Depois de passar mais de uma década no Itaú e outros 10 anos à frente da Vindi, Rodrigo Dantas passou a olhar para negócios bem diferentes daqueles que marcaram sua carreira. Entre o trabalho como investidor-anjo e a atuação no conselho de empresas, ele se dedica a uma fazenda de café no interior paulista e a um projeto de vinhos brasileiros. Nos últimos anos, também se aproximou de negócios da economia real, cujas histórias o levaram a produzir um documentário sobre empreendedorismo fora do ambiente digital.
A história começou no banco, onde Rodrigo ajudou a criar a área de Empresas do Itaú. Com dois filhos pequenos e um mercado de startups ainda incipiente no Brasil, decidiu deixar o cargo de executivo para empreender em tecnologia. Em 2013, fundou a Vindi, plataforma de gestão de assinaturas e pagamentos recorrentes adquirida pela Locaweb em 2021. No caminho, ele se tornou investidor-anjo e hoje é conselheiro de empresas e fundos como Malga, Crescera Capital, Criatec 4 e Infinity Corretora.
Em 2023, Rodrigo comprou uma fazenda de café desativada em Espírito Santo do Pinhal. Ele descreve o projeto como um laboratório: transformar um negócio parado, em um mercado que não conhecia, em uma operação produtiva. Na região, Rodrigo descobriu a produção de vinhos brasileiros de alta qualidade e testou uma marca própria em parceria com a vinícola L’Origine. O primeiro lote, de 100 garrafas, foi vendido em oito horas.
Nesta edição do 5 Minutos, Rodrigo fala sobre sua trajetória do mercado financeiro ao empreendedorismo, detalha seus projetos na economia real e compartilha sua visão sobre os rumos da inovação no Brasil. Veja, a seguir, os melhores momentos dessa conversa:
O que te motivou a deixar o Itaú para empreender no mercado de startups?
Fiz carreira no Itaú e saí de lá como executivo, mas visualizei uma oportunidade de empreender com a Vindi. Eu tinha dois filhos pequenos e vivia o ambiente de inovação de 2012 e 2013, muito diferente do de hoje. Havia muita oportunidade para empreender em tecnologia, e encontrei uma nos meios de pagamento, especialmente em billing e no processo de cobrança recorrente.
A gente chegou a criar e registrar o termo “economia da recorrência”, que engloba plano, mensalidade e assinatura. No Brasil, 70% do PIB vem de serviços, e boa parte deles envolve mensalidade, plano ou assinatura: conta de luz, conta de água, escola, parcelamento de crédito. Tudo acaba funcionando como um negócio recorrente. Nós nos especializamos nesse modelo, e deu muito certo.
O Itaú foi uma baita escola. Saí de lá com uma casca grossa, especialmente na área comercial, e levei os aprendizados para a cultura da Vindi. Fiquei dez anos à frente da operação, até a venda para a Locaweb, em 2021. Foi uma jornada intensa.
Ao longo desse período, conheci muitos empreendedores incríveis e acabei me tornando, sem querer, investidor-anjo. Talvez eu seja melhor investidor do que empreendedor. Investi em startups de amigos próximos que deram muito certo e aprendi bastante com essas experiências. No meio do caminho, encontrei uma forma de investir em inovação desde a sua origem.
Você comentou que talvez seja melhor investidor do que empreendedor. O que aprendeu sobre investir em startups ao longo dos anos?
Montei um playbook. Só invisto em pessoas de quem eu gosto, com quem consigo sentar à mesa e ter uma relação fora do trabalho. No passado, investi em pessoas que não tinham essa aderência comigo e foi muito ruim.
Também tem um pouco de feeling para o tipo de negócio. No Itaú, visitei fisicamente mais de mil empresas, de padarias a grandes indústrias, frigoríficos e grupos financeiros. Cheguei a cuidar de uma carteira de tecnologia, quando o modelo de startup estava começando no Brasil. Aprendi muito sobre o lado do empresário diverso.
Levei os aprendizados para a Vindi e isso moldou a minha visão sobre que tipo de negócio gera um maior retorno. Startup é um negócio de alto risco. Esse histórico me ajudou a virar um bom gestor de portfólio.
Café, vinho, pagamentos, documentário. Existe uma tese de investimento por trás das suas empreitadas?
Foi um pouco de give back. Eu conhecia muitos empreendedores digitais e de tecnologia e, depois de 20 anos me relacionando com esse perfil, comecei a ficar um pouco estafado. O e-commerce e o digital aparecem muito na mídia, mas quem constrói o Brasil está no meio da rua. Foi quando decidi olhar mais para a economia real, que é o que sustenta o país de fato.
Foi nesse contexto que investi na Kiro, marca de drinks não alcóolicos para adultos, ao conhecer os empreendedores e notar que havia uma tese de impacto social envolvida. Passei a investir em ativos mais tangíveis. Comprei imóveis e, depois da saída da Vindi, me relacionei com mais empresários da economia real.
A ideia do documentário veio um pouco disso, mas também de uma experiência que começou em 2023, quando comprei uma fazenda de café desativada. Foi um laboratório: pegar um negócio parado, em um mercado que eu não conhecia e reconstruí-lo do zero para transformá-lo em uma empresa. Esse foi o maior desafio dos últimos três anos, trabalhando para tornar a fazenda produtiva e criar perspectivas para que ela seja uma grande pagadora de dividendos.
Juntei essas experiências às histórias das pessoas da economia real que conheci e decidi fazer um documentário para contar suas trajetórias. Existem muitos casos interessantes de negócios que movimentam o Brasil em menor escala, com menos impacto individual, mas que também são importantes para o país.
Quando fui para Espírito Santo do Pinhal com a fazenda de café, descobri a produção de vinhos na região. O setor virou uma espécie de corrida do ouro, impulsionada por vinícolas premiadas. Cheguei lá por causa do vinho e acabei conhecendo as vinícolas locais.
O mercado de vinho no Brasil e no mundo funciona muito com importação e depende bastante de sommeliers e restaurantes. As pessoas vão a Espírito Santo do Pinhal para visitar as vinícolas, conhecer os produtores, se hospedar na região e beber vinho nos próprios vinhedos, mas São Paulo ainda não sentia esse impacto. Então, fiz o movimento inverso e comecei a ajudar os produtores a levar seus vinhos para a capital do estado.
Descobri uma grande lacuna: pessoas que moravam em São Paulo e entendiam de vinho, entre amigos e conhecidos, não conheciam Espírito Santo do Pinhal. Comecei a fazer degustações às cegas para mostrar a qualidade dos vinhos da região. Testei os rótulos com pessoas que gastam milhares de reais por mês com a bebida, e ninguém imaginava que eram brasileiros. Achavam que eram franceses ou italianos. Pensei: tem negócio aqui.
Ajudar os produtores, porém, é um trabalho de longo prazo, e o vinho brasileiro enfrenta uma questão tributária importante. Vinhos argentinos e chilenos chegam ao Brasil muito mais baratos por causa dos impostos. Para nós, brasileiros, comprar vinho nacional acaba saindo mais caro do que comprar rótulos argentinos, chilenos ou uruguaios.
Decidi, então, criar uma marca, inicialmente como um teste. Acompanhei o produtor durante anos, conheci o terroir, a família produtora e sua história. A vinícola parceira, a L’Origine, é a primeira da região. São pessoas que produzem vinho há 40 anos e o produto tem qualidade e procedência extraordinárias. Identificamos uma oportunidade de vender vinho brasileiro de uma forma diferente.
Fizemos o teste com amigos próximos e vendemos 100 garrafas em oito horas. Foi uma loucura. Esperávamos um negócio mais cadenciado, mas eu e minha esposa passamos o dia respondendo a mensagens no WhatsApp, a ponto de precisarmos controlar a demanda. Foi um lançamento muito exclusivo, com 100 garrafas de uma parcela específica do vinhedo que conhecemos.
Esse foi o projeto-piloto para transformar a marca em uma referência em vinhos brasileiros que explore não apenas uma vinícola, mas também a descoberta de novos produtores. Posso ir ao Sul, por exemplo, encontrar um produtor que faça 300 garrafas por ano e fechar um acordo com ele. A proposta tem muito a ver com exclusividade e descoberta.
Você tem uma regra de nunca mais trabalhar 14 horas por dia. Como é sua rotina atualmente?
Confesso que sou desorganizado, de verdade. Não tenho uma rotina em que, todos os dias, às sete horas, faço determinada coisa. Talvez por ter passado 14 anos no Itaú e dez na Vindi, seguindo uma rotina intensa de estar lá todos os dias, cumprir horários e participar de eventos e reuniões, hoje dê mais liberdade ao meu tempo.
Acho que é por isso que ainda não voltei a ser executivo nem empreendedor de startup. Hoje consigo decidir como serão minhas semanas e meus dias. Dedico muito mais tempo à saúde, a cuidar de mim e da minha família.
Como conselheiro, sou muito mais consultivo do que aquele profissional que participa de assembleias, acompanha as atas e fica perguntando sobre balanços.
Meu WhatsApp é um caos. Tem gente da fazenda me fazendo perguntas, empreendedores pedindo ajuda e eu marcando reuniões para discutir contratações-chave que eles farão. Mesmo assim, consigo me organizar um pouco.
Em uma autoanálise, percebo que hoje prefiro não ter uma rotina muito rígida durante a semana. É óbvio que tenho alguns compromissos fixos, mas acabo trabalhando um pouco todos os dias.
O que você espera do mercado de inovação no Brasil? Onde pretende colocar sua energia?
Tem muita coisa acontecendo, e ainda está meio cinzento o que vai acontecer. Algumas teses estão balançando. Alguns escritórios de advocacia, por exemplo, estão demitindo muitas pessoas por causa da IA, porque agora usam a tecnologia para analisar contratos. Pessoalmente, acho esse tipo de decisão prematura. Há empresas contratando softwares para analisar processos judiciais e existe um grande medo coletivo de que todo esse trabalho vai desaparecer. Não acredito muito nisso, mas haverá sim uma mudança na mão de obra.
Especificamente no mercado de inovação brasileiro, há muitos problemas a resolver. Setores de CRM e meios de pagamento, por exemplo, já têm soluções de sobra. Precisamos olhar para os problemas reais, como segurança, infraestrutura, saúde e educação.
Tenho visto muita coisa boa começando a surgir para enfrentar desafios que o país acaba deixando nas mãos do governo ou de ONGs. Isso deve acontecer nos próximos anos com o avanço da IA, desde que as pessoas consigam tomar as decisões certas sobre o que fazer.
Como você enxerga o papel da mídia especializada em um cenário de produção massiva de conteúdo com IA?
Não sei se sou purista demais, mas estou achando um pouco triste o caminho que isso está tomando. Já vemos grandes portais usando IA, e você lê um texto e pensa: a profundidade está muito baixa, os erros estão muito claros. Tenho medo de que jornalistas que dedicam tempo a conversar e fazer as perguntas certas se tornem cada vez mais raros.
Recentemente, recebi um pedido de entrevista por e-mail, com 20 perguntas para responder, e tenho certeza de que o texto publicado foi baseado em IA. Sei que não dá para ignorar a tecnologia. É possível gravar uma entrevista e usar ferramentas para transcrever as ideias a partir do material. Mas acho que a mídia vai passar por algo parecido com o que aconteceu com a marcenaria.
A marcenaria era um trabalho raro e nobre: o profissional planejava móveis, fazia cadeiras e mesas especiais. Aí veio a industrialização, nos anos 80 e 90, e todo mundo passou a comprar móveis planejados em lojas. Ninguém mais tinha marceneiro. Hoje, o marceneiro é um dos profissionais autônomos mais desejados e mais caros do mercado. Acho que o jornalismo vai passar por algo parecido: as pessoas vão valorizar o profissional sobre quem possam dizer “esse cara faz entrevista de verdade, não está amparado só na inteligência artificial”.
Existe uma curva de adoção maluca: todo mundo usa a tecnologia até que as coisas se equilibrem. Acho que as pessoas vão valorizar muito o que é feito de verdade, com as mãos e com o cérebro.
Você pensa em empreender novamente?
Não tenho uma cartilha definida, mas estou sempre atento a oportunidades e desenvolvo projetos no dia a dia, como o do vinho. Também estou sempre pensando em desenvolver projetos pessoais, inclusive com IA, junto a amigos.
Dizer que vou empreender novamente em uma empresa de tecnologia, porém, ainda é prematuro. Como continuo nesse ambiente na posição de conselheiro, acabo identificando muitas oportunidades de negócio. Mas, por enquanto, ainda não surgiu nenhuma em que eu esteja disposto a mergulhar de cabeça.
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