O lançamento de A Rede Social (The Social Network), lá em 2010, caiu como uma bomba. Chegando aos cinemas no ápice da popularização do Facebook, o filme foi oportuno ao examinar os primórdios da hoje chamada Meta e dissecar a personalidade complicada de Mark Zuckerberg. E não foi apenas isso: dirigido por David Fincher (de sucessos como Seven e Clube da Luta), o longa se tornou um sucesso ao ir bem além de uma cinebiografia padrão, contando a história de forma implacável e sem poupar ninguém no processo.
Dezesseis anos depois, e com a Meta muito mais do que dezesseis vezes maior do que era naquela época, chega outra oportunidade de examinar a big tech, e O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning), que está em cartaz nos cinemas, parecia o filme para isso.
Sem Fincher no comando, mas com o mesmo roteirista (Aaron Sorkin), o longa se dispôs a recontar um momento-chave na história recente da empresa, abordando uma polêmica muito maior do que os dramas pessoais de Zuckerberg e seus sócios há 20 anos. Enfim, apenas parecia.
Material, ele tinha de sobra. O filme analisa, de diferentes pontos de vista, como o algoritmo das redes sociais tem se impregnado na vida dos usuários, moldando o que sentimos e, no limite, como nos comportamos. Não é uma discussão do passado: basta olhar para os ânimos exaltados de qualquer campanha eleitoral recente para perceber que esse efeito segue entre nós.
Diferente de A Rede Social, que no fundo era uma trama sobre ambição, amizade e traição entre um punhado de universitários, aqui o assunto é de interesse geral. Diz respeito a qualquer um com um celular no bolso. Nas mãos de um diretor mais experiente, como o próprio David Fincher, essa discussão poderia ser explosiva, com uma ressonância enorme com o espectador.
Um roteirista atrás das câmeras
O problema é que Sorkin é um grande roteirista, responsável por algumas das maiores séries da história (The West Wing é um exemplo), mas não um grande diretor. Ele já tinha dirigido os bem recebidos A Grande Jogada e Os 7 de Chicago, e ainda assim segue sendo, antes de tudo, um homem do texto. A bem da verdade, um homem do texto até demais.
Em O Outro Lado das Redes, sem alguém como Fincher para frear seu apetite por diálogos de efeito, Sorkin conduz o filme de forma burocrática, preocupado em contar a história, e esquece o principal, que é fazer o público sentir o peso dela. A gravidade do tema está toda no papel, mas raramente chega à tela.
A trama se divide em dois núcleos. No principal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White, de O Urso), repórter do Wall Street Journal, se aproxima de Frances Haugen (Mikey Madison, de Anora), engenheira do Facebook disposta a expor os segredos da empresa, mesmo que isso lhe custe o emprego.
Em certos momentos, a parte “thriller jornalístico” do longa funciona, especialmente quando mostra o clima de paranoia entre os funcionários da Meta, orientados pelos superiores a não tocar em assuntos delicados no trabalho e a não levantar os problemas éticos negligenciados em prol de “um produto melhor”.
É uma tentativa válida de remeter a clássicos do jornalismo investigativo no cinema, como Todos os Homens do Presidente ou o mais recente Spotlight. Os elementos estão lá: as reuniões tensas, os encontros secretos, os documentos sobre a mesa, a fonte com medo. Mas é tudo correto, tudo previsível e, justamente por isso, decepcionante para um filme com um tema desse tamanho.
A outra parte do filme é ainda mais frustrante. Em paralelo, acompanhamos Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) ensaiando as respostas que daria ao Congresso norte-americano sobre as acusações envolvendo o algoritmo do Facebook, e reagindo em tempo real a novas denúncias publicadas por Horwitz.
Confesso que estava animado para ver Jeremy Strong (o Kendall de Succession) como um Zuckerberg mais maduro e livre dos tiques neuróticos de Jesse Eisenberg em A Rede Social. Entretanto, ao mirar no Zuckerberg “robótico”, Strong parece mais preocupado em acertar a imitação do fundador da Meta do que em trazer nuance ao personagem. Salvo alguns momentos em que ele trava diálogos acalorados com um conselheiro (o comediante Bill Burr, perfeito na acidez), é uma interpretação que não consegue abrilhantar o longa.
Me atrevo a dizer que, se ficasse apenas com a investigação, sem o “núcleo Zuck”, O Outro Lado das Redes poderia até ser um filme melhor. Mas né, como fazer um filme sobre o Facebook sem ter “o cara” nele? O resultado são duas histórias entrecortadas, que deveriam somar em um argumento maior, mas nunca fecham a conta.
No meio disso tudo, quem se perde é a crítica social. Contado com tão pouca urgência, o filme não envolve o espectador tanto quanto poderia, ou deveria. A impressão é de estar assistindo a um daqueles “baseado em fatos reais” que passam no Supercine: assistível, competente e esquecido no domingo de manhã.
Por falar em Supercine, o filme chega ao cúmulo de terminar do jeito mais formulaico possível, com uma tela congelada safada e aqueles letreiros contando o destino de cada personagem. É como se Sorkin admitisse que, no fundo, fez um longa com cara de telefilme. Ei, nada contra obras para a TV — inclusive, a obra-prima de Sorkin, a série The Newsroom, tá lá no HBO.
No fim, O Outro Lado das Redes é uma grande oportunidade desperdiçada. O roteiro não é tão afiado quanto se espera de Sorkin, a direção não encontra formas criativas de dar corpo à trama, e até o que poderia jogar a favor, como as atuações, fica no ok: dignas, mas longe de brilhantes.
Com outro diretor no comando, poderia ter sido um grande filme. Do jeito que está, ficou pelo meio do caminho. E, com certeza, não vai ser lembrado da mesma forma que A Rede Social é lembrado até hoje.
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