A promessa da inteligência artificial sempre foi fazer mais com menos esforço. Até agora, porém, só a primeira parte se cumpriu. É o que aponta a primeira edição do relatório State of the Industry, divulgada pelo Web Summit em primeira mão para o Startups.
Segundo o estudo, 59% dos profissionais de tecnologia ouvidos afirmam que as ferramentas de IA aumentaram sua carga de trabalho. Só 20% relatam alívio, e outros 20% não sentiram diferença.
O levantamento ouviu 1.455 fundadores, investidores, engenheiros e criadores da comunidade do evento, em todas as regiões do mundo, entre julho e agosto. A amostra pende para quem constrói produtos, justamente o grupo que adotou a IA primeiro. Na prática, a IA já está espalhada pela rotina: os entrevistados usam, em média, 2,3 fornecedores de IA, e 43% recorrem a três ou mais.
A sobrecarga pesa mais em quem está perto da tecnologia. Entre profissionais de infraestrutura de IA e machine learning, 70% dizem trabalhar mais. Em SaaS e software empresarial, são 68%; em hardware e IoT, 67%. Por função, engenharia e produto lideram (64%), seguidos pelos fundadores (63%). Os investidores, que acompanham a operação de longe, sentem menos: 42%.
Um engenheiro europeu ouvido na pesquisa resume a lógica: a IA acelera a produção e, com isso, sobe a expectativa sobre quanto a equipe consegue entregar. Ou seja, o ganho de produtividade vira meta nova.
Expectativas
Para 42% dos entrevistados, o futuro reserva times menores entregando mais. Entre fundadores, a fatia chega à metade. Só 9% esperam equipes maiores.
O efeito aparece com mais clareza na base da pirâmide. Também 42% acreditam que suas empresas terão menos vagas de entrada nos próximos dois anos, percentual que sobe para 50% no C-level e para 58% entre investidores. Os estudantes enxergam outro cenário: 55% deles esperam mais vagas para iniciantes. A preocupação com o próprio emprego também é maior entre jovens de 18 a 24 anos (45%) do que entre quem tem 55 anos ou mais (32%).
No saldo geral de vagas, o setor segue dividido. No mesmo período, 39% esperam crescimento em sua área, 33% preveem encolhimento e 28%, estabilidade.
Apesar do volume de trabalho, o sentimento dos entrevistados em relação à IA segue positivo. 55% dizem que a tecnologia fortalece seu pensamento crítico, contra 26% que veem o efeito oposto. O otimismo cresce com a idade: 71% entre quem tem 65 anos ou mais, 48% na faixa de 18 a 24. Os engenheiros são os mais céticos, com 37% afirmando que a IA enfraquece seu raciocínio.
Na América Latina, o entusiasmo é ainda maior: cerca de 70% dos entrevistados da região dizem que a IA fortalece seu pensamento crítico, contra 49% na Europa. Ainda assim, quem está por aqui também vê riscos. “O maior risco da IA não é a automação em si, mas criar uma dependência psicológica que desestimule as pessoas a pensar criticamente, aprender continuamente e se reinventar”, diz um fundador de healthtech latino-americano ouvido na pesquisa.
Para Nidhi Naithani, vice-presidente sênior de operações de tecnologia do Web Summit, o ceticismo dos engenheiros, que também são os mais preocupados com a segurança no emprego, pode parecer contraditório, mas tem explicação. “Como engenheiros e fundadores geralmente são os construtores e os primeiros a adotar essas tecnologias, eles costumam ter a melhor compreensão e um lugar na primeira fila para ver seu impacto”, afirma.
A executiva defende o uso da IA, mas com equilíbrio. “O importante, para mim, é encontrar formas de usar a IA de maneira inteligente para aumentar a produtividade sem ficar dependente demais dela”, diz. Segundo Naithani, isso vale principalmente para os desenvolvedores juniores, que precisam aprender o ofício num momento em que a IA já consegue construir coisas do zero. “Precisamos pensar com cuidado em como desenvolvemos jovens talentos, ou todos vamos perder algo.”
O post A IA veio para poupar trabalho? Pesquisa do Web Summit mostra o contrário apareceu primeiro em Startups.

