A tecnologia chega a 2027 diante de uma equação difícil. A inteligência artificial (IA) saiu rapidamente da fase de experimentação e entrou nas metas de negócio, enquanto a pressão por velocidade e resultado aumentou. O orçamento, porém, não cresceu na mesma proporção.

Para entender como os líderes de tecnologia pretendem lidar com esse descompasso, o IT Forum Inteligência realizou uma prévia da pesquisa Antes da TI, a Estratégia 2027, com 106 CIOs de grandes empresas brasileiras, sobre prioridades, investimentos e desafios para o próximo ano.

Metade dos respondentes atua em empresas com faturamento anual entre R$ 1 bilhão e R$ 5 bilhões, 59% estão em organizações que operam somente no Brasil e 83% administram orçamentos de TI de até R$ 200 milhões. Nesse contexto, cada decisão pesa: para boa parte dessas organizações, acelerar uma nova frente significa escolher onde concentrar recursos, ou de onde retirá-los.

A IA virou consenso. O orçamento, não

Se existe uma prioridade clara para 2027, ela é a IA. Entre os CIOs ouvidos, 81% pretendem aumentar muito os investimentos ou fazer de IA generativa e agentes sua principal aposta. Nenhuma outra frente chega perto desse patamar: dados e analytics, a segunda mais citada, aparece com 47%. Na outra ponta, tecnologias que já ocuparam espaço relevante nas agendas de inovação, como computação quântica, edge computing e realidade aumentada, ficam fora das prioridades de investimento de cerca de metade dos entrevistados.

A ambição em IA, no entanto, esbarra no limite financeiro. Para 65% dos CIOs, o orçamento de TI em 2027 ficará estável, diminuirá ou crescerá no máximo 10%. Apenas 14% esperam expansão superior a 20%. E, entre os que pretendem acelerar fortemente os investimentos em IA, um em cada quatro terá orçamento total congelado ou menor que o de 2026. A pergunta deixa de ser apenas quanto investir em IA e passa a ser de onde virá o dinheiro para financiá-la.

Hoje, a maior fatia do orçamento médio vai para manutenção e sustentação (27,2%), seguida por pessoas (21,6%) e por crescimento e inovação (19,2%), bloco que concentra as novas iniciativas de IA. Nas empresas com orçamento mais pressionado, a equação fica ainda mais difícil: manutenção sobe para 32,7%, enquanto crescimento e inovação caem para 16,2%. Na prática, o dinheiro destinado a transformar a operação passa a disputar espaço com o custo de mantê-la funcionando.

O gargalo não está apenas na tecnologia

Quando perguntados sobre o que mais preocupa para 2027, os CIOs não apontam uma tecnologia específica. A resposta mais frequente, citada por 60%, é não conseguir entregar na velocidade esperada pelo negócio. Em seguida vêm cibersegurança (56%) e a capacidade da própria estrutura de TI para lidar com os desafios trazidos pela IA (55%). Somando velocidade e estrutura, 83% dos CIOs mencionam pelo menos uma das duas preocupações, e 32% citam ambas.

O dado expõe um problema de capacidade. Cada novo projeto de IA não chega a uma estrutura vazia: disputa profissionais, orçamento, infraestrutura e atenção da gestão com sistemas que precisam continuar funcionando e com outras iniciativas estratégicas. Por isso, adicionar tecnologia não significa, necessariamente, ganhar velocidade. Sem capacidade extra ou uma revisão das prioridades, novas iniciativas podem apenas aumentar a fila de demandas da TI.

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O que fica à sombra da IA

Algumas das principais tensões da pesquisa aparecem quando as prioridades de investimento são comparadas aos desafios relatados pelos CIOs.

Dados. Entre os executivos que pretendem acelerar em IA, 48% não colocam dados, analytics e BI entre as frentes de crescimento forte. Nas respostas abertas, porém, integração, qualidade e governança de dados aparecem como condições para a IA avançar. Há, portanto, uma possível distância entre a prioridade dada à aplicação e a destinada à sua fundação.

Cibersegurança. O tema preocupa 56% dos CIOs, mas apenas um respondente o classifica como principal aposta de investimento. Entre os que citam segurança como preocupação, 61% pretendem apenas manter ou aumentar pouco os investimentos na área. O risco está no radar, mas não necessariamente se traduz em mais orçamento.

ERP. A categoria aparece entre os projetos estratégicos de 28% dos respondentes, enquanto 48% pretendem apenas manter o nível de investimento. Aqui, a agenda é movida também por necessidades operacionais, como fim de suporte e adequações à Reforma Tributária, citada por 7% dos CIOs como projeto ou desafio para 2027.

Cloud e fornecedores. Oito CIOs pretendem reduzir investimentos em cloud e infraestrutura, e FinOps não aparece espontaneamente nas respostas. Ao mesmo tempo, 35% falam em diversificar fornecedores para evitar dependência, mas apenas 7% apontam essa dependência como preocupação relevante. Entre os 27 CIOs que trabalham com 80 fornecedores ou mais, só oito planejam consolidar esse ecossistema.

Em conjunto, os dados sugerem uma agenda em que a camada mais visível da transformação avança mais rápido do que parte das estruturas necessárias para sustentá-la.

Os sinais de que o jogo está mudando

As respostas abertas também revelam mudanças na forma como os CIOs tratam a IA. A primeira é a passagem dos copilotos para os agentes: 18% dos executivos já citam nominalmente agentes autônomos ou arquiteturas agênticas entre os projetos para 2027.

A segunda é a cobrança por resultado. Convidados a apontar um único desafio capaz de destravar os demais, 33% mencionam IA, principalmente em torno de adoção, escala e retorno. Outros 11% falam explicitamente em geração de valor ou ROI. O movimento indica uma mudança de estágio: experimentar já não basta, e a discussão passa a ser como transformar a tecnologia em resultado mensurável.

A terceira está na governança. O tema aparece em 13% das respostas abertas e, para 8%, já é um projeto formal. À medida que a adoção cresce, aumenta também a necessidade de controles sobre risco, responsabilidade, acesso e uso da tecnologia.

Da ambição à capacidade de execução

Um dado ajuda a sintetizar o desafio de 2027: 71% dos CIOs não marcaram nenhuma categoria como “a aposta do ano”. Isso não significa ausência de investimento. Pelo contrário, os recursos estão distribuídos entre diferentes frentes. Com orçamento restrito, porém, essa pulverização aumenta o risco de que muitas iniciativas avancem pouco ao mesmo tempo.

Para quem ainda está fechando o planejamento de 2027, a pesquisa aponta três movimentos:

Escolher onde concentrar recursos. Se tudo é prioridade, a execução continua fragmentada. Reduzir o número de projetos estratégicos ajuda a deixar claro quais iniciativas realmente justificam disputar orçamento, pessoas e atenção da liderança.

Buscar capacidade dentro da própria operação. Com 27,2% do orçamento médio destinado a manutenção e sustentação, financiar novas prioridades passa também por revisar contratos redundantes, sistemas subutilizados, aplicações legadas e sobreposição de fornecedores. Antes de pedir mais orçamento, há espaço para discutir como o atual está alocado.

Tratar a fundação como parte da estratégia de IA. Dados, segurança, infraestrutura e governança não são agendas paralelas à IA. São as condições para colocá-la em produção, escalar seu uso e transformar experimentação em resultado de negócio.

O retrato dos 106 CIOs mostra, portanto, menos uma disputa entre investir ou não em tecnologia e mais uma disputa pela capacidade de escolher. A IA já conquistou seu lugar na agenda. O desafio de 2027 será encontrar espaço no orçamento, na infraestrutura e, principalmente, nas equipes para transformá-la em resultado.

Nesse cenário, a pergunta mais importante do planejamento é: o que estamos dispostos a deixar de fazer para financiar aquilo que realmente consideramos estratégico?

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