Raphael Dyxklay queria ser escritor. Tanto que, na faculdade, não se contentou com um curso e fez dois ao mesmo tempo, em Letras e Literaturas. Hoje, porém, em vez de resenhar livros, ele é cofundador da Barte, fintech de infraestrutura financeira para médias e grandes empresas.
A mudança começou ainda na faculdade. Raphael foi pai aos 18 anos e trabalhou como crítico cultural e tradutor antes de migrar para a tecnologia — segundo ele, um caminho para “ganhar dinheiro mais rápido”. Depois de criar uma primeira empresa e passar por Creditas, Loft e Olist, fundou a Barte com o sócio Caetano Lacerda, há cerca de cinco anos.
Desde o início, a ambição ia além de pagamentos. A empresa começou nessa frente, mas já testava soluções de gestão financeira e crédito e buscava construir uma operação de ponta a ponta para os times financeiros. Com o avanço da inteligência artificial e, mais recentemente, da tecnologia agêntica, a fintech encontrou uma nova forma de colocar esse plano em prática, automatizando processos e conectando informações para apoiar a tomada de decisão.
Agora, Raphael quer aproveitar esse movimento para acelerar a próxima fase da empresa. A meta é consolidar a Barte como líder em IA para times financeiros, enquanto mantém a expansão no mercado de pagamentos. Por trás dessa estratégia está também uma visão de longo prazo sobre cultura e trabalho, utilizando seus produtos e seu modelo operacional para influenciar a forma como as empresas funcionam no futuro.
Nesta edição do 5 Minutos, Raphael fala sobre a evolução da Barte, as apostas para os próximos 12 a 18 meses e o papel que a IA já ocupa em sua rotina. O executivo também explica por que enxerga na tecnologia uma forma de ampliar sua capacidade de acompanhar o negócio à medida que a empresa cresce. Veja, a seguir, os melhores momentos desta conversa:
Você fez duas graduações simultâneas, em Letras e Literaturas. O que a formação em humanidades traz hoje para a forma como você constrói e lidera uma fintech?
Eu queria ser escritor e também atuava como crítico e estudioso literário. Nessa área, você precisa estruturar o pensamento e construir hipóteses lógicas dentro de um contexto ambíguo e subjetivo. Apesar da ideia popular de que arte é puramente questão de gosto, não é bem assim. A literatura me ajudou a ser lógico e estruturado mesmo em cenários abstratos. Ela também traz uma contribuição indireta na compreensão de comportamento humano e no uso do storytelling.
Além disso, era um ambiente bastante competitivo. Eu convivia com colegas que hoje dão aulas em universidades como Stanford; pessoas extremamente obcecadas em ser as melhores no que faziam. Outro aprendizado importante foi o hábito de buscar a fonte primária das informações. Na literatura, o foco não é o que os outros analisaram sobre as obras, mas o contato direto com os livros para construir uma percepção própria das nuances. Quando entrei no mercado corporativo, me assustei ao ver o quanto as pessoas aceitam informações secundárias e simplificadas sem ir à raiz das coisas.
A Barte começou focada em pagamentos e, com o tempo, expandiu bastante o portfólio. Esse já era o plano ou foi uma resposta à demanda do mercado?
Sempre esteve no plano. Quando começamos, atávamos em pagamentos por um ângulo diferente do atual, mas a visão sempre foi ser uma solução ponta a ponta para o ecossistema financeiro das empresas.
Desde o primeiro ano, além de pagamentos, realizamos testes com gestão financeira e crédito. Muitos desses primeiros testes não deram certo de início. Crescemos rapidamente em pagamentos até que o avanço da inteligência artificial, especialmente no último ano com as tecnologias agênticas, nos permitiu absorver os processos executados pelos times financeiros.
Atualmente, o mercado ainda não possui um produto plug and play que automatize completamente a operação do CFO. Por isso, adotamos o modelo de Forward Deployed Engineer, embarcando especialistas dentro dos times dos clientes para atuarem como o braço direito do gestor. A partir disso, integrarmos nossa infraestrutura para unificar os contextos de dados, automatizar rotinas e elevar a qualidade das decisões.
Falando em IA, como você utiliza a tecnologia na sua rotina profissional e pessoal?
Na Barte, operamos como um laboratório de IA, auxiliando a transformação de times financeiros. Para o meu uso pessoal como fundador, o maior valor está no suporte ao contexto unificado.
Conforme a empresa cresce, aumenta o desafio de acompanhar os detalhes operacionais. A IA me proporciona a capacidade de manter a profundidade de contexto e a qualidade de tomada de decisão que eu tinha quando a equipe contava com apenas 15 pessoas, compensando as limitações naturais de memória e tempo.
Acompanhando suas publicações no LinkedIn, vê-se um forte posicionamento sobre cultura e gestão de pessoas. O que é inegociável na cultura da Barte?
Bastante coisa, mas destaco dois pilares centrais: o pensamento independente e a intensidade.
Buscamos pessoas com capacidade de pensar pela própria cabeça, com um processo rigoroso de inferência lógica e experimentação, no conceito de First Principles. Não buscamos profissionais que apenas repitam playbooks ou ‘boas práticas’, mas sim pessoas com DNA de pesquisador, capazes de criar conhecimento.
O segundo pilar é a intensidade, que se divide em obsessão pelo trabalho, curiosidade e inconformismo. Isso significa buscar constantemente ideias melhores e soluções inovadoras com senso de urgência. Como o tempo individual é limitado, exigimos que a intensidade seja acompanhada de eficiência: saber priorizar, delegar e encontrar caminhos para executar processos com mais rapidez e menos desperdício de tempo.
Esse trabalho de cultura é feito de forma muito pública. Ter um posicionamento transparente traz impactos nas relações com investidores ou clientes?
Existem custos e benefícios. Nós abrimos os bastidores da empresa para o público. Para nós, cultura é a forma de executar, e não apenas uma declaração de valores.
Privilegiamos a atração dos melhores talentos e assumimos os desdobramentos disso perante o mercado. Já tivemos potenciais clientes que não simpatizaram com nosso posicionamento e investidores que nos pediram esclarecimentos sobre declarações públicas. No entanto, mantemos uma relação aberta, demonstrando que essa é uma estratégia intencional para atrair os melhores profissionais do país e refletir nossa identidade na entrega de nossos produtos e serviços.
A empresa está bem capitalizada no momento? Vocês continuam avaliando novas captações?
Estamos sempre abertos. Atingimos a lucratividade cedo e, desde então, operamos alternando entre aceleração de crescimento — utilizando caixa para investimentos — e períodos de rentabilidade. Mantemos um ritmo agressivo de crescimento e encaramos o capital de risco como uma ferramenta estratégica, avaliando prós e contras conforme o momento.
Quais são as prioridades da Barte para os próximos 12 a 18 meses?
Nosso objetivo é consolidar a liderança incontestável no mercado de inteligência artificial para times financeiros, um segmento em forte expansão no qual já atuamos à frente.
Paralelamente, no segmento de infraestrutura de pagamentos — um mercado multitrilionário dominado por grandes instituições —, buscamos ser os líderes da nova geração. É um setor em consolidação e com altas barreiras de entrada e exigências regulatórias, onde players de porte intermediário têm enfrentado dificuldades de escala. Hoje, a infraestrutura da Barte já processou transações para mais de 10% dos adultos brasileiros.
Para o próximo ciclo, esperamos acelerar o crescimento orgânico impulsionado pela qualidade do produto, gerando forte recomendação boca a boca entre clientes de médio e grande porte.
Estamos construindo um projeto de longo prazo. Nem eu nem meu sócio temos o perfil de fundadores que se afastam da operação após um eventual IPO; nosso foco é criar uma liderança global nas próximas décadas.
Além dos números, temos o propósito de influenciar o mercado corporativo, onde identificamos uma escassez de pensamento profundo. Queremos transformar o futuro do trabalho, estimulando a autonomia dos profissionais, quebrando estruturas engessadas de plano de carreira e incentivando uma postura de dono e pesquisador em todas as áreas.
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