Uma sequência de ameaças de bomba contra aviões comerciais colocou aeroportos e forças de segurança da Europa em alerta nesta semana. Mais de 30 voos foram afetados desde segunda-feira (2), com pousos de emergência, interrupções temporárias de operações e mobilização de caças militares. Até agora, nenhuma das inspeções identificou explosivos.
A dimensão dos incidentes levantou suspeitas de uma possível campanha coordenada para provocar transtornos no transporte aéreo europeu. Autoridades investigam a origem das mensagens, mas ainda não estabeleceram se os episódios estão relacionados nem identificaram seus responsáveis.

Quatro novas ameaças de bomba são feitas contra aviões que sobrevoavam França
Todas as aeronaves pousaram em segurança e equipes de desativação de bombas estão realizando inspeções

Nova onda de alertas falsos de bomba atinge dezenas de voos em toda Europa
Nenhum governo revelou quem estaria por trás das ameaças, e nenhuma reivindicação de responsabilidade foi confirmada
Segundo a agência Reuters, quase 30 voos receberam ameaças somente na quinta-feira (5), depois de pelo menos sete ocorrências semelhantes na terça-feira (3). Novos alertas foram registrados nesta sexta-feira (6), incluindo quatro aeronaves que sobrevoavam o território francês.
O episódio ocorre em meio ao aumento das preocupações europeias com ações de sabotagem e operações de desestabilização atribuídas a agentes estrangeiros. Especialistas, porém, alertam que a proximidade entre os casos ainda é insuficiente para determinar sua origem.
Quais aviões foram atingidos?
Um dos casos de maior repercussão envolveu um Airbus A320 da Aer Lingus que viajava de Dublin, na Irlanda, para Roma, na Itália. Após receber uma ameaça, a aeronave foi interceptada por caças franceses e desviada para a base militar de Évreux, a oeste de Paris.
Na Itália, um avião da Finnair que seguia de Helsinque para Roma recebeu escolta militar. Na Bulgária, três aeronaves da Ryanair procedentes de Madri, Copenhague e Londres também foram acompanhadas por caças até o pouso. Uma delas precisou ser redirecionada para Plovdiv.
As ocorrências alcançaram ainda voos com destino a Varsóvia, Praga, Milão, Bucareste e Viena, envolvendo companhias como LOT, Wizz Air, Aegean Airlines e SAS.
Na Polônia, o aeroporto de Modlin chegou a suspender temporariamente as operações para permitir a inspeção de uma aeronave. Na República Tcheca, a polícia realizou verificações em diferentes voos que chegavam a Praga.
Nesta sexta-feira, a Associated Press relatou novos alertas na França, na Dinamarca, em Portugal e na República Tcheca. Um voo da Wizz Air entre Praga e Roma foi desviado para Veneza, onde passageiros desembarcaram para procedimentos de segurança.
Todos os aviões envolvidos nas ocorrências relatadas pelas autoridades pousaram em segurança.
Quem está por trás das ameaças?
Uma das principais pistas investigadas é o conteúdo de mensagens enviadas por e-mail a aeroportos e companhias aéreas.
Segundo a Reuters e a agência France-Presse (AFP), alguns dos alertas recebidos na Itália e na Bulgária foram assinados por supostos integrantes de um grupo identificado como Male State, ligado a um movimento antifeminista de origem russa.
As mensagens continham ameaças de explosões e manifestações contra mulheres e o que os autores chamavam de regime feminista.
O movimento Male State foi criado em 2016 pelo blogueiro russo Vladislav Pozdnyakov e posteriormente proibido na Rússia. Procurado pela Reuters, Pozdnyakov afirmou que o grupo deixou de existir e negou qualquer envolvimento nos episódios.
A autenticidade da reivindicação não foi comprovada. As autoridades também não estabeleceram se os e-mails foram enviados pelos mesmos responsáveis ou se o nome do movimento foi utilizado por terceiros.
Até o momento, nenhum governo europeu atribuiu formalmente a autoria das ameaças a um país ou organização.
Há suspeita de envolvimento da Rússia?
A possibilidade de uma operação de desestabilização ganhou atenção porque os alertas ocorreram simultaneamente em diferentes países, atingindo companhias e aeroportos sem uma concentração evidente em uma única rota.
Especialistas em segurança ouvidos pela Reuters afirmaram que o padrão é compatível com algumas características de ataques híbridos, expressão utilizada para descrever ações que buscam prejudicar o funcionamento de serviços, instituições ou infraestruturas sem recorrer necessariamente a um confronto militar convencional.
Essas operações podem envolver sabotagem, ataques cibernéticos, desinformação e ameaças destinadas a provocar gastos de segurança, interrupções de serviços e instabilidade.
Desde o início da guerra na Ucrânia, governos europeus acusam a Rússia de participar de diferentes episódios de sabotagem e operações híbridas. Moscou rejeita essas acusações.
O histórico, entretanto, não permite concluir que o governo russo esteja envolvido nas ameaças contra os aviões desta semana. A Reuters destaca que também são consideradas hipóteses envolvendo indivíduos isolados, pessoas motivadas por questões particulares ou imitadores que passaram a reproduzir os primeiros alertas.
Por que ameaças falsas causam tanta mobilização?
Mesmo quando não há explosivos, uma ameaça considerada potencialmente crível exige procedimentos de segurança que podem afetar diversos aeroportos.
As companhias precisam avaliar a possibilidade de desvio, enquanto autoridades policiais e militares podem determinar o isolamento da aeronave, o desembarque dos passageiros e a inspeção de bagagens.
Em determinadas situações, caças são acionados para acompanhar o avião e garantir que ele siga as orientações das autoridades responsáveis pelo espaço aéreo.
O procedimento pode interromper pousos e decolagens, atrasar conexões e deslocar aeronaves e tripulações para aeroportos diferentes dos originalmente previstos.
A quantidade de alertas registrados em poucos dias aumenta o impacto operacional, sobretudo quando vários países precisam mobilizar equipes de segurança ao mesmo tempo.
Para o setor aéreo, os episódios também criam custos adicionais com combustível, inspeções e reorganização de voos, embora ainda não exista uma estimativa consolidada das perdas provocadas nesta semana.
O que ainda precisa ser esclarecido?
As investigações procuram identificar a origem dos e-mails, verificar possíveis conexões entre os alertas e determinar se houve planejamento conjunto.
As autoridades também precisam esclarecer por que alguns destinos, especialmente na Itália, Bulgária e República Tcheca, apareceram repetidamente entre os alvos.
A sequência de incidentes ocorre às vésperas de reuniões de líderes europeus em Dublin, na Irlanda. Nesta sexta-feira, a sede da emissora pública irlandesa RTÉ também foi evacuada após uma ameaça de bomba, segundo a Associated Press. A polícia informou que apura alertas dirigidos a organizações de mídia.
Apesar das suspeitas de coordenação, os investigadores ainda não divulgaram provas que vinculem essas ocorrências aos alertas contra aeronaves.
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