Nós estamos consumindo cada vez mais arte feita por inteligência artificial e não nos damos conta. A distinção já foi mais fácil. Outro dia vi um depoimento no Instagram de uma mulher assombrada porque estava há meses escutando uma artista no Spotify que julgava ser de carne e osso. Curtia seu timbre de voz e os arranjos. Colocou músicas dela nas suas playlists. Quando foi pesquisar mais sobre sua carreira, descobriu que era uma personagem com obras totalmente criadas por IA.
Eu caí numa dessas, mas em fotografia. Algumas semanas atrás, após um dia de forte ventania no Rio de Janeiro, uma amiga publicou no Instagram uma foto de uma cena incrível na orla de Ipanema: pessoas correndo e cadeiras voando durante a tempestade. A composição, o enquadramento, o desespero nos rostos dos personagens: era uma foto digna de prêmio. Achei que minha amiga era a autora. Fui perguntá-la em mensagem particular. Estava disposto a comprar uma cópia para pendurar na parede. Mas era uma criação com IA. Bastante oportuna e bem escolhida, é verdade, mas inteiramente falsa.
Inteiramente? Aqui quero iniciar a reflexão. A julgar pela minha reação diante da foto e também a de tantas outras pessoas “enganadas” por obras feitas por IA, é plenamente possível sermos tocados por obras “artificiais”. Isso porque, por um lado, elas foram treinadas a partir de obras verdadeiramente humanas, o que lhes resguarda, portanto, ainda que indiretamente, alguma “humanidade”, digamos assim.
Além disso, não se pode descartar o papel do humano responsável pela criação da IA. Porque sempre tem alguém que escreveu o comando, que revisou o resultado e que publicou a obra em alguma plataforma digital. Essa pessoa seria um pouco artista? Um pouco autora? Talvez. No mínimo podemos considerar que se assemelha a um editor de livros ou distribuidor de filmes que tem um papel de curador, decidindo o que deve ser levado ao público ou não. Ou seja, um olhar humano revisa a obra antes de deixá-la ser fruída por outros humanos.
Assim é por enquanto. É plenamente possível que em algum momento nem mais exista esse curador humano. Alguma IA pode fazer esse papel. Um agente de IA pode ser desenvolvido para cuidar da avaliação e da publicação, de forma autônoma, de outras obras feitas por IA. Ok, há ainda um humano por trás desse agente. Mas a relação humana com a obra final vai ficando cada vez mais distante.
Aparentemente, somos capazes de nos emocionar diante de obras artificiais, ou com resquícios de humanidade. Mas isso é verdade enquanto desconhecemos a sua origem. A cantora falsa perdeu a graça para a mulher que gravou o depoimento. Eu desisti de botar a foto na parede de casa ao descobrir que era falsa.
Isso prova que o formalismo não é suficiente. Não basta a imagem ser bonita ou a música agradável. Queremos conhecer o que está por trás: a história do autor e o que o motivou a produzir aquela obra. É assim desde o pós-modernismo: o conteúdo também está fora da obra, fora da forma. Isso não impede de surgirem artistas incríveis se apropriando de IA em seu processo criativo. Só que vamos querer conhecer as suas histórias e motivações.
Não tenho dúvida de que a arte vai sobreviver à IA. Será transformada, será diferente, vai se apropriar da própria tecnologia, e vai continuar existindo. Quiçá, mais forte do que nunca.
