Depois das eleições de 2026 acredito que ninguém mais discuta o papel de protagonismo exercido pelas plataformas digitais. Os sinais já estavam no ar para quem quisesse ver desde 2018, mas agora estão escritos em letras maiúsculas e garrafais, em negrito, brilhando no escuro e com audiodescrição para acessibilidade.
Para a surpresa de velhos caciques analógicos da esquerda, alguns dos deputados federais mais bem votados em seu campo ideológico foram neófitos em seus partidos, Ana Elisa (PT-MG), Guilherme Cortez (PSOL-SP) e Rick Azevedo (PSOL-RJ). Os três “nasceram” nas redes sociais e nelas concentraram suas campanhas.
O fato de Lula, o maior líder político de todos os tempos da esquerda brasileira, ter ganhado o seu primeiro celular aos 81 anos, na semana que antecedeu o segundo turno da eleição presidencial, ilustra a negligência (ou arrogância) com a qual a esquerda tratou a disputa eleitoral nas plataformas digitais na última década.
A direita, ao contrário, desbravou primeiro esse espaço. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 teve grande influência da militância de seus apoiadores na web. Esse trabalho continuou em 2022 e em 2026, com a eleição recorde de deputados e senadores do PL egressos do ambiente digital.
A novidade dessa vez foi o surgimento de uma nova figura na campanha, a do animador de militância. O deputado federal André Janones (Rede-MG) foi o primeiro a executar essa função. Criou um grupo de WhatsApp, chamado “Exército do Lula”, que conseguiu ao longo das três semanas do segundo turno arregimentar 10,8 milhões de seguidores, se tornando o segundo maior canal do Brasil. Nele, Janones atuava como um “general”, definindo “missões“ para os seguidores realizarem nas plataformas digitais – Instagram, X, Google e WhatsApp. A estratégia deu certo e Lula foi reeleito, contrariando pesquisas de intenção de voto e o tabu de nunca ter havido uma virada no segundo turno presidencial.
A partir de agora, a função de animador de militância será replicada nas próximas eleições no Brasil inteiro e também no exterior. Eduardo Paes foi o primeiro: seu recém criado Exército do Dudu passou de 100 mil seguidores em poucas horas. Paralelamente, a esquerda espanhola teria convidado Janones para ajudá-la nas eleições que acontecerão dia 29 de novembro.
Cabe lembrar que o Exército do Lula foi uma iniciativa espontânea do Janones, desvinculada da campanha oficial do candidato. Mas daqui em diante essa função passará a compor a estrutura oficial das futuras campanhas – o que não impede o surgimento de apoiadores independentes.
Novas regras eleitorais para o ambiente digital
As redes sociais têm o poder de influenciar uma eleição. Por isso, é necessário regulamentá-las para garantir que a disputa nesse espaço aconteça de forma isonômica. Isso significa, por exemplo, uma fiscalização rigorosa do impulsionamento dito “orgânico”, para se certificar de que o algoritmo não esteja atuando de forma enviesada. Um exemplo negativo desta eleição brasileira foi o da funcionalidade de geração de imagens da Meta AI, que criava imagens com o nome e o número de Flávio Bolsonaro, mas se recusava a fazer o mesmo para Lula. Há também suspeitas de um favorecimento velado para alguns influenciadores bolsonaristas no Instagram.
Por fim, cabe uma revisão das regras para propaganda eleitoral gratuita. Não seria o caso de abranger também as redes sociais de alguma forma? Afinal, o eleitor do século 21 passa mais tempo nas plataformas digitais que na TV ou no rádio. A democracia representativa e suas regras eleitorais precisam acompanhar a evolução tecnológica e a transformação da sociedade.

