Ao contar como nasceu o Zabbix, plataforma de monitoramento de código aberto, Alexei Vladishev recorre a uma autodefinição pouco comum para quem comanda uma empresa internacional. “Devo ser um sujeito preguiçoso”, diz.

A preguiça, no caso, tinha endereço. Foi no primeiro emprego depois da faculdade, como administrador de sistemas em um banco comercial de Riga, na Letônia. Vladishev cuidava de grandes bancos de dados, como Oracle, DB2 e Informix, e de máquinas Unix. Queria automatizar o trabalho. Começou com roteiros automatizados (scripts) que rodavam de tempos em tempos para verificar se os bancos estavam saudáveis e se havia espaço em disco.

A relação com a tecnologia vinha de antes. Na infância, o interesse eram a matemática, a física e a astronomia. O computador veio depois e o fisgou rápido. Segundo ele, começou a programar ainda na escola, em um ZX Spectrum. “Eu podia dizer ao computador o que fazer, e ele fazia algo por mim. Era realmente incrível”, conta.

O fundador e CEO da Zabbix formou-se em Ciência da Computação, e foi assim, afirma, que entrou na área de tecnologia da informação (TI). A graduação foi na Universidade da Letônia.

Do FreeBSD ao código aberto

O encontro com o código aberto veio pelo sistema operacional FreeBSD e, depois, pelo Linux. Vladishev diz que se encantou com a comunidade, diferente do software corporativo que usava no trabalho, em máquinas Unix de grande porte, como HP-UX e AIX.

“Era um mundo completamente diferente, construído sobre princípios diferentes, como transparência, abertura e disposição para compartilhar os resultados do trabalho”, explica.

O sistema de monitoramento que ele passou a desenvolver em outro emprego ainda não tinha nome. Vladishev conta que trabalhou nele por quase quatro anos, a partir de 1998. Em 2001, decidiu lançá-lo como produto de código aberto.

Um passatempo que ganhou usuários

Vladishev diz que nunca imaginou uma empresa global. Classifica o projeto como um passatempo: pequeno, pouco avançado, útil para ele. “Eu não tinha ideia de que seria útil para outras pessoas”, afirma.

A percepção mudou com a abertura do código. Passaram a chegar mensagens de usuários que agradeciam pela ajuda. “Isso me motivou a continuar”, lembra.

A Zabbix SIA foi criada em 2005. Hoje, a empresa tem sede em Riga e escritórios nos Estados Unidos, no Brasil, no México, no Japão e na França.

Na explicação de Vladishev para esse crescimento, a comunidade ocupa o centro. Ele cita a diversidade de setores e de empresas representadas no Zabbix Summit*, em Riga. “A comunidade é tudo. Absolutamente tudo”, resume.

Engenheiro antes de empresário

Há um traço que Vladishev faz questão de reforçar. “Não sou empresário. Sou CEO da empresa, mas, no coração, sou engenheiro”, diz. Para ele, as decisões de negócio ficam em segundo plano diante da pergunta que o move: como fazer um produto melhor e mais útil para usuários e clientes.

O modelo comercial nasce dessa lógica. A empresa constrói software e o distribui de graça. Vladishev reconhece que, para muita gente, a conta não fecha. “Do ponto de vista dos negócios, não faz sentido”, diz, ao relatar o que costuma ouvir.

Sua resposta é que a Zabbix encontrou um equilíbrio. O produto é gratuito e de código aberto, e a receita vem de serviços comerciais: assinaturas, treinamentos e consultoria. Ele avalia que a empresa foi bem-sucedida também do ponto de vista dos negócios, sem apresentar números na conversa.

No palco do Zabbix Summit, o desenho reapareceu em termos de preço: assinatura fixa, sem cobrança por número de dispositivos, de hosts ou de usuários.

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O que ele quer que fique

Perguntado sobre o que gostaria que as pessoas lembrassem de seu trabalho, Vladishev diz que nunca pensou no assunto. Mas tem uma resposta. “Gosto do fato de o Zabbix fazer diferença, às vezes até na vida das pessoas, de forma muito direta”, afirma.

Conta que muitos já lhe disseram que o produto os ajudou a se tornar bons engenheiros e a construir carreira. E descreve a função do sistema em exemplos do cotidiano: verificar se o transporte funciona e os ônibus chegam, se o sistema bancário está disponível, se o tráfego aéreo segue sem interrupções.

“Se algo não estiver funcionando, o Zabbix avisa imediatamente”, explica.

É uma conclusão coerente com a origem. O administrador que queria deixar de conferir à mão se os bancos de dados estavam de pé criou uma ferramenta que faz uma promessa parecida: a máquina vigia, e a pessoa só é chamada quando algo falha.

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*A jornalista viajou a Riga, na Letônia, a convite da Zabbix.