraste. O bom e o ruim. O escuro e o claro”, diz Igreja.

O especialista continua: “Trump fala que os EUA viviam um período de dificuldade e que agora vivem uma época de ouro. Diz que muitos prometiam a paz e afirma: ‘Eu fiz a paz e encerrei oito guerras’.”

Trump também disse que seu país nunca esteve num momento de tamanha potência. “E aí se conecta com o tema da tecnologia, falando justamente sobre o desenvolvimento e os avanços da inteligência artificial nos EUA”, diz Igreja.

“Essa fala vem num momento em que Trump vive uma crise de popularidade que precede as eleições de meio de mandato”, acrescenta o especialista.

Grande parte do discurso de Trump não foi sobre tecnologia. Na verdade, ele usou a tecnologia para ancorar o argumento do desenvolvimento, da potência.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, em entrevista ao Olhar Digital.

Por fim, Igreja observa o seguinte: “Os temas relacionados à tecnologia foram enfatizados como importantes e relevantes. Mas não foram temas centrais em ambos os discursos.”

O post Análise: Lula e Trump não poderiam ser mais opostos quando falam de tecnologia apareceu primeiro em Olhar Digital.