A Framework Digital concluiu em 68 dias corridos um projeto de modernização de software inicialmente estimado em sete meses, utilizando agentes de inteligência artificial (IA) para automatizar etapas do desenvolvimento. O trabalho, realizado para uma instituição de ensino, envolveu 445 tarefas de desenvolvimento e entrou em produção em outubro, segundo a companhia.

O caso foi apresentado por Felipe Horta, head de Low-Code da Framework Digital, e Rafael Bonaldi, especialista em IA da empresa, durante o IT Forum na Mata no Distrito Itaqui, na Grande São Paulo.

A iniciativa envolveu a migração de uma aplicação desenvolvida em uma plataforma low-code para uma arquitetura baseada em React e microsserviços. Segundo os executivos, o projeto exigia preservar a disponibilidade dos serviços utilizados pela instituição durante a modernização.

A execução utilizou uma esteira de desenvolvimento com agentes de IA, capaz de realizar atividades de programação, revisão de código e testes em diferentes etapas do projeto. A companhia afirma que o processo permitiu reduzir o tempo de entrega sem contar com um desenvolvedor dedicado exclusivamente à programação.

“O projeto tinha um tempo de sete meses para ser desenvolvido no modelo tradicional e fizemos isso dentro dessa esteira automatizada em pouco mais de dois meses. Já fomos para produção”, afirmou Bonaldi.

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Agentes executam tarefas durante 24 horas

O projeto utilizou a Symbio.AI, plataforma agêntica desenvolvida pela Framework para atuar em diferentes fases do ciclo de desenvolvimento de software.

O funcionamento parte da integração com ferramentas de gestão de projetos, como Azure DevOps e Jira. A partir das tarefas registradas nessas plataformas, os agentes podem analisar requisitos, identificar informações ausentes, gerar código, realizar verificações e encaminhar atividades para as etapas seguintes.

Em vez de depender exclusivamente da execução sequencial de tarefas por profissionais, a proposta é permitir que diferentes atividades sejam processadas simultaneamente. Os agentes também podem devolver demandas para revisão quando identificam problemas ou informações insuficientes.

No projeto apresentado, a Framework registrou um pico de 82 tarefas de desenvolvimento concluídas em um único dia. Ao todo, foram 445 tarefas ao longo da modernização, segundo os dados divulgados pela companhia.

“Esses 68 dias são corridos, porque, nesse caso, a esteira não trabalha só oito horas por dia. Ela não tem feriado nem final de semana”, explicou Bonaldi.

A operação contínua permitiu que tarefas fossem executadas durante a noite e nos fins de semana, enquanto as equipes humanas permaneciam responsáveis pelas aprovações e verificações necessárias.

Bonaldi relatou que os profissionais passaram a adaptar suas rotinas ao funcionamento dos agentes, concentrando a preparação e a homologação de demandas nos períodos em que estavam disponíveis para trabalhar.

A empresa não apresentou uma comparação detalhada dos custos totais entre o modelo automatizado e a estimativa convencional, nem indicadores independentes de qualidade do software após a entrada em produção.

Automação exige revisão humana

Apesar da execução automatizada, a Framework afirmou que o projeto manteve etapas de validação humana, especialmente nas atividades relacionadas à aprovação de código e à liberação das entregas.

A plataforma permite estabelecer regras diferentes para cada projeto, incluindo exigências de segurança, qualidade e conformidade. Dessa forma, determinadas tarefas podem avançar automaticamente, enquanto outras dependem da autorização de profissionais responsáveis.

“Tem um agente que faz, tem um agente que valida, tem um agente diferente para cada uma dessas etapas, exatamente para não criar um vício no cenário”, explicou Bonaldi.

No projeto de modernização, o executivo atuou como product builder, função que reúne responsabilidades de acompanhamento técnico e compreensão das necessidades do negócio. Segundo a empresa, esse profissional trabalhou em conjunto com os agentes, sem a presença de um programador dedicado exclusivamente ao desenvolvimento.

A ausência de um desenvolvedor dedicado, porém, não significa que o projeto tenha sido executado sem participação humana. A apresentação mencionou profissionais responsáveis por homologação, avaliação de entregas e decisões necessárias para o avanço das tarefas.

Testes podem limitar ganhos de produtividade

A experiência também serviu para ilustrar um problema identificado pela Framework em outros projetos: o aumento da velocidade de programação nem sempre é acompanhado por ganhos equivalentes nas etapas de revisão e testes.

Segundo Horta, a utilização de IA pode ampliar o volume de código produzido, mas o resultado final fica comprometido quando as equipes responsáveis pela validação não conseguem acompanhar esse ritmo.

“Estou ganhando no desenvolvimento, mas chega ao QA e fica semanas parado. Ele devolve um bug, corrijo esse bug em minutos, volta para o QA e fica mais algumas semanas. Tudo que ganhei na etapa de desenvolvimento foi diluído nas outras etapas”, exemplificou.

QA, sigla para Quality Assurance, corresponde às atividades de garantia de qualidade do software, incluindo verificações destinadas a identificar falhas antes da disponibilização das aplicações.

Para enfrentar esse gargalo, a Framework afirma ter desenvolvido ferramentas de automação que atuam desde a definição das tarefas até os testes e a preparação para implantação.

A proposta também contempla a modernização de sistemas legados, uma demanda recorrente nas organizações que precisam atualizar aplicações antigas sem interromper operações ou comprometer regras de negócio.

Resultado ainda depende de avaliação mais ampla

O caso apresentado pela Framework demonstra uma redução expressiva no prazo de um projeto específico, mas não permite concluir que o mesmo desempenho possa ser reproduzido em qualquer modernização de software.

O tempo necessário para esse tipo de iniciativa depende de fatores como a complexidade da aplicação original, a qualidade da documentação, a quantidade de integrações, as exigências de segurança e o esforço de validação.

No projeto relatado, a estimativa de sete meses corresponde ao prazo previsto para a execução pelo modelo tradicional, enquanto os 68 dias representam o período efetivamente registrado com a esteira automatizada. Não se trata, portanto, de uma comparação entre duas implementações concluídas do mesmo sistema.

A companhia também não detalhou publicamente, durante a apresentação, os custos da operação dos agentes nem os indicadores de desempenho do sistema em produção.

Ainda assim, os resultados apresentados apontam para uma mudança na forma como projetos de software podem ser organizados: com agentes executando atividades continuamente, a capacidade de especificar requisitos, supervisionar entregas e validar resultados passa a ter maior influência sobre a velocidade de conclusão.

Para as lideranças de TI, a experiência coloca em discussão não apenas quanto código a IA consegue produzir, mas como integrar essa capacidade às demais etapas necessárias para entregar sistemas funcionais e seguros.

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